Anúncio 30 – Sedução de escravo ou furto
4.2 A Imprensa em Pernambuco
4.2.1 O Diario de Pernambuco
Os jornais são produtos sociais frutos das necessidades do mundo capitalista, pois além de fazerem circular a informação, são responsáveis por apresentarem ao público as notícias e novidades sobre produtos a serem conhecidos e desejados. Em 7 de novembro de 1825 o Diario de Pernambuco – DP – iniciou suas atividades, capitaneadas pelo tipógrafo Antonino Jose de Miranda Falcão, com o formato 24 ½ x 19 centímetros, como simples “folhas de anúncios” as quais se pagavam 40 réis por exemplar.
Na época da fundação do jornal Diario de Pernambuco, Olinda era a capital da província, e não o Recife, que só assumiu esse posto em 15/02/1827. Muitos acontecimentos importantes marcaram aquele ano no Recife como o fuzilamento de Frei Caneca, fundação do Liceu Provincial e a criação do primeiro corpo da Polícia Militar. A Presidência da província
119 O Frei Joaquim do Amor Divino Caneca nasceu no Recife em 1779, filho de Domingos da Silva Rabelo e
Francisca Maria Alexandrina de Siqueira. O apelido Caneca foi dado à profissão de seu pai que era dono de uma oficina de tanoeiro. Ordenou-se em 1799, aos 20 anos, tendo se dedicado ao ensino. Aos 38 anos, envolve-se na Revolução Pernambucana de 1817 e foi um dos cabeças da Confederação do Equador. O Frei foi desautorizado das ordens religiosas e condenado à morte; em 15 de fevereiro de 1825 no Recife, foi fuzilado no forte das Cinco Pontas. Para Sodré (2011, p. 149), Frei Caneca permanece como uma das mais gloriosas figuras da imprensa brasileira.
120 Pessoa (2006) já realizou um estudo mais sistemático sobre os textos e a linguagem veiculados no primeiro
era exercida pelo prócer mineiro José Carlos Mayrink da Silva Ferrão (NASCIMENTO, 1968, p. 21).
As análises de Pessoa (2006, p. 103) sobre o primeiro número do DP já apontavam na introducção que seria um “Diario de anúncios”, acolhendo anúncios de diversas naturezas: anúncios de fugas e apreensões de escravos, achados e perdidos, além de serviços oferecidos à população121 mais abastada do Recife. Aos anúncios acrescentar-se-iam as notícias, comentários sobre as ordens do Império de Pedro II, já que o jornal defendia as posições conservadoras. Muitos acontecimentos históricos foram publicados ou reproduzidos em suas páginas. Na edição 43, de 31 de dezembro de 1825, por exemplo, foi reproduzida a carta escrita por D. João VI, datada em 15 de novembro, com a nomeação de seu filho, D. Pedro I, como o Imperador do Brasil. A carta-documento declarava a Independência do Brasil em relação a Portugal e estabelecia as leis regulamentando as propriedades das terras brasileiras.
As TDs apontadas por Pessoa no jornal são: introducção (1), annuncios (17), informes sobre movimentações portuárias (12) e avizo (1). Em quase todas as TDs presentes no DP há certas características linguísticas, tais como: períodos longos, separação entre verbo e seu objeto, inversão na ordem das orações, modalizações imperativas, empregos de clíticos, estilo paratático e uso de certos anafóricos, etc. Vejamos a primeira página:
Figura 8: Capa do DP nº. 1 (7/11/1825).
Já na primeira publicação do DP havia uma “seção” intitulada “roubos” onde se leem duas notícias: a fuga de um escravo e a do furto de um burro. Essas notícias apontam para duas considerações: a primeira delas é a ausência de divisão de assuntos atinentes à mesma temática e a segunda é a confirmação de que o escravo era concebido como “coisa, que podia ser vendido ou alugado da mesma forma que se fazia a um animal. À época, os animais de montaria como os cavalos e os burros eram valiosos por servirem de meio de transporte principalmente às pessoas. Vejamos os anúncios:
Figura 9: Seção “Roubos” do DP n. 1 (1825)
Desde o primeiro anúncio referente à fuga de escravo publicado no jornal impresso, são apresentadas as partes que formam a TD, e a cada uma delas certos elementos já se mostravam fortemente fixados122 como a data da fuga, o local, o nome do escravo, na introdução; os sinais do negro em fuga, no desenvolvimento; e a recompensa configurada pelo léxico arcaizado “alviçaras”, no fechamento.
Nascimento (1968) afirma que no ano de fundação do DP havia no Recife 66 jornais de circulação semanal ou bissemanal de todos os feitios e de diferentes orientações e características, por isso o periódico foi considerado por Freyre (2010, p. 46) o jornal ideal para os estudos de antropologia física e sociocultural.
Os recursos gráficos (itálicos, letras maiúsculas, palavras soltas, como espécies de títulos sintéticos, por exemplo), podiam indicar, muitas vezes, a mudança de assunto, a inclusão de um destaque ou mesmo a divisão de seções para cada parte do jornal, como afirma Barbosa (2010).
O primeiro número do DP foi publicado numa segunda-feira 7 de novembro de 1825, com apenas 4 páginas, divididas em 8 colunas. A Introducção pode ser considerada como o
122 No item 4.1.2.1 “Estrutura do anúncio de fuga de escravo”, retomaremos os aspectos macroestruturais desse
editorial dos jornais atuais; nela há explicações sobre a necessidade de um veículo que facilitasse as transações entre o público e a quem pudesse interessar. O Diario se ocuparia de compras, vendas, leilões, aluguéis, arredamentos, aforamento, roubos, perdas, achados, viagens, amas-de-leite e fugidas e apreensões de escravos. Além disso, o jornal informaria as entradas e saídas de embarcações. Numa época em que as estradas eram precárias, os navios transportavam todos os produtos que entravam e saíam das províncias, as notícias dessa natureza interessavam a todos os comerciantes como também à população em geral.
No início do século XX, 1901, o jornal já tinha quatro páginas dedicadas às notícias sobre as embarcações, ouras vindas do interior ou exterior, e várias colunas de propagandas de diversos produtos como remédios, alimentos, aulas particulares, etc., consolidando, dessa maneira, o gênero “anúncio”. Naquela época, o jornal já era controlado pelo poder estatal representado pelo vice-presidente da República, Rosa e Silva.
É claro que para se manter em circulação até os dias atuais, o DP precisou acompanhar as mudanças tecnológicas e sociais, aplicando novas técnicas de confecção do jornal impresso, mudando o design gráfico e abordando as notícias de outra forma. Além disso, o jornal faz uso de diversas tecnologias na produção de informação e entretenimento, com inovação no layout com o recurso de cores, fotos e infográficos para realçar as notícias da mídia impressa e de programas especializados para o acesso do jornal pelos computadores e celulares.
Figura 10: DP impresso séc. XXI (10/01/2015).
Atualmente, o DP é publicado em duas grandes mídias: o impresso e o digital. O impresso tem em sua estrutura geral de capa: o nome do jornal, a data e a manchete que está diretamente relacionada ao assunto mais importante daquele dia. As seções são diagramadas
em colunas, textos, infográficos e fotos legendadas. As seções fixas123 estão localizadas nas folhas internas e são divididas por assuntos de interesse geral: “Política”, “Brasil”, “Mundo”, “Economia”, “Superesporte”, “Vida Urbana”124, “Viver”, “Últimas” e “Opinião”. Cada dia
da semana veicula um Caderno Complementar, com assuntos de interesses para público específico: “Aurora”, “Admite-se”, “Entrevista”, “Informática”, “Vrum”, “Lugar Certo”, “Diarinho” e “Gastrô”.
A versão digital do DP procura atender a um novo público que busca informações instantâneas, dinâmicas e de forma interativa. Por ser o resultado da convergência entre diferentes modos de informação, o jornal on-line opera com recursos de hipertexto, interfaces de gêneros, base de dados e vídeos, o que propicia a dinamicidade das informações.
Com a mídia digital, o jornal democratizou o acesso à notícia, mas este acesso é restrito e ainda está aquém de muitos leitores no Brasil, devido às dificuldades financeiras de muitas cidades e dificuldades de acesso a regiões sem planejamento estratégico de uma tecnologia voltada à informação. O leitor da internet é mais seletivo que aquele do jornal impresso. Os recursos gráficos, o colorido, os enquadramentos das imagens e a disposição dos gêneros na tela tornam o jornal mais lúdico e interativo.
Este exemplo do DP on line foi veiculado no mesmo dia daquele impresso:
123 No tópico 4.1.1 vamos abordar a classificação de Bonini (2011) sobre as seções fixas e variáveis nos jornais. 124
No DP os anúncios sobre os casos policiais aparecem no caderno “Vida Urbana”, que foi submetido à análise por um período de tempo, em 2014, mas não foram encontrados anúncios de procurados e/ou foragidos para que estabelecêssemos a comparação entre estes e os anúncios de escravos.
Figura 11: DP digital séc. XXI125 (10/01/2015).
Lage (2006a) afirma que o futuro da notícia ficará mais bem representada através da reportagem que tem por matéria prima a informação constante, deixando a cargo da sociedade-leitor ou espectador o direito de avaliar a informação segundo o seu próprio repertório, independente do formato ou conteúdo.
Numa análise diacrônica do gênero notícia, é fácil reconhecer a transformação que o gênero passou desde a sua entrada nos jornais na ocasião da implantação da imprensa no Brasil até os dias atuais. As notícias de hoje têm o poder de agendamento e são publicadas tanto em caráter geral, nos jornais, como em cadernos específicos a depender do assunto. A tipologia textual das notícias no século XIX era predominantemente narrativa e descritiva, tendo como finalidade dizer a verdade, de acordo com a ordem dos acontecimentos, ao contrário das notícias do século XXI que se centram nos aspectos argumentativos.
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