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2. A POLÍTICA PÚBLICA DE MEIO AMBIENTE E OS

2.2. POLÍTICA DE EA: O DESAFIO DE GANHAR NOVOS CONTORNOS

2.2.1. O dilema da participação social no processo de gestão ambiental

como instrumento de democratização do conhecimento no campo, ao propor e apoiar projetos de educação que utilizam metodologias voltadas para o desenvolvimento das áreas de reforma agrária”.

Segundo o documento do Pronera,

a Educação do Campo está ajudando a produzir um novo olhar para o campo. E faz isso em sintonia com toda uma nova dinâmica social de valorização do campo e de busca de alternativas para melhorar a situação de quem vive e trabalha nele. Uma dinâmica que vem sendo construída por sujeitos que já não aceitam que o campo seja lugar de atraso e de discriminação, mas sim consideram e lutam pra fazer dele uma possibilidade de vida e de trabalho para muitas pessoas, assim como a cidade também deve sê-lo; nem melhor nem pior, apenas diferente; uma escolha. (BRASIL, 2007c).

Pode-se compreender que o processo mobilizatório de sujeitos sociais traduz-se na agenda de novas ações e de políticas públicas para a promoção do desenvolvimento do campo. Como resultado dessa articulação, mencionam-se a aprovação das “Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo” (Parecer no 36/2001 e Resolução 1/2002, do Conselho Nacional de Educação), bem como a constituição e a consolidação de ações de escolarização formal para trabalhadores rurais.

O exemplo do Pronera permite compreender que a concepção de política pública caracteriza-se por um processo pedagógico e mobilizador desde a sua elaboração, passando pela negociação e implementação. Esse processo articulador contribui para instaurar momentos de diálogos e participação, debate e construção coletiva de programas. Com isso, além de mapear as raízes estruturais dos problemas socioambientais enfrentados no cotidiano, constroem-se propostas que atendem às exigências da população.

2.2.1 O dilema da participação social no processo de gestão ambiental

Para discutir a política pública de educação ambiental como parte de uma proposta de governo, no caso a gestão do governo Lula (2003-2006), é importante fazê-lo no quadro das políticas globais em curso. Isso nos obriga a reconstruir, mesmo que parcialmente, as ligações

49 entre o contexto político brasileiro e as concepções neoliberais gestadas no âmbito internacional.

A chegada de um operário com histórico de lutas sociais à Presidência da República e a posse de uma ministra com trajetória de luta no movimento ambientalista trouxeram perspectivas de materialização de um campo de luta ambiental marcado por uma concepção socioambiental. Outras concepções, contudo, estão presentes na disputa pelo poder, sobressaindo, naquelas circunstâncias históricas, a visão hegemônica da lógica do capital.

A política ambiental do MMA, na gestão 2003-2006, teve quatro diretrizes de ação: desenvolvimento sustentável, transversalidade, fortalecimento do sistema nacional de meio ambiente e o controle e participação social (BRASIL, 2005a, p. 9). Embora, como diretrizes, todas estejam integradas e relacionadas, é com a última, a de controle social e participação, que este estudo trava alguns diálogos. O MMA reitera, em seus documentos oficiais, o objetivo de fortalecer os órgãos colegiados representativos da sociedade como espaço de diálogo e elaboração de política pública.

Com essa finalidade, o MMA promoveu duas Conferências Nacionais de Meio Ambiente (CNMA), em 2003 e 2005, e declarou, no texto-base da II CNMA, que elas representavam um compromisso “do atual governo com a consolidação da democracia participativa reafirmada pela adoção de iniciativas que envolvem os diversos setores sociais na construção de políticas públicas e no exercício do controle de gestão”. (BRASIL, 2005a, p. 9).

Dessa forma, houve a intenção de estabelecer mecanismo de interação com a sociedade, que, segundo o MMA, demonstrou a preocupação política na instauração de um processo de discussão com a sociedade sobre as políticas ambientais,um movimento que colocassse a transformação do Estado como lugar de confronto dos interesses contraditórios. Esse movimento, que se propôs a instaurar novos canais de diálogo Estado−Sociedade para uma gestão democrática participativa, como mostrou a iniciativa do MMA, foi uma ação pontual. Existem várias concepções de democracia participativa (Demo, 2001; Santos, 2003). Para Santos:

50 Na democracia participativa, os horizontes são as perguntas que interpelam a possibilidade de ampliar o cânone democrático. Através dessa possível ampliação, o cânone hegemônico da democracia liberal é contestado na sua pretensão de universalidade e exclusividade, abrindo-se, assim, espaço para dar crédito a concepções e práticas democráticas contra-hegemônicas (SANTOS, 2003, p. 71).

Nesse sentido, essa ação do MMA representa a possibilidade de discutir políticas como forma de aspiração e fortalecimento democrático. No entanto, como diz Santos (2003), acreditar que emancipação social virá pelo exercício da democracia participativa pode ser um equívoco, uma vez que a “participação possui vulnerabilidade e ambigüidade, pois, ao combaterem interesses e concepções hegemônicas, esses processos são muitas vezes combatidos frontalmente ou descaracterizados por via da cooptação ou da integração” (2003, p. 60).

Sá e Santos (2005), em artigo sobre a questão da democracia e da possibilidade de emancipação e inclusão social a partir de uma reflexão sobre a gestão sustentável do território, com dados resultantes do processo mobilizatório e participativo para a Pré-Conferência Nacional de Meio Ambiente do Distrito Federal, em 2003, reconhecem que,

no nível local, [...] os resultados apresentaram-se de modo antagônico e concorrente. Por um lado, a mobilização social foi pautada pelos mesmos padrões clientelistas cooptados nas formas neoliberais de reprodução da dependência e de participação fictícia da população. Mas, por outro, as contradições decorrentes do antagonismo entre a gestão autoritária e o impacto dos conflitos ambientais geraram um espaço de interlocução emergente entre o poder público e sociedade civil, no qual novas possibilidades democráticas se abrem (SÁ & SANTOS, 2005, p. 4).

Mediante esse relato, é possível entender que, embora o processo de emancipação seja de longo prazo, contribuiu para produzir ações pontuais, que provocaram interações e retroações em um colegiado de indivíduos que representam a complexidade dos interesses e possibilidades de superação das causas estruturais e conjunturais dos problemas ambientais.

51 Essa prática social contribuiu para a reflexão e a emergência de outras compreensões significantes, podendo vir a provocar movimentos que gerem processos emancipatórios. Segundo Demo (2001), os processos emancipatórios são complexos, contraditórios e de longo prazo; “são os processos mais importantes que as sociedades conseguem produzir em sua história, porque sinalizam a libertação possível dentro das circunstâncias dadas” (p. 181).

Para esse autor, é

ingênua a expectativa de que o Estado seria a instância ideal da promoção da cidadania, [...]. Podemos encontrar nichos de atuação coerentes, mas é difícil imaginá-las como qualidade de um governo inteiro. Não é impossível, porque há governos bons, apesar de tudo. Mas será mister reconhecer que essa qualidade está menos no governo ou no Estado do que no controle democrático (DEMO, 2001, p. 172).

Nesse entendimento de Demo, o controle democrático não é feito pelo Estado. Ao contrário, é interpretado e assumido como uma diretriz pelo MMA, o ProNEA e a DEA. Segundo a ministra de Meio Ambiente, Marina Silva, em discurso pronunciado na abertura da II Conferência Nacional de Meio Ambiente, em 2005, o MMA entende que as políticas públicas “devem ser formuladas num processo aberto, horizontalizando, com a participação de todos os segmentos da sociedade” (BRASIL, 2005c, p. 16). Ela reafirmou também que o controle e a participação da sociedade são diretrizes essenciais, pois “é impossível fazer política ambiental sem a participação da sociedade” (p. 18), e considerou a Conferência como exemplo de estratégia para fortalecer o diálogo e o controle social.

No ProNEA (BRASIL, 2005h, p.33), o controle democrático é assumido como diretriz cuja denominação é “democracia e participação social”. Já para o programa de política pública da DEA, a compreensão de controle democrático está configurada no processo de criação e fortalecimento de instâncias e fóruns de diálogo e construção de políticas públicas

52 locais e regionais, como as Comissões Interinstitucionais Estaduais de Educação Ambiental (CIEAs)3, em processos formativos instaurados pela ação de coletivos educadores.

Diante do exposto e resgatando a reflexão de Demo, pode-se entender que a provocação, a elaboração e a implementação das políticas públicas não são competência exclusiva do Estado, devendo ele, contudo, contemplar a interação e o diálogo existentes com a sociedade. Assim, o controle democrático não é garantido pelo Estado, mas pela sociedade. Isso significa reconhecer que há uma complexidade de fatores que se inter-relacionam quando da sua formulação e implementação, desde os econômicos e os políticos aos históricos e culturais, pois as políticas públicas, num Estado democrático, prevêem a gestão social (Rache, 2004).

Da mesma forma, uma política pública está diretamente associada às aspirações, aos interesses, aos conflitos e às concepções referentes a determinado projeto de sociedade, o que leva a lutar para que aquela venha a existir. Por isso, os sujeitos históricos da educação ambiental possuem vários projetos e sonhos de sociedade.

2.3 A CONSTITUIÇÃO DA EA: NOVAS FORMAS DE SER E COMPREENDER O

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