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CAPÍTULO II – O DIREITO FUNDAMENTAL AO MEIO AMBIENTE

2.3 O Direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado

Tanto a “Constituição Federal do Brasil de 1988 (CFB/8871)”, como a Constituição da

República Portuguesa de 1976 (CRP/76) estabeleceram balizas e diretrizes a partir de princípios, implícitos ou explícitos, orientadores da relação do homem com o meio ambiente e da forma através da qual o Estado atua, em ação ou em não ação, na tutela desse direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.

eólica produzida no país tem capacidade de atender aproximadamente 12,4 milhões de pessoas (um pouco mais que toda a população de Portugal). Isto não é pouca coisa.

71 É comum no Direito brasileiro se utilizar a expressão “Constituição da República” para se referir à Constituição

Federal do Brasil (ou apenas Constituição Federal). É que sendo o Brasil uma federação, compõe-se de 26 Estados e um Distrito Federal, e cada um deles possui sua própria Carta Constitucional, que são fundamentadas nos princípios e preceitos orientadores constantes na Carta Maior. Todavia, trazem suas peculiaridades, no que diz respeito à autonomia quanto ao exercício e organização dos poderes estatais (Executivo, Legislativo e Judiciário) e à matéria própria de cada ente Estatal, além do disciplinamento dos temas autônomos e/ou residuais (Tributação, Economia e Meio Ambiente, por exemplo). Além disso, cada Estado da Federação possui seus Municípios, que compõem parcelas autônomas do Estado-membro Esses tais também possuem sua própria legislação regulamentadora (Lei Orgânica Municipal), nos mesmos moldes e limites da Constituição do Estado que estiver inserido. Assim, a expressão “Constituição Federal do Brasil e “CFB/88”” está sendo utilizada nesta investigação apenas para fins didáticos.

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Há, com efeito, na Constituição Portuguesa, uma dimensão objetiva em matéria ambiental, visto que o legislador constituinte estabeleceu como tarefa fundamental do Estado (art. 9º) a garantia dos direitos e liberdades fundamentais (b), a promoção do bem-estar e da qualidade de vida do povo, bem como a efetivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais (d), além da defesa da natureza e do ambiente e a preservação dos recursos naturais (e).

Mais especificamente é o artigo 66º que dispõe: “1. Todos têm direito a um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado e o dever de o defender.”

Tais fatores “originam deveres de actuação dos poderes públicos, a cargo do Legislador, da Administração e dos Tribunais.”72, além do dever de cada cidadão em defender esse meio

ambiente ecologicamente equilibrado.

Desse modo, conforme Vasco Pereira da Silva, já citado,73 o “legislador constituinte

português estabeleceu a participação ativa e positiva do Estado para que seja preservado o meio ambiente, sem, contudo, impedir o desenvolvimento econômico e social da população.”

Já no caso brasileiro, o artigo 225º74 preconiza: “Todos têm direito ao meio ambiente

ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.”

Em ambos os casos, o legislador constituinte preocupou-se em estabelecer os vetores inerentes ao desenvolvimento sustentável, ao mesmo tempo em que ressaltou que é “o meio ambiente ecologicamente equilibrado” o objeto de interesse de tal direito.

Não qualquer ambiente, porque de outra forma estar-se-ia a mitigar a proteção ambiental, máxime porque não é incomum um ecossistema em crônico desequilíbrio, em face de reincidentes e permanentes investidas do homem.

72 SILVA, Vasco Pereira da – Ensinar Verde…Ob. cit. p. 126 73 SILVA, Vasco Pereira da – Ensinar Verde…Ob. cit. p. p. 130

74 Na técnica legislativa brasileira, os artigos de lei somente recebem numeração ordinal somente até o artigo 10º

(inclusive). A partir do 11 a numeração passa a ser cardinal. Nesta dissertação está a se utilizar, neste ponto, a técnica portuguesa.

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Está a se falar sobre mananciais poluídos por esgotos clandestinos ou despejos de rejeitos da indústria, ou mesmo de lixo e de resíduos domésticos. Ou de desmatamento, ou queimadas, ou desvio e represamento indevido de cursos d’água, ou da monocultura e do uso de defensivos químicos potencialmente poluidores. Ou mesmo da indústria que insiste em utilizar energia poluidora como forma de garantir seus baixos custos de produção.

Não há direito fundamental a esse modelo de meio ambiente.

De fato, “é comum identificarmos a raiz de nossos problemas ambientais na forma como nossa cultura se relaciona com a natureza, na ideia de centralidade do lucro, da acumulação, na pretensão de dominação do mundo natural, na desconsideração ou falta de reconhecimento de seu valor em si, na coisificação e insensibilidade da vida alheia, especialmente a não humana, dentre outros.”75

O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado prestigia a preservação e manutenção dos recursos naturais, mesmo quando se leva em consideração a diversidade cultural, sem, todavia, olvidar que o equilíbrio ecológico é a essência do direito ao meio ambiente e, garantia da dignidade humana, núcleo essencial e principal vetor de todos os direitos fundamentais. Essa aqui compreendida, como metaindividual e metageracional.

Não de outra forma a composição plena do Supremo Tribunal Federal do Brasil (STF) quando, em tom de advertência, decidiu: “O direito à integridade do meio ambiente – típico direito de terceira geração – constitui prerrogativa jurídica de titularidade coletiva, refletindo, dentro do processo de afirmação dos direitos humanos, a expressão significativa de um poder atribuído, não ao indivíduo identificado em singularidade, mas, num sentido verdadeiramente mais abrangente, a própria coletividade social”.76

Portanto, o meio ambiente ecologicamente equilibrado pressupõe a inclusão do homem como parte deste ambiente (ideia antropocêntrica), ao mesmo tempo em que também pressupõe uma relação de responsabilidade com o meio ambiente e, por conseguinte, consigo mesmo, posto que ativa parte do todo, pois ali se desenvolve e se vê desafiado ao equilíbrio entre as

75 CLÉVE, 2014. Ob. cit. p. 542.

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relações de demanda, inerentes ao desenvolvimento, e a relações de preservação dos recursos naturais para as presentes e futuras gerações.

Eis porque solidário.

Porque envolve uma permanente relação (muitas vezes tensa) entre o homem (parte da natureza), a natureza e seus recursos, a necessidade de atendimento das demandas próprias do desenvolvimento, a imprescindibilidade de um estado de sustentabilidade dessa relação.

Assim, “todo e qualquer desenvolvimento que se tornar, a longo prazo, negador da dignidade dos seres vivos em geral, ainda que pague elevados tributos, será tido como insustentável. Mas ainda não é tudo. É preciso que o conceito seja pronunciadamente includente, política e socialmente. Numa expressão: incorpore a ‘justiça ambiental’ em sentido lato”.77

2.4. Os princípios gerais orientadores do direito fundamental ao meio ambiente