SEÇÃO 2 - A CONFIGURAÇÃO DO PODER DO ESTADO MODERNO
2.2 O "ESTADO MODERNO" PORTUGUÊS
2.2.4 O direito e as limitações ao poder do monarca
Um último fator que vem a corroborar a ideia de um Estado corporativo e
jurisdicional em Portugal até pelo menos o governo pombalino é o direito, que pelas
fontes e pela estrutura da ordem jurídica repercutia no sistema político-administrativo
da Coroa.
No que se refere aos limites do rei, o direito, especialmente, a doutrina do
direito comum, a principal fonte do direito na época, seguida e aplicada nos Tribunais,
era desfavorável à centralização do poder nas mãos do monarca. Convém então
analisar alguns argumentos jurídicos propostos pela doutrina jurídica que enfraquecem
tal tese. Especificamente, nesse momento, serão examinados duas diferentes
ordens de argumentos. De um lado, os que tratam dos limites dos poderes do rei,
seja quanto à área de atuação seja quanto ao modo do exercício do poder; de outro,
os que se dedicam ao tema da autonomia municipal, principal corpo social que
"enfraquecia" os poderes de cunho mais absolutista do monarca.
Adverte-se o leitor que, no que se refere aos argumentos de limitação dos
poderes do rei, os modelos explicitados a seguir estão dispersos e no fundo de várias
temáticas já tratadas, apenas com o finalidade de sistematizar o raciocínio e visando
deixar mais claro e compreensível o tema, é que são traçadas as linhas abaixo.
Segundo informam Bernardo Sordi e Luca Mannori, foi nesse intuito de submeter
a política à justiça e enaltecer a complexa arte sapiencial de extrair da realidade
empírica as regras naturais que os juristas conservaram a representação técnica do
poder elaborada pelos franceses e italianos do trecento e do quattrocento, que
reduziam todo o exercício do poder da autoridade do rei a uma única função
designada pela palavra iurisdictio, cujo conteúdo consistia em "componer conflictos
sociales a través de recurso a un derecho ya dado"
160.
Portanto, tentando manter-se como principal "classe" de auxílio ao rei para
dizer o justo diante dos progressos da literatura política/alvitrista os juristas tentam
160 MANNORI; SORDI, 2004, p.70.
defender a iurisdictio, de modo a conter os poderes exercidos fora dela – de imperium –
por meio de três modelos teóricos.
161Embasado na concepção corporativa da sociedade, a doutrina jurídica
destacava que de todas as possibilidades funcionais conferidas pela iurisdictio ao
monarca prevalecia no espaço "público" ou "político" a prerrogativa de "fazer justiça",
as demais ações denominadas imperium (merum ou mixto), que envolviam um poder
mais coercitivo e arbitral, eram exercidas em outros espaços de seu governo, como
o oeconomico, o militar e o de impor tributos.
A doutrina ainda diferenciava a atividade feita pelo magistrado por iniciativa
própria, movidos por um interesse geral (merum imperium) da atividade que exerciam
tendo em vista a realização da utilidade de um particular (mixtum imperium). Na
concepção jurisdicionalista o âmbito do merum imperium, seria o que hoje é
designado por "administração ativa", restringia-se à punição penal, ou à atividade e
defesa da paz. Já o mixtum imperium englobava atos relativos à salvaguarda dos direitos
dos particulares.
No decorrer do tempo, com o avanço da "administração ativa" do monarca, o
âmbito desses conceitos vai se alterando, ou melhor, se alargando por meio de
recursos interpretativos, até chegar um momento em que o conceito imperium
equivale a toda e qualquer atividade do príncipe relativa à utilidade pública
162. Para
isso Bártolo criou seis graus hierárquicos tanto para o merum quanto para mixtum
imperium.
Essas hierarquizações feitas pela doutrina do ius commune clássico demonstram
como a doutrina jurídica foi se moldado aos anseios políticos de um monarca, cada
vez mais soberano.
O segundo modelo dogmático estava pautado em um desdobramento dos
conceitos de iurisdictio e de iudicium. Neste caso a doutrina clássica do ius commune
distinguia a ordem processual ordinária, observada durante um processo judicial; da
via extraordinária, arbitrária ou informal. Nesta o magistrado atuava de modo mais livre,
de acordo com uma apreciação pessoal, sem os rigores técnicos e procedimentais
161 Outrossim, cumpre informar que o uso da classificação romana prevista no Digesto se deve ao fato de que sistema dogmático do direito comum não permitia uma classificação material-funcional dos atos do poder (iuditia), mas sim dos meios utilizados para o exercício do poder.
da via ordinária. É justamente "pela via da jurisdição extraordinária ou arbitrária que a
teoria jurídica dos atos de poder vai enquadrar a nova atividade 'ativa' da Coroa"
163.
Por essa via é possível vislumbrar as distinções entre os processos da justiça
ordinária, regidos por um juízo típico da iurisdictio pautado no iudicium dos processos
de imperium, como os de polícia, regulados pela conveniência e oportunidade
do arbitrium.
A utilização política da oeconomia pelo príncipe também se afirmava no interior
da tradição do direito comum, conforme retrata o último modelo de enquadramento
jurídico das funções não jurisdicionais do rei feito pela distinção entre Iustitia e oeconomia
e entre iurisdictio e potesta domestica.
Por esse esquema, percebe-se que nem todo o poder do monarca decorria da
seara da justiça. Contrapondo a esta "se opunha o poder sobre as próprias coisas,
sobre a própria família, sobre os servos e os escravos todas decorrentes do poder de
administração (administratio) do pater sobre a sua própria casa (potestasoeconomica)”.
164A translação do conceito administratio do plano do governo econômico para
o político foi facilitada em virtude de o termo constar no Digesto e pela confusão
entre autoridade e propriedade, que a episteme medieval retirou dos textos
aristotélicos, especialmente, da "Economia domestica"
165.
Nesse modelo temas da utilidade e do bem-estar voltados a satisfazer os
problemas econômicos, produtivos e financeiros do Estado substituem as virtudes
políticas, ou seja, a ideia de "bem comum" da doutrina medieval. Quando, por outras
palavras, a ruptura do modelo aristotélico de governar vai além do simples reajustamento
disciplinar e assume o sentido de uma plena recepção da utilidade econômica no
âmbito da casa e da sociedade civil e como finalidade de potestas publica.
166163 HESPANHA, 1994.
164Ibid., p.279-280.
165Ibid., p.280.
As três perspectivas jurídicas acima delineadas servem como instrumental
para enxergar mais de perto a erupção de uma nova realidade política do poder da
Coroa que deixou de se remeter a uma "administração passiva", de se manifestar
principalmente pela justiça, visando apenas manter a ordem jurídica tradicional
dada para uma "administração ativa", criadora de situações políticas novas, de sua
própria realidade.
Essa situação reflete-se em Portugal, na fase final da época moderna, no
governo de D. José I, quando seu Primeiro Ministro – O Marquês de Pombal – no
intuito de centralizar o poder da Coroa alarga sua área de governo esvaziando
"competências" que pertenciam aos demais corpos da sociedade.
Por fim e em outra sede de argumentos, é possível ver outra limitação jurídica
aos poderes de cunho mais político do monarca (imperium) levando em conta a
discussão da dogmática jurídica acerca da autonomia municipal em face da Coroa.
Em Portugal, a doutrina jurídica praticamente seguia as lições de Francisco
Suárez, da qual se infere que já prevalecia no âmbito da doutrina teológica e jurídica
a noção de que todas as jurisdições tinham origem na jurisdição real. Na prática,
contudo, os juristas relativizavam suas opiniões a favor das localidades escudados
em aspectos técnicos da própria dogmática jurídica.
No que se refere à capacidade estatutária dos municípios a doutrina tolerava
a autonomia jurídica desse corpo social no que fosse concernente aos assuntos
locais, por consequência restava autorizada a criação de um sistema de fontes de
direito paralelo ao "oficial". As Ordenações Filipinas reconheciam a capacidade
estatutária das cidades (I, 66, § 29), porém, para as posturas serem válidas deviam
obedecer ao seguinte rito: resultar de deliberação do Concelho e restringir-se a
matérias do interesse local, como as editalícias, de polícia, sanitárias, entre outras.
Caso houvesse vício formal, os Corregedores ou Ouvidores declaravam-nas nulas, já
se houvesse vício material, ou seja, elaboradas em desacordo ao "bem comum" ou
prejudiciais ao povo, apenas o Rei teria competência para alterá-las ou declará-las nulas.
Outra questão discutida pela doutrina portuguesa era saber se as posturas
poderiam contrariar a legislação real. Nessa hipótese as ordenações eram omissas.
Diante da lacuna normativa, a doutrina interpretando extensivamente o dispositivo antes
referenciado posicionava-se no sentido de que deveriam ser declaradas nulas, visto
que seus conteúdos materiais não poderiam contradizer as leis régias e o direito
geral do reino. Contudo, tal argumento acabava, no final das contas, por favorecer o
direito local, visto que as posturas vigoravam em virtude do consentimento do
príncipe, que chancelou a escolha dos magistrados que confeccionaram as posturas
por meio das eleições.
167Ultrapassadas as questões relativas aos requisitos formais e materiais da
elaboração das posturas, tais normas passavam a valer com "força de lei". Todavia,
segundo a doutrina clássica do ius commune, ainda era necessário cumprir outros
requisitos, tais como: a) as posturas deveriam restringir-se às matérias relativas ao
território, o que exclui regulamentar matérias reservadas apenas ao rei (regalias) como
era o caso da imposição de tributos gerais e a criação de monopólios (estancos);
b) em razão do princípio da especialidade, a jurisdição e os poderes estatutários das
Câmaras estavam funcionalmente atrelados à satisfação do bem comum da
comunidade, conforme estabelecia, também o título 66, do Livro I das Ordenações;
c) por estatuto não se poderiam retirar direitos concedidos pelo direito comum ou
tornar ilícito o que fosse lícito, salvo na hipótese de anuência de todos ou quando
envolvesse causa relativa à utilidade comum.
168Essa última hipótese, concretamente, expande as competências estatutárias
das Câmaras, pois por meio do argumento da utilidade comum, conceito aberto e vago,
tornava-se possível criar regras estabelecendo multas e penas; obrigando ou proibindo
a venda de determinados produtos; fixando regime de cultivo, de pastagem, de
apropriação de bens comuns, entre outras.
169Outro assunto crucial para o tema da autonomia local é o da relevância do
costume, já que muitas regras da vida comum existiam apenas sob a forma
consuetudinária. Regra geral, a doutrina portuguesa do século
XVIIestipulava que o
costume contra legem não devia ser observado, uma vez que transgressor da
doutrina do ius commune clássico ou da lei elaborada pelo príncipe. Contudo, ao sair
do âmbito teórico, a doutrina manifestava-se a favor da aplicação concreta de algum
costume contra legem relativizando, assim, seu posicionamento inicial. "Nem é
verdade que a doutrina dê, em todos os casos, relevo ao costume contrário à lei,
167 HESPANHA, 1994, p.360.
168 HESPANHA, 2006, p.253-254.
nem que ela o negue em absoluto."
170No que se refere ao costume praetem legem
este teria uma eficácia extensa, principalmente, na seara de interpretação dos
negócios jurídicos.
171Pascoal José de Mello Freire dos Reis, autor do século
XVIII, de cunho mais
liberal, pontua que tantos os decretos municipais como os costumes "correntes e
racionais", ou seja, pautados na justiça e na equidade e vigorando por mais de 100
anos, possuíam "força de lei", desde que instituídos em acordo com a forma prescrita
nas Ordenações.
172O autor em realidade, apenas, repete o prescrito na Lei da Boa
Razão, que alterou o sistema de fontes do direito em Portugal, visado submeter a
justiça à política, ou seja, a doutrina e prática jurídicas à legislação confeccionada
pelo monarca:
14 Item: Porque a mesma Ordenação, e o mesmo Preâmbulo dela na parte em que mandou observar os estilos da Corte, e os costumes destes Reinos, se tem tomado por outro nocivo pretexto para se fraudarem as Minhas Leis; cobrindo-se as transgressões delas ou com as doutrinas especulativas, e práticas dos diferentes Doutores, que escreveram sobre costumes, e estilos, ou com Certidões vagas extraídas de alguns Auditórios; Declaro, que os estilos da Corte devem ser somente os que se acharem estabelecidos, e aprovados pelos sobreditos Assentos na Casa da Suplicação: E que o costume deve ser somente o que a mesma Lei qualifica nas palavras = Longamente usado, e tal, que por Direito se deva guardar = Cujas palavras Mando; que sejam sempre entendidas no sentido de correrem copulativamente a favor do costume, de que se tratar, os três essenciais requisitos: De ser conforme às mesmas boas razões, que deixo determinado, que constituem o espírito das Minhas Leis: De não ser a elas contrário em coisa alguma: E de ser tão antigo, que exceda o tempo de cem anos. Todos os outros pretensos costumes, nos quais não concorrerem copulativamente todos estes três requisitos, Reprovo, e Declaro por corruptas, e abusos: Proibindo, que se aleguem, ou por eles se Julgue, debaixo das mesmas penas acima determinadas, não obstantes todas, e quaisquer Disposições, ou Opiniões de Doutores, que sejam em contrário: E reprovando como dolosa a suposição notoriamente falsa, de que os Príncipes Soberanos são, ou podem ser sempre informados de tudo o que passa nos foros contenciosos em transgressão das suas Leis, para com esta suposição se pretextar a outra igualmente errada, que presume pelo lapso do tempo o consentimento, e aprovação, que nunca se estendem ao que se ignora; sendo muito mais natural a presunção, de que os Sobreditos Príncipes castigariam antes os transgressores das
170 HESPANHA, 1994,p.363.
171Ibid.,p.364.
172 FREIRE, Pascoal José De Melo. Instituições de direito civil português. Lisboa: 1779. p.102. Disponivel em: <http://www.fd.unl.pt/default.asp>. Acesso em: 03 out. 2009.
suas Leis, se houvessem sido informados das transgressões delas nos casos ocorrentes.173 (grifo nosso)
Em suma, como se pode ter percebido alguns princípios do Corpus Iuris
Civilis serviam para segurar algumas pretensões reais: a) lei especial prevalecia
sobre a geral; b) reconhecimento expresso no Digesto, de que os povos tinham a
possibilidade de instituir o seu próprio direito (D., I, 1, 9); e c) relevância dada pelo
direito romano aos poderes estatutários e regulamentares e também aos costumes.
Por isso é que se afirma que o direito real, além de dividir o espaço jurídico
com outros direitos (normas e decisões) advindos dos demais corpos sociais dotados
de iurisdictio, no momento de sua aplicação pelos Tribunais poderia se afastar a norma
"geral" do reino diante de um privilégio ou direito ou da praxe jurídica local, e diante
das peculiaridades do próprio caso concreto. Esses fatores fazem com que no
momento de aplicação do direito possa prevalecer o direito local sobre o do monarca.
173 PORTUGAL. Lei da boa razão. Disponível em: <http://www.fd.unl.pt/docentes_ docs/ma/amh_ MA_3847.pdf>. Acesso em: 07 set. 2009.