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O Direito de Autor como uma forma especial de propriedade

CAPÍTULO II – A Natureza Jurídica do Direito de Autor

2. O Direito de Autor como uma forma especial de propriedade

A teoria que postula o Direito de Autor como uma forma de propriedade encontra a sua origem nos postulados do filósofo britânico JOHN LOCKE, contidos no Second Treatise of Civile

Government. Segundo a sua conceção, tudo quanto continha o planeta pertenceria à Humanidade, tratando-se de bem comum. Quando o Homem, retirando algo da Natureza, lhe adicionava o seu trabalho, surgia o conceito de propriedade40. Pelo que, e em última análise,

seria precisamente o labor humano que, quando conjugado com um bem natural, acessível a todos, faria surgir a propriedade do primeiro sobre o segundo. Assim, nas suas palavras: “Though the earth, and all inferior creatures, be common to all men, yet every man has a property in his own person: this nobody has any right to but himself. The labour of his body, and the work of his hands, we may say, are properly his41”.

Ora,inúmeras teses foram sendo avançadas pela doutrina, tendentes à recondução do Direito de Autor a uma especial forma de propriedade, todas elas se inserindo, todavia, naquilo que se pode chamar de conceções monistas. Aliás, ordenamentos existem, em que esta qualificação parece consensual. No Direito britânico, por exemplo, não há dúvidas da qualificação do copyright como um Direito Real. Ora, segundo as teorias monistas, o Direito de Autor configura-se como um direito unitário, no qual se combinam aspetos de diferente natureza, mormente patrimoniais e pessoais, aspetos esses que, no entanto, não apresentam suficientes caracteres distintivos que justifiquem a sua autonomização. Neste seguimento, enunciam-se algumas teses que, admitindo a existência de interesses de índole diversa, reconduzem o Direito de Autor a um regime unitário, consubstanciado na figura da propriedade.

Em primeira linha a tese de PIERRE RECHT que postulou a qualificação do Direito de Autor

como uma forma de propriedade, reconduzida a dois tipos paralelos: em primeiro lugar a propriedade sobre o suporte material da obra, e uma outra sobre o bem imaterial, noutras

40 AKESTER, Patrícia, op. cit., p. 19.

41Second Treatise of Civile Government, Capítulo V, Sec. 27.

palavras, a obra literária ou artística. Recht foi o verdadeiro percursor de uma tese original que viria a intitular de “propriedade-criação”: “le droit d’auteur est donc un droit unique et ce droit est un droit de propriété (…) Le droit de propriété de l’auteur a, comme tous autres droits de propriété, une fonction sociale42”.

Por seu turno, STEPHAN PÜTTER considerava a existência de uma propriedade espiritual

(geistiges Eigentum) sobre a obra, a qual resultava da natureza das coisas43. Neste sentido

sempre seria clara a distinção entre, por exemplo, um contrato de compra e venda e um contrato de edição, no sentido de que a compra de uma obra não autorizaria o adquirente a reproduzi-la.

Por fim, HEINRICH HUBMANN44 configura o Direito de Autor como uma forma de

propriedade espiritual, à semelhança de Pütter. Segundo o entendimento assim perfilhado, paralelamente ao direito pecuniário surgiria um outro direito, inerente à pessoa do autor, e que serviria como suporte e fundamento do primeiro. O Homem teria um direito sobre aquilo que dele emana, consubstanciando-se este direito na sua propriedade espiritual, junto à qual se faria notar o direito de personalidade, formando ambos um conjunto unitário45

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Entre nós, é de registo a posição de CUNHA GONÇALVES. O autor mostra-se defensor da

tese da qualificação do Direito de Autor como um direito de propriedade especial de natureza perpétua em toda a sua extensão, ou seja, abarcando tanto as faculdades morais como patrimoniais do direito. Porém, e tendo em conta a recondução da tese a uma teoria monista, o autor nega o carácter essencial do direito moral, sob pena de cair em contundente contradição. Assim entendido, o direito de propriedade abrangeria “modernamente, toda a espécie de coisas, valores e direitos independente do requisito da perpetuidade, como se verifica nas concessões do Estado”46.

CABRAL DE MONCADA sustenta, igualmente, e de modo aberto e franco, a tese da

propriedade. A este propósito escreveu que a “lei considera esses direitos como uma espécie de «propriedade, sujeita a um regime especial, e fala-nos duma propriedade dos inventos» e duma «propriedade artística» como produto do trabalho do homem47”. As teses sustentadoras das

42 RECHT, Pierre, Le Droit d’auteur, une nouvelle forme de propriété, Paris, L.G.D.J., 1969, p. 145. 43 MENEZES LEITÃO, Luís Manuel Teles de, op. cit., p. 39.

44 A tese de Heinrich Hubmann consta da sua obra de 1954 Das Recht des schopferischen Geists. 45 SÁ E MELLO, Alberto, Alberto de, Manual de Direito de Autor, Almedina, Coimbra, 2014, p. 337. 46Ibidem, p. 335.

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teorias da propriedade viriam a ser acolhidas por PIRES DE LIMA e ANTUNES VARELA48, firmando-se

como a base do art. 1303.º do Código Civil.

Hão-de ser apontadas, contudo, três críticas essenciais à qualificação do Direito de Autor como uma forma de propriedade, estando elas na base da sua rejeição nesta tomada de posição. Desde logo, e como resulta da teoria geral do Direito de Propriedade, aquele instituto cifra-se como perpétuo49, enquanto o Direito de Autor, por seu turno, apresenta uma natureza

tendencialmente temporária50, degradando-se ao fim de determinado período, saindo do escopo

exclusivo do autor, e caindo no domínio público, por mero imperativo legal. Quer parecer-nos que, por mais rebuscada que seja a tentativa de ultrapassar esta crítica, ela se firma de um modo tão contundente, que tal desiderato se afigura inalcançável.

Em segunda linha, a visão do Direito de Autor como uma forma de propriedade coloca no centro de gravidade a vertente patrimonial do direito, olvidando a vertente pessoal. Assim, parece não haver lugar àquela componente do direito autoral, que comporta faculdades de relevo inegável. O direito de paternidade sobre a obra, por exemplo, mostra-se inaceitavelmente negligenciado com a atribuição da natureza de propriedade à tutela dos direitos autorais. Se, por um lado, aceitamos que a vertente patrimonial se assume como a mais relevante das faculdades, quase que absorvendo a vertente pessoal, certo é também que não pretendemos que esta inexista, como resulta das teses citadas. Nesta medida, rejeitamos veementemente esta qualificação.

Por fim, considerar o Direito de Autor um Direito de Propriedade é concebê-lo como um ius excluendi omnes alios, reservando ao titular de direitos as faculdades de utendi, fruendi e abutendi, o que não espelha, de todo em todo, uma aceção correta. Se assim fosse, a mera utilização de um livro estaria sujeita à oponibilidade erga omnes do direito do titular.

48 Veja-se PIRES DE LIMA, Fernando e ANTUNES VARELA, João de Matos, Código Civil Anotado, Vol. III, 4.ª Ed., Coimbra Editora, 2001, p. 86-87. 49 A perpetuidade é um dos traços dominantes do instituto da propriedade, a par da plenitude, a elasticidade e a transmissibilidade (cfr. PINTO

DUARTE, Rui, Curso de Direitos Reais, 2.ª Ed., Lisboa, Principia, 2007, p. 49 e ss.). Neste sentido, o direito de propriedade é, em princípio, perpétuo, não cessando com o decurso do tempo. Aliás, é esse o alcance do n.º 3 do art. 298.º do CC, ao dispor que “os direitos de propriedade (..) não prescrevem, mas podem extinguir-se pelo não uso nos casos especialmente previstos na lei”.

50 Pelo menos o direito patrimonial do autor caduca setenta anos após a sua morte, segundo o art. 31.º do CDADC. Já quanto ao direito pessoal