• Nenhum resultado encontrado

Tendo como sustentáculo as elucidações delineadas ao longo desta pesquisa, notadamente nos tópicos 5.1 e 5.2, os quais se dedicaram a elucidar questões doutrinárias da semiótica e da linguística, bem como seus postulados, especialmente quando relacionados à esfera jurídica, é possível e necessário destacar o fato do direito também ser, para o assombro dos juristas dogmáticos e positivistas, um signo. Por óbvio, os principais fundadores da semiótica nunca se atreveram a debruçar em terreno tão peculiar e derivado, vez que suas preocupações estavam dedicadas à construção das linhas gerais da semiótica, as quais, conforme sabido, são abrangentes, voltadas à toda sociabilidade humana, e, dentre ela, o direito.

A semiótica jurídica surgiu, posteriormente, como reflexão que integra a sistemática da semiótica geral, sendo relevante rememorar, inclusive, que no Brasil as obras voltadas à indigitada vertente são recentes e ainda escassas.

Não só a norma jurídica, como enfatiza Diniz (2010a), é um signo linguístico. Muito além dela, o próprio direito é “relacional”, um grande signo que aponta para outras realidades que não ele mesmo. As relações subterrâneas, subjacentes, que lhe dão azo, ou melhor, significação, possibilitam que o direito seja vislumbrado como um signo81. Assim como a “árvore existe por tudo mais que não é ela mesma”,

dependendo de muitos processos e reações químicas e físicas, intervenções humanas e eventos meteorológicos, o direito é complexo, abrangente e entremeado, enraizado na “realidade não jurídica” (ALVES, 2010, p. 13-15).

Nas palavras de Alves (2010, p. 15), o “direito é direito e mais o que não é ele. O direito é uma síntese de si mesmo e de outro que não ele mesmo. [...] O direito é como um signo: só tem sentido se for posto em relação àquilo que não é ele, mas que lhe dá significação e realidade”.

No mesmo sentido, asseverava Lênin (1989, p. 130): “Cada coisa concreta, cada algo concreto está em relações diferentes e muitas vezes contraditórias com tudo o resto, ergo [logo] é ele próprio e outro”.

Se as “leis da comunicação semiótica” são sempre cunhadas pelas “leis sociais e econômicas” (BAKHTIN, 2012, p. 36), o direito, muito mais do que normas logicamente construídas (questões sintática e semântica), constitui uma verdade contextual (pragmática), notadamente configurando a “expressão legítima” do cosmos econômico, isto é, reflexo das condições econômicas (MARX; ENGELS apud MASCARO, 2012, p. 305), algo olvidado com frequência pelos juristas práticos (ENGELS; KAUTSKY, 2012).

Engels (apud MASCARO, 2012, p. 305) já dizia que o jurista, equivocadamente, costuma acreditar que maneja “normas estabelecidas a priori, sem se dar conta de que essas normas nada mais são que simples reflexos econômicos: vê assim as coisas sob uma forma invertida”82. Em síntese, não é o ideal que condiciona o real,

mas o real que condiciona o ideal.

Com base nessas ponderações, Lukács (2013, p. 247) asseverou que o direito “constitui um fenômeno decorrente do desenvolvimento econômico, da estratificação

81 Por sinal, o direito, assim como a moral, a religião e a política, não tem história própria, pois sua

história equivale àquela dos meios de produção e intercâmbio de materiais. Cf. MARX Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845 -1846). Trad. de Rubens Enderle et al. 1. ed. rev. São Paulo: Boitempo, 2011, p. 75-95.

82 Os juristas, assim como todos ideólogos, “colocam tudo de cabeça para baixo”. Ibidem, p. 77, grifo

em classes e da luta de classes”, no que pese não ser mero epifenômeno da economia, desfrutando de uma “autonomia relativa considerável”, robustecida com a progressão da evolução de cada sociedade.

O direito - que, diversamente do que afirma o antigo brocardo jurídico ubi

societas, ibi jus, isto é, “onde há sociedade, há direito” (DINIZ, 2010b, p. 577) – não

existiu sempre. Concebê-lo como constructo perene e imutável é um tropeço metafísico imperdoável. Assim como o Estado e a moral, o direito é um produto humano, histórico: tem gênese83, desenvolvimento e consequente perecimento

(ALVES, 2010).

Somente no capitalismo, conforme ensinava o jurista soviético Evguiéni Pachukanis (1891 – 1937), o direito, ou melhor, a forma jurídica passa a ser plena, acabada e bem definida em todas suas facetas: “Só a sociedade burguesa capitalista cria todas as condições necessárias para que o momento jurídico alcance plena determinação nas relações sociais” (PACHUKANIS, 2017, p. 75).

O que havia no direito romano, por exemplo, era um esboço de direito84, muito

embora sua formulação sistemática e também codificada do direito privado, visto que grande parcela da população estava completamente alijada de socorrer-se dos institutos e postulados jurídicos, pois, conforme bem conhecido, escravos não eram sujeitos de direito (ALVES, 2005).

A esse respeito, diz Mascaro (2012, p. 472):

[...] Somente quando a estrutura mercantil se torna regra geral é que também as estruturas jurídicas se generalizam. O mundo do Império Romano tinha trocas simples, que não se generalizavam estruturalmente, e, assim também, o direito romano continha normas quanto às trocas, mas não havia um sistema jurídico universalizado de contratos. O direito romano corresponderia a um sistema primitivo [...].

A forma jurídica nasce da “contradição dos interesses privados”, do embate – primeiramente rústico, depois refinado e sob uma aura pacífica - entre diferentes “titulares de interesses privados, egoístas”. Vem ao mundo como direito privado,

83 Os regramentos jurídicos do passado estavam entrelaçados com outras esferas sociais, como, por

exemplo, a moral e a religião. O direito não existia como esfera bem acabada e definida, mas em estado embrionário, recorrendo às demais, das quais dependia substancialmente para corporificar suas pontuais disposições. “Se passarmos para os povos primitivos, podemos notar um germe de direito; contudo, parte significativa das relações é regulada de maneira extrajurídica, por exemplo, pelas prescrições religiosas.”. PACHUKANIS, Evguiéni. Teoria geral do direito e marxismo. Trad. de Paula Vaz de Almeida. São Paulo: Boitempo, 2017, p. 92.

84“Se deixarmos de lado a cultura dos povos primitivos, em que apenas com muito esforço é possível

isolar o direito da massa geral dos fenômenos sociais de ordem normativa, até a Europa feudal medieval, as formas jurídicas distinguem-se pela extrema falta de desenvolvimento.”. Ibidem, p. 75.

surgindo, por conseguinte, a noção de sujeito de direito, que nada mais é além de uma das “três máscaras fundamentais” que necessariamente revestem a face das pessoas da sociedade mercantil, a saber, sujeito econômico egoísta, sujeito de direito e sujeito moral, os quais complementam um ao outro (PACHUKANIS, 2017, p. 96- 112).

O sujeito de direito é “o átomo da teoria jurídica, o elemento mais simples e indivisível (PACHUKANIS, 2017, p. 117) ou, de modo mais direto, o “núcleo da forma jurídica” (MASCARO, 2013, p. 40). A relação jurídica, definida por Del Vecchio (apud DINIZ, 2010a, p. 515) como “vínculo entre pessoas, em razão do qual uma pode pretender um bem a que outra é obrigada”, sempre se traduz em uma “relação entre sujeitos” (PACHUKANIS, 2017, p. 117).

Em outras palavras:

A ordem jurídica se diferencia das demais ordens sociais naquilo que projeta sobre os sujeitos privados isolados. A norma jurídica recebe sua differentia specifica, que a distingue da massa geral das regras morais, estéticas, utilitárias etc., justamente por pressupor uma pessoa dotada de direitos e que os reivindica ativamente. (PACHUKANIS, 2017, p. 110).

A “persona jurídica”, sujeito de direito “abstrato e impessoal”, tão caro ao direito, é justamente o homem livre da sociedade na qual impera o capital, vendendo sua força de trabalho como mercadoria, mediante contrato, isto é, por meio de um paritário acordo de vontades (PACHUKANIS, 2017, p. 121-122), no qual o talante individual é moldado pela respectiva “relação econômica” que o impulsiona, fato frequentemente olvidado pelos próprios partícipes (MARX, 2013, p. 159). Esse contrato é o necessário “liame entre os que trocam mercadorias” (MASCARO, 2013, p. 21) e sua natureza nunca advém das relações volitivas, mas, sim, das relações de produção (MARX, 2017).

Nessa sociedade transmutada em grande mercado, é o homem que representa, possui e troca mercadorias com os demais homens, também proprietários de mercadorias, todos formalmente iguais85, equivalentes e tidos como

independentes, em um vasto mundo de infinitas mercadorias balizadas pela equivalência universal86 (MARX, 2011; 2013). Troca-se mercadoria por mercadoria,

85 “Isso porque a capacidade de ser sujeito de direito é uma capacidade puramente formal. Ela qualifica

todas as pessoas como igualmente ‘dignas’ de ser proprietárias, mas por nenhum meio faz delas proprietárias.”. Ibidem, p. 132-133.

86 “A forma de equivalente universal é uma forma do valor em geral e pode, portanto, expressar-se em

qualquer mercadoria.”. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Trad. de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013. v. 1, p. 144.

sendo o dinheiro, como um signo, “elemento central de tal equiparação” (MASCARO, 2013, p. 23), o intermediador igualmente universal de todas elas (MARX, 2013; PACHUKANIS, 2017).

As atuais e tão fascinantes noções abstratas e formais de democracia, fundadas na “ideia de igualdade”, apregoam a equivalência absoluta entre rico e pobre, entre proprietário dos meios de produção e proletário, mas continuam sendo “um reflexo das relações da produção mercantil” (LÉNINE, 2004, p. 351).

Se o escravo romano, na Antiguidade, estava “preso por grilhões a seu proprietário”, o trabalhador assalariado do mundo atual o está “por fios invisíveis”, escamoteados pela “mudança constante dos patrões individuais e pela fictio juris do contrato” (MARX, 2013, p. 648).

Logo, é com o aprimoramento do mercado, com os píncaros da democracia burguesa que o direito se torna, a rigor, pleno direito, mediando as “relações mercantis-monetárias” em todos seus aspectos, assegurando-as em consonância ao desiderato imanente ao capital (PACHUKANIS, 2017, p. 63). A regulamentação jurídica tem como fim, justamente, o melhor desenvolvimento da produção e das trocas mercantis (LUKÁCS, 2013). Somente “quando tudo e todos se trocam no mercado” é que se robustece o direito (MASCARO, 2012, p. 472). Aliás, atualmente, a esfera jurídica ganhou tamanha força que, de tanto expandir-se, tudo passou a ser juridicizado (ALVES, 2005). Tudo é uma questão judicial, formal-processual, desde as corriqueiras altercações e rusgas familiares até a beligerância dos Estados.

E o que dizer, então, acerca dos relevantes comentários de Marx e Engels (2011, p. 317), os quais em poucas linhas resumiram a natureza sintomática, semiológica do direito, pois, “se o poder é suposto como a base do direito [...] então direito, lei etc. são apenas sintomas, expressão de outras relações nas quais se apoia o poder do Estado”? 87

Não é o mero ato volitivo, a boa vontade, que cria e ordena o Direito e o Estado, mas, pelo contrário, é a vida material desses indivíduos, ou seja, “seu modo de produção e as formas de intercâmbio que se condicionam reciprocamente”, que constitui a base na qual Direito e Estado constroem suas estruturas e sistemáticas (MARX; ENGELS, 2011, p. 317).

87Cf. ALMEIDA, Lucas Santos de. A duplicidade da Bioética e do Biodireito: ratificação e crítica do

Sistema do Capital na Pós-modernidade. In: SOUSA, Ana Maria Viola de; TREVISAM, Elisaide; RAMPAZZO, Lino (Orgs.). Direitos Humanos e Bioética. Lorena: Unisal, 2016, p.1-14.

O capital, dada sua ubiquidade, esparge-se por todas as esferas da vida humana (MÉSZÁROS, 2007), sendo, simultaneamente, acompanhado pelo direito, sem o qual não poderia desfrutar de plenitude e contornos consentâneos para se deleitar com o farto alcance de suas ambições.

As considerações teóricas voltadas à problemática real da estrutura e da superestrutura são fundamentais para a compreensão do plexo existente entre direito e economia (ALMEIDA, 2016), a saber:

[...] Cada estrutura econômica da sociedade constitui a base real, a partir da qual deve ser explicada, em última instância, toda a superestrutura das instituições jurídicas e políticas, bem como o modo de representação religiosa, filosófica e de qualquer natureza de cada período histórico. (ENGELS, 2015, p. 55).

Sobre a estrutura econômica das sociedades alicerça-se uma superestrutura jurídica e política – nota-se aqui que uma esfera implica a outra, mas uma não é a outra, sendo esse um caráter deveras sígnico -, que goza de notável autonomia, longe de ser, por conseguinte, mero epifenômeno das relações econômicas, as quais desfrutam, sim, de primazia.88

A despeito do direito acabar sendo um “Estado dentro do Estado” (LUKÁCS, 2013, p. 247), dada sua autonomia adquirida ao longo do processo civilizatório, isso não faz com que ele se dissocie do mundo que lhe deu origem e no qual está fatalmente inserido. Não é, portanto, independente.

O direito é reflexo, espelhamento - mesmo que imperfeito - dessa realidade material, e quanto mais se refina, sistematizando-se e buscando coerência interna, distancia-se “bem mais do chão da realidade”, atônito diante de suas próprias ponderações e técnica (LUKÁCS, 2013, p. 239).

A apreciação da influência das condições socioeconômicas na vida humana no atual sistema econômico, ordenado pelo capital, sob a perspectiva da semiótica jurídica, corrobora a elaboração de uma contundente crítica à teoria do direito contemporânea, costumeiramente apresentada como arcabouço de normas independentes do mundo real.

Somente depois de compreendida a verdadeira natureza do direito – desvendados seus falseamentos ideológicos, justamente no sentido originário do vocábulo: desvendar, retirar a venda que impede olhar e enxergar-, será possível

88 Cf. LUKÁCS, György. Para uma ontologia do ser social II. Trad. de Nélio Schneider, Ivo Tonet e

discorrer qualquer reflexão em temas mais específicos, como é o presente caso, voltado ao direito ao envelhecimento e ao direito do idoso, algo que passa a ser refletido, de modo pontual, a seguir.