Observada sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento, cumprindo um dos princípios fundamentais da CF/88, que estabelece no seu art. 1.º, inciso III, como alicerce da República, a dignidade da pessoa humana. Causou a estes agentes da condição de objeto do processo para o status de sujeitos do processo, consequentemente possuidores de direitos e obrigações próprios do exercício da cidadania plena.
A propósito a supremacia do valor da dignidade humana no atual texto constitucional, convém ressaltar a posição de José Afonso da Silva:
Não é o caso de aqui empreender uma discussão em torno da distinção entre valores supremos, fundamentos, princípios constitucionais, princípios fundamentais, princípios inspiradores da ordem jurídica e princípios gerais
do direito, a fim de buscar enquadramento da dignidade da pessoa humana num deles. Apenas convém esclarecer que não se trata de um princípio constitucional fundamental. E fazemos este esclarecimento, porque, a partir da promulgação da Constituição de 1988, a doutrina passou a tentar enquadrar tudo nesse conceito, sem atinar que ele é um conceito que se refere apenas à estruturação do ordenamento constitucional, portanto mais limitado do que os princípios constitucionais gerais, que envolvem toda a ordenação jurídica. Poderíamos até dizer que a eminência da dignidade humana é tal que é dotada ao mesmo tempo da natureza de valor supremo, princípio constitucional fundamental e geral que inspiram a ordem jurídica. Mas a verdade é que a Constituição lhe dá mais do que isso, quando a põe como fundamento da República Federativa do Brasil constituída como Estado Democrático de Direito. Se é fundamento é porque se constitui num valor supremo, num valor fundante da República, da Federação, do País, da Democracia e do Direito. Portanto, não é apenas um princípio da ordem jurídica, mas o é também da ordem política, social, econômica e cultural. Daí sua natureza de valor supremo, porque está na base de toda a vida nacional (SILVA, p. 91-2, 1998).
Portanto, é justamente, nos fundamentos da República Federativa do Brasil, no inciso III que trata da dignidade da pessoa humana, que surge o primeiro baldrame constitucional do novo direito da criança e do adolescente. Cabal que o Estado deva dispensar ao adolescente infrator um tratamento dentro do raio do ordenamento jurídico respeitando a dimensão constitucional vislumbrando e perseguindo a dignidade da pessoa humana, que é inerente à condição peculiar de desenvolvimento das crianças e dos adolescentes.
Garantias fundamenta no art. 5º da CF/88, se encontra elencado um extenso rol de direitos garantidos aos brasileiros e estrangeiros residentes no país. No caput do artigo, está delineado o princípio da igualdade (todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza), garantindo-se a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos do inciso LXXVIII.
Entre os direitos e garantias ali elencados, prioriza-se alguns que precisam ser ajuizados em face da realidade em que estão inseridas as crianças e adolescentes brasileiras.
a) Princípio da legalidade ou da anterioridade penal – o inciso XXXIX do art. 5.º da CF/88 deixa explícita a garantia constitucional de natureza processual da legalidade, cuja aplicação no direito de crianças e adolescentes foi regulada pelo art. 103 do ECA, definindo que ato infracional será toda conduta descrita como crime ou contravenção penal. Portanto, para que o adolescente seja responsabilidade faz- se imprescindível que tenha cometido uma conduta que preencha os requisitos da tipicidade e da antijuridicidade. Conduta não tipificada como crime ou contravenção não pode gerar responsabilização.
b) Limitações à privação de liberdade – Em conformidade com os arts. 5.º, inciso LXI, e 106 do ECA, somente será admitida a privação de liberdade de adolescente quando em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada autoridade judiciária. O internamento provisório é admitido, porém dada a condição peculiar de pessoa em desenvolvimento, o seu prazo máximo não poderá ser superior a quarenta e cinco dias. Junto a esse item, convém citar todos os outros dispositivos de garantia constitucional previstos para todos os brasileiros e, portanto, também para os adolescentes em conflito com a lei, tais como: direito à identificação dos culpados pela apreensão (art. 106, parágrafo único do ECA), concessão da apreensão à pessoa da família ou a outra pelo adolescente indicada (art. 107, ECA), o adolescente civilmente identificado não será submetido à identificação compulsória pelos órgãos policiais, de proteção e judiciais, salvo para efeito de confrontação havendo dúvida fundada (art.109, ECA). O exercício tem demonstrado que muitos desses direitos do adolescente infrator têm sido desrespeitados. Dentre eles, o que mais causa espécie é a superação do prazo do acautelamento provisório e, dada a carência de unidades de internamento, sobretudo nas cidades do interior, os adolescentes ficam detidos nas próprias cadeias públicas, juntos com os presos maiores, e, na maioria das vezes em condições sub-humanas, em absoluto desrespeito à CF/88 e aos dispositivos regulados pelo ECA (art. 175 § 2.º);
c) Outras garantias: habeas corpus (art. 5.º, LXVIII, CF), direito de petição (art. 5.º, XXXIII), o direito à assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos (art. 5.º, LXXIV CF e art. 111, ECA), dentre outras.
Vale salientar que os direitos fundamentais de crianças e adolescentes, além de estarem previstos no rol de direitos e garantias do art. 5o da Carta Cidadã, também são confirmados nos diversos artigos lavrados no título da ordem social.
Desta forma cabe aos operadores do direito, aos integrantes do código de garantias dos direitos das crianças e dos adolescentes, aos membros da sociedade civil e dos poderes públicos empreenderem uma luta sucessiva para que a CF/88 e o ECA aconteçam de fato, garantindo os direitos de meninos e meninas deste país!
De volta as manchetes dos jornais, o Tribuna da Bahia, de 9/3/2008, publica: A Matança Continua. Bando não encontra o rival e mata dois amigos dele. Se não fosse trágico seria irônico quando o jornal informa que um bando armado à procura de um assaltante e traficante conhecido por Marquinho de Pedro não foi encontrado
e para não perder a viagem mataram dois amigos de Marquinho, e mais, a reportagem conta que naquele final de semana outros 07 assassinatos ocorreram em Salvador envolvendo: meninos, negos, pobres, com baixa escolaridade, de bairros populares, e envolvidos com o tráfico de drogas, com tantas características marcantes seria presunçoso inquirir que se trata de um genocídio contra os jovens negros deste país?
O Jornal Tribuna da Bahia, de 17/9/2008, destaca uma manchete bastante peculiar, pois revela uma realidade pouco estudada que é a participação ou a presença das meninas, por motivos diversos, acabam por se envolver no tráfico de drogas. Destaca a reportagem: “Amor bandido leva à morte menina de 17 anos”. Informa a matéria que a menor: J. C. M desenvolveu um relacionamento amoroso com um traficante o qual o jornal não menciona o nome nem idade. Afirma que o namoro não tinha o consentimento da família que por inúmeras vezes tentou persuadir a jovem a terminar o namoro, que culminou em tragédia.
Pouco se fala, mas um número enorme de meninas acaba se envolvendo com meninos do tráfico de drogas, por vários motivos: dinheiro, ou a ideia fantasiosa de que eles têm muito dinheiro, status: já que em muitas comunidades os traficantes acabam sendo uma espécie admirada ou por medo ou fascínio, pois onde o poder público não chega em muitas ocasiões chega os benefícios promovidos pelo tráfico de drogas, como: luz e água de graça, pois as empresas não conseguem cobrar nem corta os “gatos”. E pelo poder, que esses meninos despertam nas mentes em formação destas moças e por fim acabam ficando reféns dos mesmos, pois não podem ir a todos os cantos do bairro por causa das outras facções criminosas, não podem terminar o namoro sem a permissão deles, se traírem sofrem abusos, agressões, cortes de cabelos, e são humilhadas publicamente, pois ao serem agredidas ainda são filmadas e postas nas redes sociais, quando não brutalmente mortas e suas execuções são filmadas e colocadas na internet.
Engravidam muito cedo, são obrigadas a visitá-los nos presídios quando presos. Enfim, poderia ficar aqui horas e horas narrando o que escuto das garotas que estudam no CEMD e veem como as suas amigas acabam perdendo a liberdade ao namorar os garotos e muitas perdem a própria vida como expõe a reportagem.
Bom, diante das agruras e cicatrizes tão profundas da nossa história recente que muito se assemelha ao passado não muito distante, a população de jovens negros e pobres deste país, veem os seus os direitos constitucionais serem violados
cotidianamente, quando são presos sem flagrante delito, mantidos em cárceres por tempo indeterminado, muito além do que determina a lei, amontoados feito lixo em prisões sem a menor estrutura, não acompanhador pelos procuradores públicos na maioria dos casos, esquecidos no sistema prisional pelo Estado e em muitos casos pela própria família.
Quando não são simplesmente eliminados fisicamente: ora por rixas internas, ora pela mão armado do Estado. Diante do exposto as organizações negras vêm se organizando no enfrentamento a esta cruel e histórica realidade, e incansavelmente buscando apoio de entidades para compor um programa de denúncia e cobrança das autoridades estatais para que se faça valer o estado de direito.
Trocando em miúdos, quer dizer: Estado de direito é uma situação jurídica, ou um sistema institucional, no qual cada um é submetido ao respeito do direito, do simples indivíduo até a potência pública, o que não se ver no Brasil. Ainda há muito para se trilhar para chegar a um estado de direito, que comungue educação, saúde, paz social, um sistema carcerário digno, aceitação do outro, diminuição da corrupção, fim da fome, enfim as premissas que caracterizam o estado de direito.
Diversas entidades questionam esses abusos e esses assassinatos, em números assombrastes e alarmantes, que se iguala a uma guerra, entidades como: Ordem dos Advogados do Brasil - OAB, MNU, Ministério Públicos - MP, Igrejas, ONU, etc. Segundo a reportagem do Jornal Correio da Bahia, de 21/8/2007, essas entidades exigem respostas para o extermínio de jovens negros que acontece no Brasil de forma sistemática e diante da omissão do Estado e da sociedade. O Jornal A Tarde, de 30/3/2009, traz em sua página principal: estatística mostra que está ocorrendo holocausto de jovens. 452 pessoas assassinadas em 85 dias na capital e RMS, sendo que a maioria de jovens e negros, 82,1% a tiros, 7,1% ignorados, 5,5% arma branca 4,6% espancamentos, 0,4% queimados, e 0,2% facada e tiro.
Importante que se pronuncie que este monitoramento, feito pelo Jornal A Tarde, não contém os óbitos registrados em autos de resistência: Funciona assim: o policial em confronto mata um hipotético “suspeito”, alega legítima defesa e que teve resistência à prisão. A ocorrência é anotada como “auto de resistência” e as testemunhas são os próprios policiais que participavam da ação. O crime quase nunca será perquirido.
Este é o chamado “auto de resistência”, que, apenas, no Brasil, vitimou 581 pessoas entre 2013 e 2014, de acordo com dados do: Mapa da Violência 2017,
cuida-se de uma série de estudos publicados desde 1998, inicialmente com apoio da Organização das Nações Unidas - ONU para a Educação, a Ciência e a Cultura - UNESCO, do Instituto Ayrton Senna e da FLACSO, entre outras entidades, e, mais recentemente, publicados pelo governo brasileiro.
Apesar de não haver uma lei específica que o defina o auto de resistência tem amparo no artigo 292, do Código de Processo Penal, que diz:
Art. 292. Se houver, ainda que por parte de terceiros, resistência à prisão em flagrante ou à determinada por autoridade competente, o executor e as pessoas que o auxiliarem poderão usar dos meios necessários para defender-se ou para vencer a resistência, do que tudo se lavrará auto subscrito também por duas testemunhas.
O artigo acima, no entanto, não prevê quais são a regras para investigação em casos de excessos. De acordo com o estudo: Entenda o que são Autos de Resistência no Brasil – e o que está sendo feito para acabar com ele. Uma análise dos homicídios cometidos por policiais, produzido pelo sociólogo Michel Misse, do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o Ministério Público Estadual propôs o arquivamento 99,2% dos casos de auto de resistência neste período. Isso significa que a Justiça quase sempre acredita na versão da polícia, mesmo quando evidências mostram o contrário. E concluiu: Michel Misse, que: “há sempre uma narração padrão para os casos registrados como auto de resistência” (POST, 2015)
Diante do exposto fica evidente que quando esses jovens infratores tombam mortos em conflito com a polícia, não serão vistos como homicídios, e não serão investigados. Uma reportagem do Jornal A Tarde 30/3/2009, salienta que em virtude da demora do Estado para divulgar os dados oficiais dos homicídios na Grande Salvador – todos os anos, as estatísticas trimestrais são repassadas com atraso – fez com que o Jornal A Tarde empreendesse uma iniciativa inédita. Desde janeiro, as equipes de reportagem abastecem um banco de dados com nomes, idades, locais, e causas das mortes das vítimas em Salvador e demais cidades da sua região metropolitana, chegando à conclusão do holocausto baiano e do genocídio institucionalizado contra negros e pobres e a criminalização de toda uma juventude.