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2.1 – Fundamentação das leis civis

3. Apreciação global do documento

5.8. O Direito de resistência

João XXIII, na encíclica Pacem in Terris, apresenta-nos as razões pelas quais a autoridade legítima provém de Deus, assim como o facto da mesma ser absolutamente conciliável com qualquer regime democrático e, por conseguinte, o dever de obedecer à autoridade. Dever esse que está limitado na medida em que as leis humanas estejam conformes a ordem moral querida por Deus. Nesse sentido, apoia-se em Tomás de Aquino quando afirma que as leis só obrigam enquanto estiverem em conformidade com a recta razão e se dela se afastarem então cai-se na iniquidade da norma. Entende Haering que o cidadão só está obrigado a dar a César o que é de César, na estrita medida em que as leis estejam em conformidade com a ordem moral e, por conseguinte, com a consciência, pois o cristão não deve obedecer acriticamente. Pelo contrário, de um modo pacífico e não violento, deve protestar contra as normas que sejam iníquas e injustas. Esta resistência deve ser criteriosamente discernida confrontando as razões aduzidas por aqueles que as defendem e pelos que as contrariam para que, de facto, o acto de desobediência seja conforme à consciência.

A esperança cristã é criativa e militante, porque a força realizadora do homem é Deus. Consequentemente, tem sempre presente as promessas divinas iniciadas nos profetas e consumadas em Cristo, e que são o critério para aferir se determinada situação é iníqua e desumana. Para Haering, esta tomada de consciência permitirá que as pessoas determinem no futuro a mudança, através de uma profunda mudança nas estruturas fundamentais, só possível através de uma «revolução do ser» em contraposição à «revolução do ter», estratégia dilecta dos revolucionários. Desta revolução do ser, se for a revolução dos santos, advirá uma ordem nova, que perdurará numa vida económica, social, cultural e política renovada, num processo inacabado à semelhança da conversão cristã. É efectivamente uma tarefa hercúlea, que implica um desenvolvimento da capacidade critica, de um efectivo esforço na realização de

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mudanças profundas e uma enorme paciência que um processo profundo de mudança e conversão política implica necessariamente.

Tendo presente a esperança e o realismo cristão há que ter em conta a necessidade de discernir o que no hic et nunc pode ser melhorado, tolerado, e o que deve permanecer numa reforma a longo prazo. Porque peregrinos num mundo injusto, os cristãos não deixam de professar a sua fé na parusia. Assim se a «utopia absoluta» é, no dizer de Bernhard Haering, a quinta-essência da esperança cristã, neste mundo com homens pecadores e redimidos, há espaço para uma «utopia relativa», que se traduz no estabelecimento da melhor ordem possível. Pergunta o autor se o cristão é, ou deve ser, revolucionário, mas tudo depende do sentido em que se emprega a expressão «revolução». Se for entendido como um radical e profundo processo histórico de mudança, então o cristão, por fidelidade ao Criador e Redentor do mundo, é efectivamente um revolucionário. É preciso, contudo, esclarecer que a revolução do Evangelho não tem nada de fanático, que recusa a anarquia e a violência e que visa romper o círculo vicioso da cobiça. Haering recorda-nos que o bolchevismo pretendeu, com a sua absoluta recusa de uma linha reformista, impor a revolução total que destruiria a sociedade existente para reerguer a sociedade perfeita. Contudo, muito mais proveitoso é o reformismo, que evita rupturas violentas e opressivas como são as revoluções, investindo fundamentalmente em reformas que tenham como fulcro a justiça e o amor social em conformidade com a esperança cristã, acabando por o resultado ser mais substancial que os obtidos por via revolucionária.

A teologia moral católica sempre soube discernir quando se poderia licitamente empregar meios violentos para o derrube de um regime, mormente se estávamos perante regimes autoritários ou totalitários que negavam os direitos fundamentais aos cidadãos, à questão se a revolução levará a uma ordem mais justa ou ao caos. Haering responde do seguinte modo:

“A meu ver, a primeira pergunta de consciência que hoje todos nós devemos propor- nos e que devem propor-se particularmente os que se inclinam a escolher o caminho

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da revolução violenta, é a seguinte: Fizemos e estamos fazendo o que está a nosso alcance para construir um mundo melhor e estruturas políticas melhores com meios não-violentos? Se hoje está faltando totalmente a criatividade que se manifesta na acção não violenta, solidária e paciente, como se pode esperar que amanhã uma vez conquistado o poder, os revolucionários violentos serão criativos no sentido justo?”45. Indubitavelmente opta pela não-violência que se traduz no facto de a consciência ser um poderoso veículo para convencer e converter as atitudes. Efectivamente, se não houver confiança de que a consciência pode gerar esta mudança, há o risco de se cair na violência. Haering ilustra o seu ponto de vista com o terrorismo, que tem acossado vários Estados. Em geral, os sequazes do terrorismo verberam contra os sistemas democráticos, acusando-os de opressivos, quando na verdade esses mesmos grupos utilizam a violência como meio de alcançar o objectivo, que em verdade, é a tomada do poder, já que não o conseguem por via democrática. O autor adverte para o facto de que por muito sedutor que seja o programa dos terroristas, o uso da violência descarta desde logo a sua admissibilidade. Por fim, diz-nos que as revoluções violentas são do interesse tanto das indústrias bélicas como das potências, que deste modo têm o ensejo do domínio económico, politico e militar.46