1.3 O DIREITO FUNDAMENTAL DE TODOS AO MEIO AMBIENTE ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO E À SADIA QUALIDADE DE VIDA: UMA
1.3.2 O direito de todos ao meio ambiente ecologicamente equilibrado
Passar-se-á, agora, ao alcance do titular desse direito. O artigo 225 da CF/88, assegura que “todos” têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. As discussões apresentadas, inicialmente, pela doutrina acerca da abrangência do termo “todos”, no geral, reduzem-se, como demonstra Fiorillo (2003) a duas correntes: uma, que se baseia no que estabelece o artigo 5º da CF/88, dessa maneira, somente os brasileiros e estrangeiros residentes no País poderiam ser titulares desse direito; outra, que se funda no art. 1, III, da Carta Magna, no sentido de que toda e qualquer pessoa humana poderia exigir a tutela desse direito.
Havendo, nesse sentido, quem defenda uma posição mais restritiva, com fundamento no artigo 5º da CF/88. Entretanto, essa não seria a posição mais condizente com o alcance a que o constituinte pretendeu dar ao termo. Nesse sentido, Benjamim (2012, p.131) aponta: “De modo diverso, parece que o melhor entendimento é aquele que garante a qualquer pessoa, residente ou não, o benefício de tal direito. Não há nisso ofensa à soberania, pois é interpretação oriunda da visão holística e universalista do meio ambiente, amparada nos tratados internacionais, ao longo dos anos, celebrados e ratificados”. Esse fundamento, sem sombra de dúvida, encontra amparo no princípio da dignidade da pessoa humana
Fiorillo (2003, p. 15-19), entretanto, ratifica a visão antropocêntrica do meio ambiente na Constituição Federal brasileira de 1988, constatando que o direito ao meio ambiente é voltado para a satisfação das necessidades humanas e que outra não poderia ser a interpretação, uma vez que seria desarrazoado pensar em outros seres vivos, que não o homem, como titulares de direito próprio, enquanto destinatários diretos do direito ambiental brasileiro, sendo que é o homem que determina sua proteção em benefício dele próprio.
Embora o supracitado autor reconheça a recepção da Lei de Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6.938/81), que protege a vida em todas as suas formas, seu posicionamento é que isso só ocorre na medida em que garanta a sadia qualidade de vida do homem, uma vez que este é o destinatário de toda e qualquer norma. E assim conclui seu pensamento,
[...] por tudo isso, não temos dúvida em afirmar que não só existe uma visão antropocêntrica do meio ambiente em sede constitucional, mas também uma indissociável relação econômica do bem ambiental com o lucro que pode gerar, bem como com a sobrevivência do próprio meio ambiente. (FIORILLO, 2003, p. 17).
Contudo, atualmente, já existem, entre alguns autores, discussões, com argumentos favoráveis e desfavoráveis, acerca da inclusão na expressão “todos” de outros seres vivos, que não o homem, como bem reflete o questionamento realizado por Benjamin (2012, p. 132) “[...] quis o constituinte, ao referir-se a “todos”, em vez de todo ser humano, recobrir com o manto da qualificação de sujeito de direito também outros seres vivos? Ou seja, “todos” seria igual a todos os seres vivos, humanos ou não?”
Herman Benjamin é um dos autores que defende um giro da visão antropocêntrica para biocêntrica, pois acredita já não ser mais possível uma posição reducionista da proteção do meio ambiente, tendo, única e exclusivamente, como destinatário de sua tutela o próprio homem e, assim, explicita sua posição:
A Constitucionalização do ambiente emerge, nos primeiros momentos, em fórmula estritamente antropocêntrica, espécie de componente mais amplo da vida e dignidade humanas; só mais tarde, componentes biocêntricos são borrifados no texto constitucional ou na leitura que deles se faça; nesse último caso, pelo menos, mitigando a vinculação normativa exclusiva a interesses de cunho estritamente utilitarista. (BENJAMIN, 2012, p. 8-9).
Dessa maneira, embora haja quem defenda de forma limitativa, pode-se afirmar que: “Há, no entanto, quem entenda que a flora, a fauna e biodiversidade também são sujeitos de direito, devendo ser protegidos pelo direito – biocentrismo (Antônio Herman V. Benjamin, Édis Milaré, José Renato Nalini etc.)”. (SIRVINSKAS, 2012, p. 363-364). Ou seja, visões que ultrapassam até mesmo a concepção antropocêntrica do titular do direito ao meio ambiente.
Essa mudança de perspectiva, segundo Sirvinskas (2012, p. 361-362), da constatação de que “[...] há a necessidade de construir nova base ética normativa da proteção do meio ambiente. Todos os recursos naturais são considerados coisas e apropriáveis do ponto de vista econômico, incluindo aí a flora, a fauna e os minérios”. O autor aponta para a importância de uma visão mais moderna do meio ambiente, fundada em valores filosóficos, econômicos e jurídicos. O ponto de vista filosófico consiste no reconhecimento de valor à natureza desassociado de uma visão utilitarista de caráter eurocêntrico. Já do ponto de vista econômico, a natureza, adequando-se ao paradigma antropocêntrico das gerações futuras, possui valores de uso econômico direto e indireto. Por fim, do ponto de vista jurídico, é o reconhecimento que vem sendo dado à natureza de ora ser considera como objeto, ora como sujeito.
Sendo assim, Benjamin (2012) faz uma ressalva no sentido de alertar que as mudanças trazidas pela Constituição Federal de 1988 não se limitavam aos aspectos substancialmente jurídicos, uma vez que estes estão entrelaçados com a dimensão ética, biológica e econômica dos problemas ambientais e, ainda, com uma compreensão mais ampla da Terra e da natureza. Dessa maneira, uma Constituição, fundamentalmente, é um emaranhado de atributos e valores éticos, o que não é diferente com o meio ambiente. Dessa forma, pode concluir que:
a valorização do meio ambiente se faz com fundamentos éticos explícitos e implícitos, uma combinação de argumentos antropocêntricos mitigados (= a solidariedade intergeracional, vazada na preocupação com as gerações futuras), biocêntricos e até ecocêntricos (o que leva a um holismo variável, mas, em todo caso, normalmente, acoplado a certa atribuição de valor intrínseco à natureza). (BENJAMIN, 2012, p.111).
Mas o autor reconhece as limitações da norma, como aponta no seguinte trecho “[...] Mas como a interpretação da norma reflete muito do que se colhe da realidade cultural, incubadora dos nossos valores éticos, quem sabe um dia se verá no “todos” do art. 225, caput, uma categoria mais ampla e menos solitária do que apenas os
próprios seres humanos”. (BENJAMIN, 2012, p.132). E conclui essa constatação com a seguinte passagem:
A dilatação dos fundamentos éticos da proteção do meio ambiente, traço marcante do Direito Ambiental como visto hoje, ainda não logrou abertamente referendar, no patamar constitucional, o uso dessa técnica de superação do antropocentrismo reducionista; o máximo que se conseguiu foi a adoção de formas mais discretas e diluídas, mas nem por isso menos efetivas, de incorporação de um biocentrismo mitigado... (BENJAMIN, 2012 p. 133).
Portanto, após todo o exposto acerca do alcance do titular do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, é inegável a predominância de uma visão antropocêntrica do meio ambiente por meio do constituinte de 1988, embora já se venha evoluído, com certa resistência, para uma visão, como bem pontuou Herman Benjamin, mitigada do biocentrismo, o que reflete a concepção ainda restrita e utilitarista da natureza, guardando a forte carga ideológica e cultural em que se constrói o dispositivo constitucional. Apesar do largo passo em termos de proteção ambiental que dera a Constituição Federal de 1988, ela ainda não rompeu com os fundamentos de progresso e desenvolvimento impostos pelo ocidente.