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2. Dizendo de direito

2.1 Dos pressupostos do despedimento:

2.1.1 O direito do caso

Sem esquecermos o enquadramento teórico que em súmula antes se referiu, voltando ao caso que se decide, constata-se que na decisão recorrida, na concretização do controlo jurisdicional que se impõe fazer, se fez constar o seguinte (citação):

“No caso dos autos, face à matéria factual apurada, impõe-se concluir que os motivos de mercado, estruturais e mesmo tecnológicos que motivaram a

decisão de despedir se têm por verificados: de facto, a Ré adquiriu duas novas máquinas eletrónicas de escolha, para se atualizar às novas técnicas de

produção e aumentar a sua produtividade, tornando-se por esta forma mais competitiva, otimizando o processo de escolha final das rolhas (até então

efetuado nos tapetes), deixando de ser necessária a utilização dos mesmos, já que as rolhas apenas necessitam agora de uma escolha ligeira, que passou a ser efetuada em duas mesas (catos), razão pela qual deixou de ser necessária a alimentação desses tapetes. (As funções da A. reconduziam-se no seu núcleo essencial a abastecer a tremonha/moega principal dessa máquina de tapetes (de forma contínua) e controlar através de automatismo o enchimento dessas moegas).

Alega, contudo, a A. que o posto de trabalho não foi de facto extinto, pois o posto de trabalho correspondente à categoria de alimentadora continua a ser necessário e a existir, continuando tais funções a ser exercidas por uma das cinco escolhedoras.

Em primeiro lugar, refira-se que, ao contrário do que parece sustentar a A., afigura-se- nos que a validade da extinção do posto de trabalho, não implica necessariamente uma total cessação das funções antes desempenhadas pelo trabalhador.

De facto, como resulta da matéria de facto apurada, as mesas/catos onde agora é feita a escolha manual, continuam a ter necessidade de ser

abastecidos de rolhas e os sacos, uma vez cheios, continuam a ter de ser transportados para a contadeira (tarefa que também competia à A. executar), mas a forma como tal abastecimento das mesas é feito é bem diferente da forma como a A. tinha de abastecer/alimentar as moegas das máquinas

quando funcionavam os tapetes e neles era feita a escolha. De facto, agora, o condutor do empilhador despeja as rolhas (vindas das máquinas eletrónicas de escolha) em cima dos catos/mesas (não sendo necessário controlar

permanentemente as rolhas existentes na moega/tremonha das máquinas, como antes sucedia), onde são escolhidas manualmente pelas cinco

escolhedoras, que as despejam de novo para um saco, que leva grandes

quantidades de rolhas, que é depois transportado para contadeira por aquele condutor do empilhador e com ajuda deste. O processo de escolha manual mudou de forma significativa, e não se justifica a permanência de um

funcionário apenas para alimentar os catos (neles despejando as rolhas), pois que não tem de constantemente alimentar e controlar a quantidade de rolhas que aí são despejadas (como antes, com os tapetes, sucedia), e transportar os sacos quando cheios, tarefas agora assumidas pelo condutor do empilhador.

Afigura-se-nos que, no enquadramento factual apurado, pode concluir-se que a Ré deixou de carecer no seu quadro de pessoal de qualquer trabalhador para desenvolver a atividade de alimentador de máquinas, deixando de existir tal posto de trabalho na estrutura organizativa da Ré, tendo-se por certo que o núcleo essencial das funções da A., alimentar a moega das máquinas, foram afetadas com a execução da comprovada decisão de adquirir duas novas

máquinas eletrónicas de escolha e com a consequente desativação dos tapetes onde antes eram escolhidas as rolhas.

Considero, pois, que se verificam os motivos invocados pela Ré para efeitos de extinção do posto de trabalho da A., à luz do estabelecido nas disposições conjugadas dos artigos 367º e 359º, nº2, alíneas a), b) e c) do CT, tendo ficado provados os factos invocados como fundamento para a extinção do posto de trabalho e por tais factos conferirem racionalidade à decisão de extinguir o posto de trabalho de alimentadora, pelo que, não só os motivos invocados são verdadeiros, como se mostra verificado o nexo de causalidade entre tais motivos e a decisão de extinção do posto de trabalho da A.

Acresce que, conforme se apurou, mostram-se igualmente verificados os

requisitos cumulativos previstos nas diversas alíneas do nº1 do artigo 368º do CT, porquanto se demonstrou que, os motivos invocados não são devidos a conduta culposa do empregador ou da trabalhadora; à data da decisão de despedimento não se verifica a existência de contratos a termo para as tarefas correspondentes às do posto de trabalho da trabalhadora A. e que na

estrutura organizativa da Ré, não existia nem existe qualquer outro posto de trabalho com conteúdo funcional igual ou equivalente à de alimentadora, que era exercido pela A., tornando também por este prisma a subsistência da relação de trabalho praticamente impossível. Além disso, também não se provou que a Ré tivesse vagas noutros postos de trabalho, designadamente no de empilhador (que passou a fazer, ainda que de forma diferente, nos moldes já explicitados, algumas das funções exercidas pela A.), posto que se apurou estarem já ocupados por outros dois funcionários da Ré. Também se apurou não ser aplicável o regime do despedimento coletivo.

Além disso, resulta igualmente da matéria de facto apurada, que a Ré colocou à disposição da A., até ao termo do prazo de aviso prévio, a compensação a que se refere o artigo 366º por remissão do artigo 372º e os créditos vencidos ou exigíveis com a cessação do contrato de trabalho, como exige o artigo 368º, nº5, do CT.

Conclui-se, pois, que não se verifica qualquer conduta da entidade patronal R.

que possa ser considerada imprudente, arbitrária ou irrazoável, sendo patente que o despedimento da A. foi consequência lógica da alteração do processo de escolha manual de rolhas, com a consequente extinção do posto de trabalho de alimentadora.

Sustenta ainda a A. que o despimento foi ilícito, porque não foi observado, como deveria, o disposto no nº2 do artigo 368º do CT e os critérios de escolha nele previstos.

Da leitura de tal preceito legal, que já supra transcrevemos, resulta que o mesmo não se refere a funções iguais, nem a categorias profissionais iguais ou

idênticas, mas sim à existência de uma pluralidade de “postos de trabalho de conteúdo funcional idêntico”, o que logo pressupõe funções diferentes e distintas, mas com uma identidade de conteúdo funcional. – cfr. neste sentido Ac. TRL de 03.09.2005, in www.dgsi.pt, a propósito do anterior artigo 27º, nº2 da LCCT, mas com pertinência atual, posto que a redação deste segmento do preceito se mantém inalterada, que cita o Ac. STJ de 26.05.1999, onde a noção de conteúdo funcional idêntico para efeitos do critério de prioridade na

extinção do posto de trabalho foi desenvolvida.

No caso, face à matéria apurada, verifica-se que as funções especificadamente atribuídas à A. (enquanto alimentadora das máquinas de escolha) se inserem na mesma linha funcional (de escolha manual) a que pertence tanto a A. como as cinco escolhedoras; mas o posto de trabalho da alimentadora não tem conteúdo funcional idêntico ao das escolhedoras. As tarefas que a

alimentadora, por um lado, e as escolhedoras, por outro lado, desempenhavam no âmbito das suas funções, não eram tarefas comuns e indistintas, pelo

contrário, cada um dos postos de trabalho em causa tinha especificidades e impunha específicos desempenhos que não tinham qualquer identidade funcional: uma alimentava as máquinas com rolhas, as outras escolhiam as rolhas de acordo com a sua qualidade/classe. As demais trabalhadoras/

escolhedoras integradas na secção de escolha manual, ocupavam postos de trabalho de conteúdo funcional diferente daquele que era ocupado pela A.

Concluindo-se no sentido de que não se tratavam de postos de trabalho de conteúdo funcional idêntico, como se conclui, a entidade patronal não tinha que respeitar e fazer cumprir os critérios de seleção do posto de trabalho a extinguir previstos nas diversas alíneas do nº2 do citado artigo 368º do CT.

Improcedendo os argumentos invocados pela A., conclui-se pela existência de justa causa objetiva de despedimento e pela licitude do seu despedimento por extinção de posto de trabalho.”

Por referência à citada fundamentação, tento por base os elementos do caso, bem como os critérios que anteriormente enunciámos, não acompanhamos, adiante-se desde já, salvo o devido respeito, o sentido decisório da decisão recorrida.

E não a acompanhamos por não termos desde logo por demonstrado sequer, face ao que se provou, que o posto de trabalho da Autora tenha deixado de justificar-se, sendo que, para tanto, bastará ter presente que, sendo a primeira comunicação de intenção de despedimento por extinção do posto de trabalho de 8/9/2016, resultou também provado que, tendo nesse mesmo mês a Ré retirado a Autora do seu posto de trabalho, tendo-a passado temporariamente para outra secção – máquinas pulsadeiras e lixadeiras – (facto 38.º provado), a verdade é que o seu posto de trabalho, durante esse período, na respetiva

secção de escolha, passou a ser ocupado nessa data pela escolhedora I…

(facto 39.º provado). Ou seja, não podendo deixar de ter-se também presente a proximidade da segunda comunicação de intenção de despedimento, em que em boa verdade acabam por ser invocados no essencial razões próximas – veja-se que a questão da aquisição das novas máquinas é mencionada em ambas as comunicações (factos 4.º e 41.º provados) –, não resulta sequer da factualidade provada que a situação anteriormente referida, assim a

mencionada substituição da Autora por outra trabalhadora no posto de

trabalho daquela, tenha deixado de verificar-se. Daí que se imponha perguntar da razão da necessidade de colocação de outra trabalhadora no posto de

trabalho da Autora quando a Ré a passou temporariamente para outra secção – veja-se que, como resulta do n.º 3 do artigo 368.º do CT, caso o posto de trabalho a extinguir fosse porventura aquele para que foi transferida a Autora, noutra secção, assim máquinas pulsadeiras e lixadeiras, o trabalhador teria direito a ser reafectado ao posto de trabalho anterior caso ainda existisse[24].

Mas mais, acrescente-se, o que assume aqui, também, importância decisiva.

É que, ainda que porventura se pudessem ter por cumpridos pela Ré os critérios legais na extinção do posto de trabalho da Autora – ou seja, que estivesse demonstrada a veracidade dos motivos por ela invocados e, ainda, a justificação para a extinção por desnecessidade do concreto posto de trabalho da Autora, assumindo-se assim o despedimento da Autora/recorrente, nos termos antes referidos, como uma decisão gestionária coberta pela liberdade de iniciativa da Ré/recorrida –, sempre se imporia, ainda, como é

reconhecidamente afirmado e resulta da alínea b) do n.º 1 do artigo 368º, um outro requisito, também esse necessário para o despedimento por extinção do posto de trabalho, assente na demonstração da impossibilidade da

subsistência da relação do trabalho.

Dito de outro modo, importaria saber se a Ré possuía ou não um outro posto de trabalho com conteúdo funcional compatível.

Para Pedro Furtado Martins[25] a questão passa aqui por saber se o

empregador dispõe ou não de um posto de trabalho cujo conteúdo funcional seja compatível quer com a categoria objetiva ou o género de atividade contratada, quer com a categoria normativa ou estatutária do trabalhador, esta entendida como a que corresponde à designação formal dada pela lei ou pelos instrumentos de regulamentação coletiva de trabalho a um determinado conjunto de tarefas, com vista à aplicação do regime laboral previsto para essa situação. Esclarece ainda Maria do Rosário Palma Ramalho[26] que a

referência à categoria deve ser entendida “como reportada à categoria interna e não à categoria funcional do trabalhador”, sendo assim de concluir que “o empregador tem o dever de oferecer ao trabalhador, cujo posto de trabalho é

extinto, um outro posto de trabalho da mesma categoria se o tiver, mas não lhe é exigível criar um novo posto de trabalho para ocupar o trabalhador”.

Como se esclarece no recente Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 6 de abril de 2017[27], a jurisprudência desse Tribunal “tem sido no sentido dessa categoria ser a interna, a normativa”, fazendo ainda apelo ao que consta do Acórdão de 29 de outubro de 2013, quando refere que “[a] extinção do posto de trabalho obedece à verificação cumulativa dos requisitos elencados no art.º 403.º, n.º 1, CT, nomeadamente a circunstância de ser praticamente

impossível a subsistência da relação de trabalho [alínea b)], dispondo o seu n.º 3 que a subsistência da relação de trabalho se torna praticamente impossível desde que, extinto o posto de trabalho, o empregador não disponha de outro que seja compatível com a categoria do trabalhador (categoria interna, normativa, e não em sentido funcional)”, estando a avaliação da

impossibilidade de subsistência da relação de trabalho, por não dispor o empregador de empregador de posto de trabalho compatível com a categoria do trabalhador, “circunscrita à estrutura empresarial do empregador, ainda que esteja este inserido num grupo de empresas, a menos que se justifique o levantamento da personalidade colectiva por a mesma ter sido usada de modo ilícito ou abusivo para prejudicar terceiros”. Daí que se afirme no mesmo Aresto que “o cumprimento dos critérios legais na extinção de determinado posto de trabalho, por si só, não é suficiente para garantir a licitude do despedimento, pois é necessário, também, determinar a impossibilidade da manutenção do vínculo laboral através do cumprimento de dever que impede sobre o empregador de demonstrar a inexistência de outro posto de trabalho compatível com a categoria profissional do trabalhador” – trata-se de requisito do despedimento com este fundamento, “de acordo com o artigo 368º, n.º 1, alínea b), ser praticamente impossível a subsistência da relação laboral, cuja prova compete à empregadora” –, conceito esse “objetivado no n.º 4, do

mesmo preceito, ao estabelecer que, extinto o posto de trabalho, considera-se que a subsistência da relação de trabalho é praticamente impossível quando o empregador não disponha de outro compatível com a categoria profissional do trabalhador”.

Ora, sendo como se disse a categoria a que se refere o artigo 368º, n.º 2, alínea b), do CT, a interna, contratada e normativa, e não a funcional, competia à Ré/empregadora provar, o que não logrou alcançar – a menção constante da factualidade provada enquanto conclusiva foi daquela

expurgada, nos termos anteriormente decididos –, que não dispunha de outro lugar compatível com a categoria de alimentador / recebedor (cortiça), de acordo com a definição que desse é dada no CCT aplicável (publicado no BTE, 1.ª série, n.º 34, de 15 de Setembro de 2016, Anexo II, assim: “Alimentador ou

recebedor (cortiça) - É o profissional que recebe e alimenta determinadas máquinas não especificadas neste grupo.” De facto, não demonstrou a Ré/

entidade patronal que não dispunha, em toda a sua estrutura organizativa, de outro posto de trabalho compatível com a categoria profissional da Autora, ou que todos os postos de trabalho destinados a trabalhadores com aquela

mesma categoria de alimentador ou recebedor estavam ocupados/preenchidos – veja-se que o ponto 77.º provado, referente à deslocação da Autora para outra secção que estava em fase de remodelação, dizendo-se apenas “pois era necessária nesse período para abastecer as moegas”, não permite esclarecer a razão porque assim foi e, nomeadamente, a razão porque porventura teria deixado de ser necessária a Autora –, como era seu ónus, o que determina, nos termos do artigo 384.º, alínea a), do CT, a ilicitude do despedimento que

operou [28].

Nos termos expostos, procede o recurso quanto a esta questão, do que decorre a revogação da sentença na parte em que considerou lícito o despedimento da Autora/recorrente e, em conformidade, a necessidade de conhecimento, por esta Relação, do pedido reconvencional pela mesma deduzido – conhecimento que ficou prejudicado na sentença recorrida.

2.1.2 Das consequências da ilicitude do despedimento

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