3. OS (DES)AVANÇOS DA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA
3.1. Quadro jurídico da prostituição no Brasil de hoje
3.1.2. O direito do trabalho e as profissionais do sexo
No que tange ao direito do trabalho, as produções teóricas e jurídicas em relação ao tema são extremamente escassas. Entretanto, é pertinente analisar como a prostituição tem sido recentemente encarada por esse ramo do direito, visto que cada vez mais isso tem sido parte da alçada trabalhista.
A relação de emprego, para o direito do trabalho, é caracterizada segundo alguns requisitos. De acordo com os artigos 2º e 3º da CLT, os pressupostos para
147 FARIA, Nalu. Richard, Poulin. Desafios do Livre Mercado para o Feminismo. São Paulo: SOF, 2005, p. 47.
essa relação são: trabalho prestado por pessoa física, não-eventualidade, onerosidade e subordinação.
Além disso, para que a relação de emprego produza efeitos jurídicos válidos, é necessário que o contrato de emprego cumpra alguns elementos jurídico-formais, como: agente capaz, objeto lícito, possível, determinado ou determinável e forma prescrita ou não defesa em lei, em concordância com o artigo 104 do Código Civil.
Ademais, é necessária a manifestação de vontade das partes contratantes.
Nesse sentido, em que pese a prostituição seja exercida por agente capaz, o objeto dessa relação de serviço não é lícito, sendo considerado, por conseguinte, uma relação contratual nula. Para analisarmos como isso é tratado no direito do trabalho, necessário é compreendermos sua teoria das nulidades.
O direito do trabalho construiu uma teoria específica com relação às nulidades. Para este ramo do direito, conforme afirma Godinho Delgado, vigora o critério da nulidade decretada. Ou seja, verificada a nulidade do contrato de emprego, este ensejará todos os efeitos jurídicos até o instante da decretação de nulidade. Respeita-se a situação fático-jurídica já vivenciada148.
Essa é uma aplicação diferente da aplicação utilizada no Direito Civil, que considera a nulidade em retroatividade, voltando à situação como era antes do estabelecimento do contrato.
Há casos da seara trabalhista em que se aplica plenamente a teoria das nulidades advinda do direito civil. Quando há ofensa ao interesse público, como, por exemplo, a existência de um crime, não é conferida a validade do contrato149. Assim, o direito do trabalho somente confere validade ao contrato de emprego cujo objeto seja lícito.
No trabalho ilícito, o que deve prevalecer é o interesse público e não o interesse privado de uma ou de ambas as partes contratantes. Por isso mesmo, é que nesta hipótese aplica-se a teoria civilista das nulidades, o que inviabiliza a produção de qualquer efeito trabalhista em razão do trabalho prestado (efeitos ex tunc). Caso contrário, inúmeras situações despropositadas seriam legitimadas pelo Direito como, por exemplo, a hipótese de um vendedor de drogas ter assegurada a assinatura de sua carteira de trabalho pelo traficante.150
148 DELGADO, Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 13. ed. São Paulo: LTr, 2014, p. 539.
149 Ibid., p. 540.
150 DELGADO, Gabriela Neves. Apontamentos jurídicos sobre a prostituição. Disponível em:
http://www.domtotal.com/direito/pagina/detalhe/23628/apontamentos-juridicos-sobre-a-prostituicao.
Acesso em: 14/05/2015.
Em conformidade com esse entendimento, portanto, as pessoas que se prostituem, prestando serviços à casa de prostituição, não podem ter seu contrato de trabalho reconhecido, pela ilicitude do objeto. Sendo, então, ilícita a atividade exercida pela prostituta em casa de prostituição, tal relação não é capaz de produz qualquer efeito jurídico.
No entanto, parte da doutrina e da jurisprudência reconhece o contrato de trabalho de qualquer outro profissional que preste serviço nos locais destinados a prostituição, como secretários, faxineiros, recepcionistas e até mesmo dançarinas.
Isto é, mesmo havendo ilicitude do objeto, tem sido considerada a desvinculação do trabalho lícito do ilícito.
Ou seja, mesmo que os trabalhos lícito e ilícito ocorram paralelamente, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, procura-se aproveitar apenas a atividade regular exercida. Seria o caso, por exemplo, de uma “boate” oferecer serviços de prostituição, mas também serviços de dançarinas, entretenimento, recepcionista, venda de bebidas e música (à exceção da prostituição, todas essas atividades são lícitas e, portanto, devem ser protegidas pelo direito). Tal medida, como ressaltou ARRUDA CÂMARA, procura evitar o enriquecimento ilícito de quem explora o empreendimento.151
Além disso, ressalta-se que, mesmo sendo impossível a subordinação na prestação de serviços de ordem sexual, o Ministério do Trabalho e Emprego reconheceu a prostituição como ocupação regular, em 2002, compondo a atividade a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO)152.
O novo CBO traduziu o reconhecimento por parte do MTE da “profissional do sexo” como uma trabalhadora153. Ademais, hoje as “profissionais do sexo” são consideradas contribuintes obrigatórias da Previdência Social, por força da Lei n°
8.212/91154.
Por conseguinte, é nítida a tendência, também no âmbito trabalhista, a tolerar o desenvolvimento de uma atividade considerada ilícita pelo sistema. São notórios os contornos do reconhecimento da atividade de prostituição como um segmento laboral. Nota-se, assim, que a prostituição dança em uma zona cinzenta
151 Id.
152 RODRIGUES, Marlene Teixeira. A prostituição no Brasil contemporâneo: um trabalho como outro qualquer? Rev. Katál. Florianópolis v. 12 n. 1, 2009, p.70.
153 Id.
154 DELGADO, Gabriela Neves. Apontamentos jurídicos sobre a prostituição. Disponível em:
http://www.domtotal.com/direito/pagina/detalhe/23628/apontamentos-juridicos-sobre-a-prostituicao.
Acesso em: 14/05/2015.
entre a legalidade e a ilegalidade. O prejuízo, é claro, é das prostitutas, visto que mesmo sendo reconhecidas como trabalhadoras, não podem constituir contrato de emprego.
O que existe, portanto, é uma abertura para o lucro ilícito dos empresários.
Há tolerância por parte das autoridades públicas frente ao comércio sexual, as
“profissionais do sexo” são consideradas trabalhadoras, os empresários lucram com isso. Mas, as prostitutas não recebem por isso.