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CAPÍTULO I - A Indústria Cultural e a Arte

1. A indústria e sua relação com a cultura

1.4 O direito de se entreter

A gente não quer só comida A gente quer comida Diversão e arte A gente não quer só comida A gente quer saída Para qualquer parte...

A gente não quer só comida A gente quer bebida Diversão, balé A gente não quer só comida A gente quer a vida Como a vida quer...

(ANTUNES; BRITO; FROMER. Comida. In:

______. Titãs, álbum: Jesus não tem dentes no país dos banguelas, 1987).

Para iniciar este tópico é importante afirmarmos o que seria a humanização a qual afirmamos ser o maior trunfo da arte e da literatura. Para Antonio Candido, a literatura ativa o processo de humanização, este confirma no homem aqueles traços que reputamos como essenciais: “[...] o exercício de reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o

senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor” (1995, p.249). Quanto mais compreensivo e aberto para o próximo, para a natureza e para a sociedade, mais humano um indivíduo se torna.

Segundo Antonio Candido, a arte e a literatura3 são bens que não podem ser negados a ninguém, se, dentro de uma configuração justa na organização social, corresponderem às “[...] necessidades profundas do ser humano, a necessidades que não podem deixar de ser satisfeitas sob pena de desorganização pessoal, ou pelo menos de frustração mutiladora”. (1995, p.

241).

Seguindo esse raciocínio, e preenchendo a esses requisitos, o acesso à arte e a subjetivação do indivíduo faz parte dos direitos humanos. Os direitos humanos são direitos que consideramos indispensável tanto para nós quanto para qualquer outro:

Esta me parece a essência do problema, inclusive no plano estritamente individual, pois é necessário um grande esforço de educação e auto-educação a fim de reconhecermos sinceramente este postulado. Na verdade, a tendência mais funda é achar que os nossos direitos são mais urgentes que os do próximo. (CANDIDO, 1995, p.240).

Nesse raciocínio, Candido questiona se as pessoas pensam se o próximo tem direito “[...] a ler Dostoievski e ouvir os quartetos de Beethoven”, já que normalmente “[...] quando arrolam os seus direitos não estendem todos eles ao semelhante”:

Ora, o esforço para incluir o semelhante no mesmo elenco de bens que reivindicamos está na base da reflexão sobre os direitos humanos. A este respeito é fundamental o ponto de vista de um grande sociólogo francês, o dominicano Padre Louis-Jouseph Lebret, [...].

Penso na sua distinção entre “bens compreensíveis” e “bens incompreensíveis”, que está ligada a meu ver com o problema dos direitos humanos, pois a maneira de conceber a estes depende daquilo que classificamos como bens incompreensíveis. [...] Certos bens são obviamente incompreensíveis, como o alimento, a casa, a roupa.

Outros são compreensíveis, como cosméticos, os enfeites, as roupas extras. Mas a fronteira entre ambos é muitas vezes difícil de fixar, mesmo quando pensamos no que são considerados indispensáveis. (CANDIDO, 1995, p.240).

3 Aqui se entende que constam todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis da sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações. (CANDIDO, 1995, p. 242).

O que é considerado indispensável é determinado pela época e pela cultura, “[...] pois inclusive a educação pode ser instrumento para convencer as pessoas de que o que é indispensável para uma camada social não o é para a outra”:

É preciso ter critérios seguros para abordar o problema dos bens incompreensíveis, seja do ponto de vista individual, seja do ponto de vista social. Do ponto de vista individual, é importante ter consciência de cada um a respeito, sendo indispensável fazer sentir desde a infância que os pobres e desvalidos têm direito aos bens materiais (e que, portanto, não se trata de exercer caridade), assim como as minorias tem direito à igualdade de tratamento. Do ponto de vista social é preciso haver leis específicas garantindo este modo de ver. (CANDIDO, 1995, p.241).

Essas manifestações culturais são inerentes ao ser humano, e constam em qualquer época, em qualquer civilização, e até antes disso, não existe alguém que “não possa entrar em contato com alguma espécie de fabulação”, inclusive no sono esse universo se manifesta, portanto é impossível que se passe mais de um dia sem que mergulhemos no universo da ficção e da poesia.

Para Candido, a literatura a que ele se refere parece corresponder a uma necessidade universal, ou seja, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito. Assim, o crítico conclui que não há equilíbrio social sem a literatura:

Deste modo, ela é fator indispensável de humanização e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade, inclusive porque atua em grande parte no subconsciente e no inconsciente. Neste sentido, ela pode ter importância equivalente à das formas conscientes de inculcamento intencional, como a educação familiar, grupal ou escolar. Cada sociedade cria as suas manifestações ficcionais, poéticas e dramáticas de acordo com os seus impulsos, as suas crenças, os seus sentimentos, as suas normas, a fim de fortalecer em cada um a presença e atuação deles. (CANDIDO,1995, p.243).

A formação e instrução dentro da sociedade atual são transmitidas por escrito, por isso não existe escola sem caderno e livro, e já se entende que a educação é um direito inerente a qualquer ser humano. Segundo Candido, os valores preconizados pela sociedade estão presentes nas diversas

manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. Contudo, a literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apóia e combate esses valores da sociedade, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas.

Somente nessa dialética, pode haver mudança, aprimoramento e questionamento. Por isso, tanto a literatura proscrita quanto a sancionada são fundamentais; “[...] a que os poderes sugerem e a que nasce dos movimentos de negação do estado de coisas predominantes” (CANDIDO, 1995, p.243).

Não existe a possibilidade de que a literatura e a arte sejam de qualquer maneira inofensivas, ao provocar questionamentos dentro de suas manifestações, elas agem de forma modificadora psicologicamente em seu receptor, têm papel formador na personalidade, mesmo que não seguindo o que é convencional e que vigora na época.

Existe, ainda hoje, um grande medo por parte dos educadores sobre o que dar a ler para a formação de um ser humano. Candido afirma que, trazendo dentro de si aquilo que aprovamos e reprovamos em sociedade, fica em segundo plano o corromper e edificar da literatura, pois prioritariamente, ela humaniza em um “sentido profundo”.

Para Bulhões:

Há quem sustente [...] que é exatamente por criar universos extravagantes, imaginários, muito afastados do nosso mundo palpável, que a ficção acaba revelando as infelicidades e as precariedades desse ambiente em que estamos. Ao estabelecer esse contraste com os contornos do mundo factual, a ficção demonstraria que nossa vida, de modo como se apresenta, é insatisfatória, injusta, precária, medíocre. Implicitamente, ela carregaria consigo, assim, a grave advertência de que é preciso transformar o mundo, trazendo em seu bojo o germe da transgressão, a fagulha e o estopim para as modificações da realidade que nos cerca. (2009, p.22).

Esse tipo de experiência, a de forjar situações hipotéticas, já ocorre naturalmente para o cérebro, são os sonhos, é uma defesa do inconsciente para que estejamos preparados quando algo acontecer, adquirir esta experienciação consciente é ainda mais vantajoso.

Segundo Bulhões, existe um laço entre ficção, sonho e devaneio, pois todas correspondem a uma necessidade subjetiva e universal de fantasia, fabulação e criação imaginativa. O sonho é uma “[...] dimensão que contraria ou pelo menos desestabiliza as relações lógicas e racionais que regem a nossa vida

na vigília” (2009, p.18), e nunca perde a conexão do que consideramos real; da experiência consciente:

Ficção, utopia, sonho e devaneio parecem compartilhar, pois, um território comum, uma arena em que se comunicam. Essas atividades universais funcionam como campos de expansão da fantasia e de transfiguração do real para os quais se pode atribuir uma preciosa metáfora: a da viagem. (BULHÕES, 2009, p.20).

Essa viagem da qual fala Bulhões é a simples transposição a um território de escapismo onde se desatam as obrigações dentro da vida cotidiana. Porém é um equívoco considerar que isto seria fugir da “vida como ela é”, pois inevitavelmente, como seres conscientes, vivemos duas vidas, uma que nomeamos “real”, tomada como palpável, imperativa, da onde não podemos nos desatrelar, e a outra vida, a “imaginária” muito mais fascinante, poderosa e irresistível.

Portanto, podemos dizer que, apenas, aturamos a primeira vida, a real, para termos, como afirma Bulhões, a segunda vida como recompensa.

A organização da palavra comunica-se ao nosso espírito e o leva, primeiro, a se organizar; em seguida, a organizar o mundo. Isto ocorre desde as formas mais simples, como a quadrinha, o provérbio, a história de bichos, que sintetizam a experiência e a reduzem a sugestão, norma, conselho ou simples espetáculo mental. (CANDIDO, 1995, p. 246).

A organização da palavra, de que trata Antonio Candido, significa que ele toma a produção literária como um objeto, ele afirma que “[...] toda obra literária é antes de mais nada uma espécie de objeto construído; e é grande o poder humanizador desta construção, enquanto construção” (1995, p. 244).

O conteúdo deste objeto só atua por causa da forma, e esta forma é que carrega a capacidade de humanização devido à “[...] coerência mental que pressupõe e que sugere” (CANDIDO, 1995, p. 244). Do caos da obra do autor, ele cria uma organização e coerência, pois justificam-se coerentes até mesmo as obras que transmitem o caos, a bagunça, o estado confuso de espírito. E assim, o autor mostra ao seu receptor uma forma de organização e coerência para o caos dentro da mente desse espectador, é como se fornecesse uma explicação,

o que pode causar a este uma sensação de alívio e epifania, possibilidade de mudança e um know how (saber como) para enfrentar a vida.

A NARRATIVA E AS PERSONAGENS

(Fonte: ARRAES, 2003, primeiro ato).

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