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4.4. O DIREITO E O MEIO AMBIENTE

4.4.4. O DIREITO SOCIAL

Outra dimensão fundamental no Direito é a observância e preservação dos direitos sociais, que são interdependentes e estão intimamente relacionados aos temas ambientais. Cabe à sociedade o papel de vítima e também protetora nos processos de degradação ambiental. De acordo com Lazzarotto (2011), “o ser humano precisa de fato se comprometer com seus semelhantes e com a natureza, trabalhando em busca de um mundo melhor”. Desta forma, tão importante quanto ter ferramentas legais para a preservação ambiental, é ter consciência da sua responsabilidade, e assumir efetivamente o seu papel. Deve-se exercer sua cidadania.

A educação jurídico-ambiental é o meio pelo qual a sociedade aprende a exercer sua cidadania. Aliás, a educação é fundamental em qualquer de seus aspectos. É fundamental para qualquer conquista, crescimento ou melhoria nas condições de vida de um país ou de uma sociedade. É necessária para o desenvolvimento humano rumo à sociedade global sustentável. Diversas práticas vêm sendo inseridas no meio social, nos diferentes espaços públicos, viabilizando os modos de vida sustentáveis, com o objetivo primordial de se atingir a justiça social e a construção de sociedades sustentáveis.

A Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunida des Tradicionais (PNPCT), por exemplo, foi instituída por meio do Decreto nº 6.040/07, e visa promover “o desenvolvimento sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, com ênfase no reconhecimento, fortalecimento e garantia dos seus direitos territoriais, sociais, ambientais, econômicos e culturais, com respeito e valorização à sua identidade, suas formas de organização e suas instituições”.

A expressão “comunidades ou populações tradicionais” é legalmente nova, e surgiu para se referir aos povos que tradicionalmente habitavam determinadas regiões do país. Esses

49 povos e comunidades tradicionais são representados pelos povos faxinalenses, povos de cultura cigana, povos indígenas, quilombolas, caipiras, catadoras de mangaba, quebradeiras de coco-de-babaçu, povos de terreiro, comunidades tradicionais pantaneiras, pescadores, caiçaras, ribeirinhos, seringueiros, extrativistas, pomeranos, retireiros do araguaia e comunidades de fundo de pasto.

A maior parte das áreas ainda preservadas do território brasileiro, e também muitas regiões ocupadas por empreendimentos eólicos, é habitada com maior ou menor densidade por populações indígenas ou por comunidades rurais tradicionais, para as quais a conservação da fauna e flora é a garantia de sua perenidade (PITOMBEIRA, 2007). Daí a relevância desse arcabouço legal no presente trabalho.

Ainda de acordo com a mesma autora, os processos de desenvolvimento econômicos e sociais atuais se baseiam em um modelo de ocupação do espaço e de uso dos recursos naturais que agravam a degradação ambiental e causam enormes custos sociais.

Em 1992 foi criado, no âmbito do IBAMA, o Conselho Nacional de Populações Tradicionais, Portaria/IBAMA. N.22-N, de 10 de fevereiro de 1992, que cria o Centro Nacional de Desenvolvimento Sustentado das Populações Tradicionais - CNPT, bem como aprova seu Regimento Interno. E no ano 2000, foi decretada a lei n.9.985/00, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza, e denomina em seus artigos 17 e 18 as populações tradicionais ou extrativistas tradicionais, e a relação destas com as unidades de conservação (área de proteção ambiental, floresta nacional, reserva extrativista, reserva de desenvolvimento sustentável), em que se encontravam.

Diante da importância dessas comunidades para o país, culturalmente ou ambientalmente falando, foi instituída ainda a Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável das Comunidades Tradicionais, com o objetivo de estabelecer uma Política Nacional específica para esses segmentos, apoiando, propondo, avaliando e harmonizando os princípios e diretrizes das políticas públicas relacionadas ao desenvolvimento sustentável das comunidades tradicionais nas esferas federal, estadual e municipal.

Ainda no tocante à proteção social em face a qualquer tipo de abuso que venha a ocorrer na natureza, temos também a figura do dano moral ambiental, que pode ser compreendido como o sofrimento de indivíduos de uma determinada coletividade, em decorrência de um dano ao patrimônio ambiental.

Esse conceito foi adotado pela Lei 8.884/94 (Lei Antitruste), que reconheceu a possibilidade de ações de responsabilidade por danos morais e patrimoniais causados por pessoas jurídicas. E a aceitação da proteção desses valores morais não está restrita aos valores

50 morais individuais da pessoa física, mas também aos da coletividade. Esses valores coletivos se referem à comunidade como um todo, independentemente de suas partes. São, pois, valores do corpo, que não se confundem com os de cada pessoa, de cada célula, de cada elemento da coletividade (BITTAR, 2004, p. 49).

Desta forma, Bittar (1994, p. 49) concebe o dano moral coletivo como: “a injusta lesão na esfera moral de uma dada comunidade, ou seja, violação antijurídica de um determinado ciclo de valores coletivos.” Para ele, quando se fala em dano moral coletivo, deve-se entender que o patrimônio valorativo de uma comunidade foi agredido, significando que, feriu -se a própria cultura, em seu aspecto imaterial. A mudança forçada dos hábitos de uma dada comunidade, em razão da instalação de um empreendimento eólico, por exemplo, que impacte seus modos de vida coletivos, que transforma a estrutura social, configura o dano moral ambiental.

O intenso sofrimento, a dor, e exposição da pessoa, necessárias na caracterização do dano moral individual, passam a se traduzir em valores que afetam negativamente a coletividade. De acordo com Leite (2003):

“A dor em sua acepção coletiva, é ligada a um valor equiparado ao sentimento moral individual, mas não propriamente este, posto que concernente a um bem ambiental, indivisível, de interesse comum, solidário e relativo a um direito fundamental de toda coletividade. Trata-se de uma lesão que traz desvalorização imaterial ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e concomitantemente a outros valores inter- relacionados como a saúde e a qualidade de vida. A dor referida ao dano extrapatrimonial ambiental, é predominantemente objetiva, pois se procura proteger o bem ambiental em si (interesse objetivo) e não o interesse particular subjetivo.” Assim, um impacto causado no meio ambiente não se traduz apenas na lesão ao próprio meio; ele afeta a coletividade, atinge seus valores, sua cultura, suas relações. É como se o próprio interesse difuso da sociedade estivesse sendo lesado, com o que se reconhece uma dimensão imaterial do dano ecológico puro.

De acordo com Paccanella (1999, p. 47), o “dano moral ambiental é um instrumento para salvaguardar o próprio patrimônio ambiental, que, no âmbito dos interesses difusos, necessita de uma concepção mais abrangente, não podendo ter exclusiva consideração sob o aspecto econômico”. Esse autor diz ainda que o dano ambiental pode ser “qualquer alteração adversa no equilíbrio ecológico do meio ambiente, aí incluídos os danos causados efetivamente aos ecossistemas, como também as lesões materiais causadas a um patrimônio histórico ou cultural ou paisagístico”. Assim, o dano moral ambiental é o sofrimento de diversas pessoas dispersas em uma certa coletividade ou grupo social, em vista de um dano ao patrimônio ambiental onde estão inseridas (PACCANELLA, 1999).

51 Temos, também, a Política Nacional de Participação Social - PNPS e o Sistema Nacional de Participação Social – SNPS, instituídos pelo Decreto nº 8.243/14, com o objetivo de “fortalecer e articular os mecanismos e as instâncias democráticas de diálogo e a atuação conjunta entre a administração pública federal e a sociedade civil”.

Assim, diversos são os meios de a sociedade, atuar na preservação ambiental, exercendo assim a cidadania jurídico-ambiental. Mas, para que possamos efetivamente alcançar conquistas socioambientais individuais, precisamos entender e aceitar essa nova concepção de um “mundo” coletivo, para que os benefícios gerais possam alcançar de forma individual todos os cidadãos e garantir a preservação de seu patrimônio socioecológico.

"Enquanto se desenvolvem as ações de caráter estrutural (...) enfrentar situações de emergência com medidas de emergência é algo, infelizmente inevitável. (...) A grande questão aqui é transformar a emergência em uma ação que atinja quem necessita, através de mecanismos efetivamente públicos, sem paternalismo e exploração político eleitoreira. Esse caminho pode ser encontrado com a participação ativa da sociedade organizada e das instituições que mantém uma relação direta e honesta com a população.”

HERBERT DE SOUZA (BETINHO), 1993.

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