O DIRETOR DOCUMENTAL
ESTUDO DE CASO – ROBERTO BERLINER
Este capítulo é dedicado à observação do aspecto autoral dos videoclipes dirigidos por Roberto Berliner, dando maior ênfase a sete produções. Seis delas foram indicadas pelo próprio diretor como as mais representativas de sua obra e o primeiro videoclipe dirigido por ele, pois, de acordo com Paulo Emílio Salles Gomes254, é ali que se encontra a virtualidade do conjunto da obra de um realizador. Pode-se, assim, utilizar o método da leitura retrospectiva, com as obras recentes iluminando as anteriores.
Em vez de fazer uma análise técnica aprimorada de cada uma das produções, o que se procurou destacar foi a maneira como Roberto Berliner relacionou-se com a canção escolhida para desenvolver um determinado videoclipe, com seus intérpretes e com os outros profissionais envolvidos na produção. Também foram observados elementos presentes na maioria dos videoclipes selecionados e que, desse modo, podem ser indicadores do trabalho autoral, no sentido da ideia de “câmera-stylo”, termo criado pelo crítico e diretor francês Alexandre Astruc para representar o fato de um cineasta se expressar através de um filme255. Pode-se afirmar, então, que um diretor é capaz de se expressar por meio dos videoclipes que realiza.
Porém, como foi afirmado em capítulo anterior, não se pretende aqui demonstrar que Roberto Berliner é mais autoral, eficiente e/ou mais inovador do que outros realizadores de videoclipes no Brasil. Mas, sim, que a seleção pautou-se por ser ele um diretor presente numa lista de produções gravadas aleatoriamente da televisão, sobretudo da MTV Brasil. A escolha também se deve ao fato de ser ele um dos poucos profissionais com passagem importante por duas das três fases da história do videoclipe brasileiro: a das produções realizadas por produtoras independentes da TV Globo para serem exibidas em programas segmentados da televisão; e da MTV Brasil. Um fator importante é que ele teve três videoclipes
254 Ver nota nº6. 255 Ver nota nº12.
premiados no Vídeo Music Brasil, todos do Skank – É Uma Partida de Futebol, melhor edição, melhor videoclipe pop e escolha da audiência; Mandrake e os Cubanos (1997), vencedor de melhor direção de arte, melhor videoclipe pop e melhor videoclipe do ano; e Três Lados (2000), melhor videoclipe pop. Antes, em 1986, Alagados foi premiado pela Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD) e pelo Rio Cine Festival.
Como na produção cinematográfica, o diretor é quem geralmente assume várias funções no videoclipe, o que é motivo para associar-se a autoria com este profissional, segundo o ensaísta e realizador francês Jean Epstein. É importante observar que, no caso de Roberto Berliner, ele partilhou o trabalho com profissionais que assumiram o posto de co-diretores em videoclipes que dirigiu.
4.1 Biografia
Roberto Berliner nasceu no Rio de Janeiro, em 1957, e, com 19 anos, entrou no curso de Jornalismo da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No lugar da redação de textos, o que mais o atraiu ali foi um cineclube e uma câmera de Super-8, com a qual filmou movimentos operários e o congresso de reabertura da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1979.
No início da década de 1980, Roberto Berliner passou a frequentar assiduamente dois locais que se tornaram fundamentais para seu futuro profissional: o Centro de Documentação (CEDOC), da TV Globo, onde ficou de 1980 a 1983 e descobriu uma paixão por imagens de arquivo; e o Circo Voador, emblemático espaço cultural da zona sul carioca, do qual foi um dos fundadores e em que a maior parte dos artistas do rock nacional daquela época começou, como Blitz, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho e Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, entre outros. Boa parte desses shows foi devidamente registrada pelo jovem realizador, por meio de uma câmera VHS, novidade para a época. O resultado foi o documentário Circo Voador no Arpoador, ainda inédito.
Armado no verão de 1982, na Praia do Arpoador, o Circo Voador foi demolido por ordem da prefeitura. Sem um espaço físico adequado, os responsáveis pelo projeto, entre eles Roberto Berliner, criaram o Circo Sem Lona, em que um grupo de teatro e outro de vídeo levavam seu trabalho para comunidades carentes do Rio de
Janeiro. O resultado foi um curso com o importante cineasta Joaquim Pedro de Andrade e a realização de um vídeo, Ovídio (1983), do qual Berliner foi editor.
Nesse momento, surgiam na vida de Roberto Berliner mais duas paixões – os documentários e o registro de pessoas que vivem à margem da sociedade –, o que passa a ser a tônica de seu trabalho nos videoclipes e também em dois dos três filmes em longa-metragem realizados até agora: A Pessoa É Para O Que Nasce (1998, o curta, e 2005, o longa-metragem), a respeito de três irmãs cegas e cantoras; e Pindorama – O Circo do Futuro (2007), co-dirigido com Lula Queiroga e Leo Crivellare, a respeito de uma trupe de sete irmãos anões. O terceiro é Herbert De Perto (2006), co-dirigido por Pedro Bronz, que mostra a trajetória do vocalista e guitarrista dos Paralamas do Sucesso, Herbert Vianna, e originário de curta- metragem de mesmo nome.
O primeiro contato com videoclipes veio em 1985, quando Roberto Berliner tornou-se diretor, mesmo sem receber os devidos créditos, do programa segmentado da TV Manchete, FM-TV, que tinha o futuro escritor best-seller Paulo Coelho como redator. Para apresentar o programa, Berliner escalou os atores Patrícia Pillar e Tim Rescala.
Roberto Berliner descreve:
Foi uma experiência muito legal, porque trabalhava com cinco câmeras ao mesmo tempo e resolvi fazer tudo aberto, com elas aparecendo. Às vezes, até uma câmera apresentava o videoclipe. Como acho que o Eid Walesko gostava muito de câmera torta, resolvemos fazer tudo torto, com os apresentadores meio que escorregando ou tentando subir em algum lugar. Ali passava de tudo, desde videoclipes internacionais até brasileiros.
O curioso é que, mesmo sendo logo demitido do cargo de diretor do programa FM-TV, Roberto Berliner manteve a relação com os então relativamente recentes vídeos criados para determinada canção. A amiga videomaker e cantora Dulce Quental, recém-saída do grupo Sempre Livre, convidou-o para dirigir o videoclipe Délica, a ser exibido no programa dominical da TV Globo, Fantástico.
Como Roberto Berliner gosta de afirmar que, na sua carreira, sempre um trabalho leva ao outro, Délica (1985) foi lançado num bar, onde compareceram o baixista e o baterista da banda Paralamas do Sucesso, respectivamente Bi Ribeiro e João Barone, que o levaram para conhecer o vocalista, Herbert Vianna, e o convidaram para dirigir o videoclipe Alagados, considerado, por ele, um marco na
carreira. Na mesma época, Berliner criava com Sandra Kogut a produtora Antevê, cujo nome fazia referência ao fato deles tentarem realizar uma espécie de “antitelevisão”. “Nossa formação era muito hippie e meus ideais eram, e acho que ainda são, os de uma coisa coletiva, de estar todo mundo junto, ganhando igual e tentando melhorar o mundo”, garante.
Sandra Kogut relembra essa fase:
Naquela época, pouquíssimas pessoas trabalhavam com vídeo. Era uma coisa muito nova e naturalmente o Roberto e eu nos aproximamos, porque éramos os dois interessados nisso. Eu era mais nova e vinha das artes plásticas, usando o vídeo de uma forma mais experimental, enquanto o Roberto já tinha trabalhado em televisão e tinha mais experiência, uma abordagem já mais profissional. Na volta de uma viagem ao México, com o Circo Voador, em 1986, resolvemos comprar um equipamento de edição, na época o formato era U-matic, e tudo isso era uma aventura, porque custava muito caro. Não era acessível como é hoje. Enfim, investimos nisso juntos e abrimos uma produtora, chamada Antevê.256
A parceria com Paralamas do Sucesso seria uma das mais duradouras na carreira de Roberto Berliner, pois, além do filme Herbert De Perto, e de oito videoclipes – Alagados (1986); A Novidade (1987), co-dirigido com Sandra Kogut, Trac Trac (1991), Tendo a Lua (1991), Essa Tarde (1996), Vital e Sua Moto (2003), co-dirigido por Pedro Bronz e Rogério Boechat, De Perto (2003), também assinado por Leo Domingues, e Lanterna dos Afogados (2003) –, renderia três vídeos em longa-metragem – V, O Vídeo (1987), Vamo Batê Lata (1995), Hoje (2006); e Sossego (1999), espécie de videoclipe para a abertura da telenovela da TV Globo, Vila Madalena, que mostra uma banda tocando e os integrantes dos Paralamas sentados em poltronas, bem de acordo com a letra da canção.
Embora não tenha sido selecionado para esta pesquisa, o videoclipe A Novidade tem papel bastante importante na obra de Roberto Berliner. Primeira parceria dele com Sandra Kogut, a produção chama atenção pelas filmagens realizadas da banda Paralamas do Sucesso na barca Rio-Niterói, que funciona como espécie de micro-documentário e conta com cenas dos bastidores da própria gravação, com vários ruídos ambientes, fala de anônimos e de Herbert Vianna: “Alô, pessoal, aqui os Paralamas do Sucesso. Meu nome é Herbert. A gente está gravando um videoclipe nessa barca, atrapalhando um pouquinho a viagem de vocês”. A ideia era fazer algo semelhante ao documentário Let It Be (1970), dos
Beatles, em que a banda aparece tocando no topo de um prédio. Outro destaque é a apresentação do videoclipe realizada especialmente para a exibição no Fantástico, com a atriz Carina Cooper. Apresenta os integrantes da banda e amigos deles nos estúdios e na sala de edição da emissora, questionando a quantidade de vezes em que seria possível fazer a travessia realizada pela barca, se todos os discos vendidos pela banda fossem colocados em fila.
Porém, no início da década de 1990, a Antevê chegou ao fim e, poucos anos depois, a relação entre Roberto Berliner e Paralamas do Sucesso ficou um pouco estremecida. Durante vários anos, eles não trabalharam juntos, como explica o próprio Berliner:
Nos anos 80, tinha liberdade de fazer videoclipe como queria. Com o surgimento da MTV (Brasil), surgiu também um pouco da vontade de fazer do videoclipe um comercial do artista, tanto por parte dos diretores, que queriam entrar ou se manter na publicidade, quanto por parte das bandas, que queriam vender mais. O que era uma expressão artística da música passou a ser propaganda da banda. Aos poucos, fui perdendo o interesse. Só continuei fazendo com as bandas com que conseguia interagir, como Paralamas e Skank. O engraçado é que as duas tinham muito a ver e, no mesmo momento em que a Conspiração começou a fazer clipes dos Paralamas, o Skank começou a me chamar. Foi um acaso e acho que continuei fazendo mais ou menos a mesma bagunça.257
Em 1993, Roberto Berliner fundou a produtora TV Zero, cujo nome foi dado pelo cantor e compositor Chico Science. Por ali, ele realizou, além de seus longas- metragens, o projeto Free Jazz, a respeito das mais variadas tendências musicais do mundo. Em 1997, Berliner iniciou a série Som da Rua, que reuniu 50 mini- documentários a respeito de músicos de rua, apresentando uma faceta pouco mostrada no vídeo dos artistas brasileiros, e também realizou o curta-metragem Afinação da Interioridade (2001), estrelado por Gilberto Gil.
Mais polêmico do que Caio no Suingue, em que vários figurantes aparecem nus, foi Me Beija (1998), do Lobão, vetado para ser exibido na MTV Brasil, em função de não cumprir os denominados padrões da emissora. A produção em preto e branco mostra o cantor, compositor e hoje VJ da MTV Brasil deitado numa mesa como se estivesse morto e aos poucos readquirindo vida. Em meio a muitas distorções e sobreposições de imagens, Lobão também é mostrado em close, falando outras palavras que não as que estão sendo cantadas na música.
Atualmente, Roberto Berliner só voltaria a dirigir videoclipes em condições especiais:
Se um amigo falar: „Vamos fazer‟ e tiver tempo, eu não falo não. O videoclipe me deu a possibilidade de fazer o que queria. Enquanto isso foi possível, continuei fazendo. Quando começou a se tornar cada vez menos possível, deixei de me interessar tanto. Então, se for nessas condições, é possível que volte sim, entre um filme e outro, porque estou focado nisso. O problema é saber onde isso acontecerá. Nos anos 80, se o videoclipe passasse uma vez no Fantástico, estava pago várias vezes, porque a mídia lá era caríssima. Hoje, se vai para o Youtube e passa 50 mil vezes, não fala com milhões, mas com um público específico, o que pode ser muito bom também.258
4.2 Videoclipes Selecionados
Roberto Berliner não considera que o cerne de sua obra esteja no primeiro videoclipe que dirigiu, Délica (1985), da Dulce Quental, realizado para o programa Fantástico, da TV Globo, e, portanto, obedecendo de certo modo aos padrões de qualidade da emissora. A razão é que toda a produção é baseada inteiramente em imagens da cantora, em estúdio, justapostas e misturadas com imagens de arquivo, o que ele já vinha realizando com certa frequência em experiências anteriores. Entre essas imagens, estão as do guitarrista Jimi Hendrix; do robô C3PO, da série de filmes Guerra nas Estrelas, dirigida por George Lucas; do filme O Picolino (1935), dirigido por Mark Sandrich e estrelado por Fred Astaire e Ginger Rogers; e outras capturadas do documentário Japão, Uma Viagem no Tempo: Kurosawa, pintor de imagens, dirigido por Walter Salles Jr., em 1986. Seria possível dizer, então, que esse videoclipe representa uma ruptura no trabalho de Roberto Berliner, espécie de divisor de águas.
Mesmo assim é possível reconhecer ali alguns elementos que se tornaram marcas autorais do realizador. Por exemplo a utilização do que o próprio Berliner denomina “edição com alguns defeitos”. Ou seja, o que não era comum se fazer até então, caso da tela dividida em três partes, todas ocupadas com imagens da cantora em diferentes ângulos e vários áudios dela sobrepostos, de modo já presente na canção original; uma tentativa de se inserirem imagens de acordo com o ritmo da música e de algumas delas traduzirem literalmente o que é dito na letra, como na imagem de um avião a toda velocidade associado a “alucinadamente veloz”. Há
também grande cuidado na fotografia, assinada por Walter Carvalho, um dos mais importantes fotógrafos do cinema brasileiro.
A presença de ruídos nas imagens é uma tônica do trabalho de Roberto Berliner em videoclipes, muito em função dele em geral também assumir o posto de editor, como explica:
Os ruídos são as imagens de arquivo, que vem cada uma de um lugar, sujas e limpas. O clipe era calcado na letra, como sempre, seja pela afirmação ou pela negação. E não sei por que achava que tinha uma coisa globalizada. E, além da conexão verbal mais clara, eu trabalhei muito com o movimento dos objetos ou das pessoas dentro da cena, em relação à música. E com uma coisa orgânica de como a câmera se movimentaria em relação ao cenário. Eu também tratei a imagem como se fosse a própria música, em harmonia ou impacto com a batida. Às vezes, dá certo. Às vezes, não. Nesse caso, foi legal.
De acordo com Dulce Quental, esse trabalho foi fruto de muito diálogo e troca entre ela e Roberto Berliner:
Quando gravei o Délica e surgiu a oportunidade de fazer o videoclipe, pensei logo no Roberto. Eu sabia bem o que queria e achei que ele sabia traduzir o que estava na minha cabeça. Ele nunca tinha feito um videoclipe. Esse foi o primeiro. Deu super certo, porque a gente tinha as mesmas referências, e ele foi super fiel à ideia original (...) O Délica foi exibido num festival no antigo Hotel Nacional (no Rio de Janeiro), mas ficou mais restrito ao underground. Eu não sei dizer se o Délica tem a marca do Roberto. Talvez seja uma mistura de nós dois. A colagem do início, por exemplo, foi ideia minha. Mas acho que o escolhi por achar que ele tinha uma veia documental forte e saberia editar bem as imagens e ideias. Então acho que foi mais um trabalho coletivo que tem a marca de nós dois.
Para Roberto Berliner, a principal herança de Délica foi possibilitar a realização de vários trabalhos com a banda Paralamas do Sucesso, que se encantou com o resultado da produção e resolveu convidá-lo para realizar Alagados. No entanto, há de se reconhecer que mais uma vez o diretor se vale de imagens de arquivo em alguns trechos desse videoclipe, caso das que mostram a favela da Maré e foram cedidas pela produtora Olhar Eletrônico.
O próprio Roberto Berliner conta o que pretendia realizar nessa produção:
Era uma época que tinha muita tecnologia, luzes, fumaça e a minha ideia era fazer um videoclipe brasileiro, bem típico do que se fazia no cinema daqui e que a música deles estava querendo. Eu pensava que rock era uma coisa meio elitista, da garotada, e queria botar a música para falar com todo mundo. Filmamos no Morro de São Carlos, no Estácio, num baile funk na Vila Mimosa, e em ruas e lugares mais pobres do Rio de Janeiro. Foram
dois dias de filmagens e havia uma coisa planejada e outra ao acaso. Aliás, até hoje, faço muito isso. Deixo a planejada se não surgir nada, mas sempre acaba surgindo. Eu também sempre gostei de trabalhar de uma maneira coletiva.
O vocalista dos Paralamas do Sucesso, Herbert Vianna, tem opinião parecida a respeito dos propósitos desse videoclipe:
Quando começamos a fazer videoclipe no primeiro e segundo discos era para o Fantástico, que, em cem por cento dos casos, eram péssimos. Submetíamo-nos aquilo e tomamos um bode que, quando fomos na direção contrária, na época do Selvagem (terceiro disco), queríamos clipe que não nos mostrasse maquiados, bonitos e saltando de motocicleta. Era a barca, a favela, o baile funk, gente desdentada na lama. Isso para nós era muito importante – espécie de afirmação de um ponto de vista e de uma estética.259
Nesse videoclipe, portanto, a noção de autoria surge do encontro de interesses do diretor e dos artistas com quem está trabalhando a tal ponto que fica difícil determinar de que modo surgiu a ideia original. Trata-se de uma autoria coletiva, como destacou acima o próprio Roberto Berliner que, para realizar o roteiro, partiu dos lugares mencionados na letra da canção, caso da favela da Maré, no Rio de Janeiro, dos alagados de Itapagipe, em Minas Gerais, e da cidade de Trenchtown, na Jamaica. Já a inserção do baile funk pode ter partido de um interesse da banda sobre o assunto, despertado pelo antropólogo Hermano Vianna, irmão do Herbert Vianna que, na época, realizava sua pesquisa de mestrado, a qual originou o livro O Mundo Funk Carioca, de 1988.
Roberto Berliner também considera um aspecto importante desse videoclipe, além das imagens serem editadas de acordo com o ritmo da canção, a interrupção dela para a inserção de ruídos externos, situação do anônimo que aparece no final gritando: “Bra-bra-bra-Brasil!!!”, no canal da avenida Francisco Bicalho, no Rio de Janeiro, o que pode ser apontado como mais uma marca autoral do realizador:
Nós fazíamos algumas interrupções na música, o que comecei em
Alagados e chocava um pouco. A televisão era muito limpinha, sem erros.
Hoje, acho que relaxaram um pouco. Como trabalhei no CEDOC (da TV Globo), muito perto do estúdio do jornalismo, via como eles se incomodavam se alguém gaguejasse ou errasse o texto. Passei, então, a me interessar por trabalhar justamente com os defeitos, o que talvez tenha permeado meu trabalho e, certamente, influenciado os filmes também.
A ideia de se filmar na rua, com a constante presença de anônimos das classes menos favorecidas, é outra forte marca autoral do diretor e que se sobressai nesse videoclipe. Ele mostra, basicamente, pessoas das favelas, algumas delas deitadas no esgoto, e os integrantes dos Paralamas do Sucesso tocando acompanhados de crianças e frequentando um baile funk, com direito até à revista real por parte da segurança do local. Esse retrato contundente do Brasil se tornaria importante cartão de visitas para o diretor, a ponto de lhe render o convite para dirigir o documentário Angola (1989), premiado no festival do Centre International de Création Vídeo Montbeliard Belford, na França.
As gravações foram marcadas por clima de festa, de acordo com Roberto Berliner:
Queria botá-los naquele ambiente do qual estavam falando e fazer com que