2 DOCUMENTÁRIOS CONTEMPORÂNEOS COM CRIANÇAS E O CASO
2.5 o diretor e sua relação com os protagonistas
Outra questão apresentada por Smith diz respeito à interferência do documentarista na vida de seus sujeitos. De acordo com a autora, documentários de justiça social como Nascidos em Bordéis buscam uma intervenção direta na vida das pessoas; porém, em diversos casos, essas intervenções políticas de caráter humanitário têm forte viés colonizador, numa tentativa de inseri-las na civilização ocidental como forma de resgatá-las da situação negativa em que se encontram (2009, p. 170).
Para Smith, a confirmação de que a intervenção de Zana Briski tenta impor seus próprios valores morais ocidentais sobre a cultura das crianças indianas é revelada no epílogo, quando se descobre que várias das protagonistas deixaram a escola, por iniciativa da família ou por conta própria (2009, p. 172). Esse seria um indício de que a visão apresentada pelo documentário sobre a prostituição infantil é construída inteiramente a partir de padrões ocidentais, e de que muito se perde sobre como realmente a sexualidade, a prostituição e a sexualidade infantil se inserem no contexto da cultura indiana.
Em Promessas de um Novo Mundo, a intervenção na vida dos protagonistas se desenvolve de outra maneira, sem esse caráter de resgate que Zana Briski desenvolve com as crianças de Nascidos em Bordéis, ou com que os jovens americanos de Invisible Children buscam salvar as crianças africanas. Em primeiro lugar, temos um diretor muito mais familiarizado com a cultura local: B.Z. Goldberg, cidadão americano, passou sua infância em Jerusalém e conheceu diversos campos de refugiados palestinos trabalhando como jornalista na Cisjordânia. Fala fluentemente hebraico e árabe; ao contrário de Zana Briski, que
não falava bengali, seus contatos com as crianças não são totalmente intermediados por tradutores, e as questões culturais não são uma surpresa durante as conversas com as crianças. Dessa forma, o caráter “colonialista” aqui carece de elementos extremos de alteridade para poder se desenvolver.
Em segundo lugar, as crianças protagonistas de Promessas de um Novo Mundo não se encontram desamparadas, em risco iminente ou privadas de suas necessidades básicas, como na maioria dos documentários de caráter social envolvendo crianças. O risco a que estão expostas, por conta do conflito bélico, não se sobrepõe, em termos de necessidade de auxílio ou resgate, aos cuidados familiares que recebem e à satisfação de necessidades como moradia, alimentação, educação e saúde.
Assim, os palestinos e israelenses entrevistados por B.Z. Goldberg não necessitam de resgate ou tutela de terceiros. As intervenções do documentário em suas vidas têm como fundamento provocar novos posicionamentos em relação ao tema sobre o qual falam durante o filme, de forma similar ao formato de intervenção da tradição do cinema verdade nos anos 1960, do qual Crônica de um Verão (Chronique d’un Été, 1961, Edgar Morin e Jean Rouch) é certamente um marco. Essa corrente do cinema documental começou a ser pensada já no final dos anos 1950, propondo uma nova relação com o real através de uma abordagem diferente do que propunha o cinema direto americano de Robert Drew, em que não se buscaria mais o verdadeiro espontâneo, esperando para ser observado, mas sim uma verdade provocada, incentivada. Para o cinema verdade, a presença do diretor em cena, como um dos protagonistas, é o elemento que provoca a expressão do sujeito e constrói a enunciação.
O grande mérito de Rouch foi ter definido um novo tipo de cineasta: o ‘cineasta-mergulhador’, aquele que mergulha nas situações da vida real. [...] Jean Rouch consegue se infiltrar na comunidade como uma pessoa e não como um diretor de uma equipe de filmagem (MORIN, 2007, p.5).
Da mesma forma, Nascidos em Bordéis também baseia sua estrutura em situações coletivas propostas pela diretora Zana Briski que são documentadas pela câmera. E, assim como em Promessas de um Novo Mundo, a figura do diretor-protagonista ocupa um espaço central no documentário. A natureza dessa conduta, porém, apresenta diferenças nos dois filmes: enquanto que Nascidos em Bordéis provoca situações para trazer transformações às vidas dessas crianças para registrá-las, depois, em sua nova condição, as situações provocadas em Promessas de um Novo Mundo visam a uma reação das crianças, para registrar em vídeo suas falas sobre o que ocorreu.
Com essa diferenciação, é possível perceber duas posturas bastante distintas nos documentários com crianças em situações de conflito (que também se percebem em documentários com adultos ou qualquer outro sujeito): enquanto alguns filmes buscam ouvir o que o sujeito fala, outros têm como objetivo registrar o que acontece com o sujeito.
Promessas de um Novo Mundo se foca claramente na fala (e na expressão em geral) em detrimento da ação. Sua estrutura, apesar de trazer protagonistas inseridos em uma situação de conflito, não explora uma narrativa clássica, típica do cinema de ficção, em que o protagonista é alçado à condição de herói que precisa vencer obstáculos (PUCCINI, 2009, p. 39). A fala dos protagonistas, seja no formato de entrevista com enquadramento do tipo talking
heads, seja nas imagens que captam ações das crianças, são a base do documentário, e se apresentam em ordem cronológica.
Essas características aqui levantadas foram observadas ao longo do processo de planejamento desta pesquisa, e permitiram notar que, entre os documentários com crianças, em especial aqueles que envolvem uma situação de conflito, Promessas de um Novo Mundo apresenta uma preocupação especial no que diz respeito a ouvir o que as crianças têm a dizer. Seja pelo seu formato longitudinal, seja pela ênfase nas entrevistas, o documentário permite perceber a
expressão das crianças sobre o tema do conflito entre palestinos e israelenses de forma a tornar perceptível o desenvolvimento intelectual e moral do sujeito, além das influências sociais sobre essas crianças.
Por esse motivo, o presente trabalho julga ser de grande valia concentrar-se na forma como esse documentário desenvolve a captação e a montagem da fala das crianças. Para isso, lançando mão dos subsídios sobre a compreensão do desenvolvimento do indivíduo abordados no capítulo anterior, buscar-se-á, a seguir, avaliar de forma mais intensa a expressão das crianças de Promessas de um Novo Mundo.
3 A DINÂMICA DA PARTICIPAÇÃO DAS CRIANÇAS E DA INTERAÇÃO COM