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O discipulado e o indivíduo

No documento Discipulado Dietrich - Bonhoeffer (páginas 43-48)

Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.

Lucas 14.26

O chamado de Jesus ao discipulado torna o discípulo um indivíduo. Querendo ou não, ele tem de se decidir, e tem de fazê-lo sozinho. Ser um indivíduo não é uma escolha própria; é Cristo que faz daquele que foi chamado um indivíduo. Cada qual é chamado individualmente, e sozinho deve seguir esse caminho. Com medo da solidão, o ser humano procura proteção junto às pessoas e às coisas que o rodeiam. De repente, dá-se conta de suas responsabilidades e apega-se a elas. Procura tomar sua decisão tentando esconder-se em suas obrigações, porque não quer se confrontar sozinho com Jesus, não quer ter de se decidir olhando fixamente para ele. Mas, nesse momento, nem pai nem mãe, nem esposa nem filhos, nem povo nem história podem ocultar aquele que foi chamado. Cristo quer que ele esteja só, que não veja ninguém, exceto aquele que o chama.

No chamado de Jesus, já está o rompimento do ser humano com as condições em que se acostumou a viver. Não é o discípulo que provoca esse rompimento, mas o próprio Cristo. Ao pronunciar o chamado, Cristo rompeu os laços do discípulo com o mundo, a relação direta com o mundo, e leva-o agora a relacionar-se diretamente com ele. Ninguém pode seguir a Cristo sem que reconheça e aceite esse rompimento. É uma ruptura que se realiza no chamado; não é a vontade de uma vida impulsiva que conduz a esse rompimento, mas apenas Cristo.

Por que deve ser assim? Por que não poderia haver um crescimento gradual e contínuo, um processo lento e santificador das ordens naturais a fim de promover a comunhão com Cristo? Que poder inconveniente é esse que se intromete entre o ser humano e as ordens da vida natural que nos foram dadas por Deus? Acaso esse rompimento não resulta de um metodismo legalista? Não seria um lamentável desprezo dos bondosos dons de Deus que nada tem a ver com a liberdade cristã? O que é certo é que algo de fato se impõe como obstáculo entre aqueles chamados por Cristo e as circunstâncias da vida natural. Não se trata, porém, de algo lamentável que revela desprezo à vida, não é uma lei de piedade; ao contrário, é a vida e o próprio evangelho, é o próprio Cristo. Com sua encarnação, Cristo se interpôs entre mim e as circunstâncias do mundo. Já não há volta; ele está no centro de tudo. Rompeu as relações diretas que aquele que foi chamado guardava com essas circunstâncias. Cristo quer ser o Mediador; tudo deve operar por seu intermédio. Ele não está apenas entre mim e Deus, mas também entre mim e o mundo, entre mim e os outros, entre mim e as coisas. Ele é o Mediador, não apenas entre Deus e o ser humano,

mas também entre um e outro ser humano, e entre o ser humano e a realidade. Porque todo o mundo foi criado por meio dele e para ele (Jo 1.3; ICo 8.6; Hb 1.2), ele que é o único Mediador no mundo. Desde Cristo, já não existe relação direta entre o ser humano e Deus, entre o ser humano e o mundo; Cristo quer ser o Mediador. É bem verdade que muitos deuses se oferecem para garantir ao ser humano acesso direto, e também que o mundo procura, por todos os meios, obter acesso direto ao ser humano; mas justamente aí reside a inimizade com Cristo, o Mediador. Os deuses e o mundo querem tomar de Cristo o que ele lhes tomou, ou seja, a exclusividade da relação direta com o ser humano.

O rompimento dos laços diretos com o mundo nada mais é que o reconhecimento de Cristo como Filho de Deus e Mediador. Nunca é um ato de vontade própria, em que o indivíduo renuncia aos laços com o mundo por amor a um ideal, um ideal menor que se troca por outro maior. Isso seria puro entusiasmo, obstinação, sim, uma insistência na relação direta com o mundo. Somente o reconhecimento de um fato consumado, isto é, Cristo como Mediador, separa o discípulo de Jesus do mundo dos seres humanos e das coisas. Uma vez que o chamado de Jesus não seja entendido como um ideal, mas como a Palavra do Mediador, ele efetua em mim esse rompimento já consumado com o mundo. Se se tratasse de comparar idéias, seria necessário avaliar qual nos traria uma compensação; nesse caso, a balança talvez pendesse a favor de um ideal cristão, mas suas reivindicações jamais poderíam ser absolutas. Do ponto de vista do ideal, das “responsabilidades” da vida, não se justificaria uma radical desvalorização das ordens naturais da vida em benefício de um ideal de vida cristã. Ao contrário, poder-se-ia fazer uma avaliação inversa, e isso justamente do ponto de vista de um idealismo cristão, de uma responsabilidade e de uma ética de consciência cristã. Mas, visto que, nesse contexto, não se trata de modo algum de ideais, avaliações e responsabilidades, mas de fatos consumados e de seu reconhecimento, ou seja, da própria pessoa do Mediador que se interpõe entre nós e o mundo, por isso mesmo existe somente o rompimento da relação direta com o mundo, e por isso aquele que foi chamado deve se tornar indivíduo perante o Mediador.

Assim, o discípulo aprende que a relação que mantinha com o mundo era uma ilusão. Essa ilusão chama-se “relação direta, sem mediador, com o mundo”, e ela estorva o discípulo em questões de fé e obediência. Agora, porém, sabe que ele próprio já não pode manter relações diretas com o mundo, nem nas relações mais íntimas, aquelas que incluem responsabilidades familiares com pai, mãe e filhos, e também as relações amorosas e as responsabilidades sociais e históricas. Desde a vinda de Jesus, não existe mais para seus discípulos a possibilidade de relações sem o Mediador, quer sejam naturais e históricas, quer sejam cotidianas. Entre filho e pai, entre homem e mulher, entre indivíduo e sociedade, está Cristo, o Mediador, mesmo que não se saiba reconhecê-lo. Para nós, já não existe um caminho para o próximo que não seja Cristo, sua palavra e seu discipulado. A relação com o mundo sem o Mediador é pura ilusão.

Por causa de Cristo, o Mediador, a relação direta com as situações naturais da vida deve ser tão odiada quanto a ilusão, que nos impede de ver a verdade. Qualquer comunhão que não nos permita ser um indivíduo perante Cristo, qualquer comunhão que reivindique autoridade sobre a relação direta com o

mundo, deve ser odiada por causa de Cristo, pois qualquer relação direta é, estejamos cientes disso ou não, ódio contra Cristo, o Mediador, mesmo e sobretudo quando se pretende cristã.

É um grave erro teológico usar a mediação de Jesus entre Deus e o ser humano para justificar as relações diretas com o mundo. Se Cristo é o Mediador, e assim se diz, então ele, portanto, carregou os pecados de nossas relações diretas como mundo, justificando-nos nelas. Jesus é nosso Mediador perante Deus, a fim de que, com a consciência tranquila, possamos nos relacionar novamente com o mundo, este mesmo mundo que crucificou Jesus. Assim, o amor a Deus e o amor ao mundo são reduzidos a um mesmo amor. O rompimento com as circunstâncias do mundo passa a ser o mal-entendido “legalista” da graça de Deus que desejava livrar-nos justamente desse rompimento. As palavras de Jesus sobre o ódio às relações diretas com o mundo passam a ser entendidas como a jubilosa afirmação das “realidades do mundo dadas por Deus”. Da justificativa do pecador, mais uma vez surge a justificativa do pecado.

Para o discípulo, “as realidades do mundo dadas por Deus” só existem por meio de Jesus Cristo. O que não me é dado por Cristo, que se fez humano, não me foi dado por Deus. O que não me é dado por causa de Cristo não provém de Deus. A ação de graças pelas dádivas da criação ocorre por mediação de Jesus Cristo, e a prece pela preservação da graça desta vida se dá por causa de Cristo. Se não posso agradecer por Cristo, não o devo fazê-lo de modo algum, pois seria um pecado. O caminho do próximo, com quem convivo, para “as realidades do mundo dadas por Deus” também passa por Cristo, e se não passar por Cristo, é uma ilusão. Todas as nossas tentativas de superar o abismo que nos separa dos demais seres humanos, a distância intransponível até o outro, a diferença, a estranheza de nosso semelhante, por meio de relações naturais ou emocionais, todas essas tentativas estão fadadas ao fracasso. Não existe caminho direto entre os seres humanos. Não alcançamos nosso semelhante nem por meio da empatia mais amorosa, nem da psicologia mais elaborada, nem da franqueza mais natural; não há relação direta entre almas. Cristo é o Mediador. Apenas com sua mediação o caminho para o próximo se torna possível. Por isso, a intercessão é o melhor caminho para o outro, e a oração conjunta em nome de Cristo é a comunhão mais autêntica.

Não há conhecimento verdadeiro das dádivas de Deus sem o conhecimento de seu Mediador, e é somente por causa de Jesus que elas nos são dadas. Não há ação de graças verdadeira que seja feita para o povo, para a família, para a história ou para a natureza sem o arrependimento profundo que honre Cristo acima de tudo e de todos. Não há relação legítima com as circunstâncias do mundo criado, não há responsabilidades legítimas para com o mundo sem o reconhecimento do rompimento que dele já nos separou. Não há amor verdadeiro ao mundo a não ser o amor com que Deus amou este mundo em Jesus Cristo. “Não ameis o mundo” (lJo 2.15), mas: “Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).

Se o rompimento ocorre de maneira visível, no âmbito da família, do povo, quando somos chamados a exibir a todos a desonra de Cristo, quando somos chamados a assumir a acusação de misantropia (odium

generis humani [ódio ao gênero humano]), ou se ocorre ocultamente, quando só o indivíduo está ciente

dele, embora sempre disposto a torná-lo visível a qualquer momento, isso ainda não constitui a diferença definitiva. Abraão é exemplo dos dois tipos de rompimento. Teve de romper amizades e deixar a casa

dos pais; Cristo se interpôs entre ele e sua família, entre ele e seus amigos. Nesse caso, o rompimento teve de se tornar visível. Abraão tornou-se estrangeiro por causa da terra prometida. Foi esse seu primeiro chamado. Mais tarde, é chamado novamente por Deus para sacrificar seu filho Isaque. Cristo se interpõe entre o pai da fé e o filho da promessa. O rompimento ocorre não apenas na relação direta natural, mas também na espiritual. Abraão tem de aprender que a promessa também não depende de Isaque, mas somente de Deus. Ninguém mais tem conhecimento desse segundo chamado de Deus, nem mesmo os servos que o acompanham ao sacrifício. Abraão se vê totalmente sozinho. Mais uma vez, é completamente um indivíduo, como quando deixou a casa dos pais. Aceita o chamado tal como lhe foi ordenado; não tenta interpretá-lo de maneira natural nem espiritual, mas aceita a palavra de Deus e se dispõe a obedecer. É obediente à ordem divina, contra toda relação direta natural, contra toda relação direta ética e religiosa. Leva o filho para o sacrifício. Quer que o rompimento, antes oculto, se torne visível, por causa do Mediador. E, naquele momento, tudo que ele ofereceu a Deus lhe é devolvido. Abraão recebe seu filho de volta. O próprio Deus lhe providencia uma vítima melhor, que substituirá Isaque no sacrifício. É uma mudança completa. Abraão recebe Isaque de volta, mas agora, a partir do sacrifício, sua relação com o filho se dá por meio do Mediador, por causa do Mediador. Sendo aquele que estava pronto a ouvir a palavra de Deus e cumprir o que lhe fora ordenado, ele agora pode ter Isaque, mas de forma diferente; agora pode tê-lo pela mediação de Jesus Cristo. Ninguém mais sabe o que ocorreu. Abraão desce da montanha com Isaque exatamente como havia subido, mas agora tudo mudou. Cristo se interpôs entre pai e filho. Abraão abandonara tudo e seguira a Cristo e, no meio do discipulado, recebe a permissão para viver novamente no mundo em que vivia antes. Aparentemente, tudo continua o mesmo, mas o mundo anterior passou; tudo se fez novo, tudo mudou. Tudo teve de passar por Cristo.

O episódio serve de exemplo para a outra possibilidade de tornar-se indivíduo, de tornar-se discípulo de Cristo no meio da comunidade, no meio do povo, na casa dos pais, junto aos bens e às posses. Mas é justamente Abraão quem foi chamado a essa existência, Abraão, que já havia tomado a decisão do rompimento visível, cuja fé se tornou padrão para o Novo Testamento. Bem que gostaríamos de generalizar essa possibilidade de Abraão, de entendê-la de maneira legalista, isto é, de transferi-la para nós mesmos sem maiores dificuldades. Essa seria também a nossa escolha na existência cristã, seguir Cristo, tornar-se indivíduo diante dele, sem nos desfazermos de nossos bens neste mundo. Mas uma coisa é certa: esse é o caminho mais fácil para o cristão, ou seja, é mais fácil ser levado ao rompimento externo que carregar em oculto esse rompimento na fé. Quem não sabe disso, quem não o aprendeu por meio das Escrituras nem da experiência, certamente se engana com o outro caminho. Será lançado de volta às relações diretas com o mundo e perderá a Cristo.

Não cabe a nós escolher esta ou aquela possibilidade; cabe a Jesus, é segundo a vontade dele que, de um modo ou de outro, seremos chamados para fora das relações diretas com o mundo, e aí então teremos de virar indivíduos, seja visivelmente, seja ocultamente

É, no entanto, exatamente o mesmo Mediador que nos torna indivíduos que também é o alicerce de toda a nossa nova comunhão. Ele está no centro, entre mim e os outros. Separa, mas também une. Assim, não

obstante estar fechado qualquer caminho direto até o outro, o caminho novo, o único e verdadeiro, até o outro nos será mostrado pelo Mediador.

Então, Pedro começou a dizer-lhe: Eis que nós tudo deixamos e te seguimos. Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna. Porém muitos primeiros serão úitimos; e os úitimos, primeiros.

Marcos 10. 28-31

Nessa passagem, Jesus está falando àqueles que se tornaram indivíduos por causa dele, que tudo abandonaram quando ele chamou, que podem dizer sobre si mesmos: “Eis que nós tudo deixamos e te seguimos”. A eles é dada a promessa de uma nova comunhão. De acordo com as palavras de Jesus, receberão, já no presente, cem vezes mais do que deixaram para trás. Jesus refere-se à sua Igreja, que está nele. Quem abandona o pai por causa de Jesus com certeza encontra outro pai, encontra irmãos e irmãs, sim, até campos e casas lhe estão preparados. Cada qual entra sozinho no discipulado, porém nele ninguém fica só. A comunhão da Igreja é dada a quem ousa tornar-se indivíduo ao seguir as palavras de Jesus. Torna a encontrar-se numa irmandade visível, que o recompensa cem vezes por aquilo que perdeu com o rompimento. Cem vezes? Sim, porque agora ele tem tudo isso por meio de Jesus, o Mediador, o que significa igualmente “com perseguições”. “Cem vezes” — “com perseguições”, tal é a graça da Igreja que segue seu Senhor sob a cruz. Esta é, portanto, a promessa para os discípulos: tornarem-se membros da comunidade da cruz, povo do Mediador, povo sob a cruz.

Estavam de caminho, subindo para Jerusalém, e Jesus ia adiante dos seus discípulos. Estes se admiravam e o seguiam tomados de apreensões. E Jesus, tornando a levar à parte os doze, passou a revelar-lhes as coisas que lhe deviam sobrevir.

Marcos 10.32

Jesus sobe para Jerusalém, para a cruz, como que para confirmar três coisas: a seriedade de seu chamado ao discipulado, a impossibilidade de ser discípulo por vontade própria, e a promessa de pertencer a ele “comperseguições”. Os discípulos admiram-se e espantam-se como caminho para o qual ele os chama.

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No documento Discipulado Dietrich - Bonhoeffer (páginas 43-48)