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PARTE I – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

CAPÍTULO 4 – NOÇÃO DE DISCURSO: NOTAS SOBRE O DISCURSO

4.1. O que é discurso?

4.1.2. O Discurso científico

Segundo Platão e Fiorin (2000), o discurso dissertativo de caráter científico busca causar um efeito de sentido de objetividade mediante a tentativa do enunciador de se ausentar do enunciado, colocando as informações transmitidas em foco. Desse modo, assume-se no manual desses autores que o texto científico tenta neutralizar a presença do enunciador. Para que essa presença seja neutralizada, são utilizados alguns recursos; vejamos alguns deles:

(i) não se usar verbos na primeira pessoa, principalmente os verbos de dizer tais como: afirmo, assumo, digo, que indicam uma posição assumida pelo enunciador; (ii) caso se utilize a primeira pessoa, usá-la apenas no plural (nós), pois, assim, o que foi asseverado será visto como um saber coletivo;

(iii) deve-se explorar apenas o valor denotativo de uma palavra, uma vez que as palavras, nesse tipo de discurso, devem ser compreendidas de uma única forma, devendo ser atribuído a elas apenas um significado;

(iv) não se deve usar, em tal discurso, gírias ou qualquer tipo de língua que não seja a língua culta formal.

Além desses recursos, é recorrente no discurso científico o uso de verbos impessoais, como: admite-se, afirma-se, assume-se, etc.

Por ser o discurso científico concebido como o discurso da objetividade, o enunciador tenta destacar nele o valor de verdade dos enunciados por meio da fundamentação das idéias e da construção da argumentatividade. Platão e Fiorin (op. cit.) expõem alguns procedimentos que servem para fundamentar o texto científico:

a) O argumento de autoridade, no qual se recorre a uma teoria ou um teórico

(autoridade reconhecida) para embasar o enunciado e, assim, dar maior credibilidade a ele.

b) O apoio na consensualidade, no qual se recorre a idéias e conhecimentos

consensualmente aceitos de antemão como verdadeiros.

c) A comprovação pela experiência ou observação, em que se recorre a dados que

comprovem a validade das informações transmitidas.

d) A fundamentação lógica, em que se recorre a operações de raciocínio lógico

para fundamentar o enunciado, tais como as operações de causa e efeito.

O texto científico pode ser desqualificado se o enunciador atribuir uma opinião pessoal ou restrita a sua concepção de verdade dos fatos, ou se os recursos argumentativos

utilizados, como citação de autores renomados, forem de encontro às idéias expostas no texto ou, ainda, se os dados apresentados no enunciado invalidarem as conclusões do texto. (cf. PLATÃO e FIORIN, op. cit.).

Coracini (1991), a respeito da organização macrodiscursiva do discurso científico, concebe este como constituído por dois tipos de textos: um texto envolvente e um texto envolvido. O primeiro tipo é considerado englobante, uma vez que guarda em si outro texto (o texto envolvido) e é responsável por envolver enunciador e enunciatário, posto que sempre há a tentativa de convencimento do enunciatário, para que este aceite o que foi proposto pelo enunciador. O segundo tipo (texto envolvido) está imbricado no primeiro e engloba o relato da experiência ou pesquisa. Dessa forma, essa autora nos apresenta o seguinte esquema da organização macrodiscursiva dos textos científicos:

O texto envolvido é caracterizado como um discurso narrativo por ser, segundo Labov e Watelzky33 (1966 apud CORACINI34, 1991 p. 86), “um modo de recapitular experiências passadas mediante a combinação de uma seqüência verbal de orações com a seqüência de eventos que ocorrem na realidade”. Assim, esse tipo de texto segue em sua superestrutura básica as seguintes etapas: orientação (dados sobre o lugar, o momento e a situação); a complicação e a resolução.

Segundo Bremond35 (1964), a estrutura do texto científico coincide com a da

narração por encaixe (observação dos dados, elaboração de uma hipótese, verificação da

hipótese e conclusão). A respeito dessa concepção, Coracini (op. cit.) afirma que esta proposta é incoerente, pois Bremond se atém apenas à estrutura do texto sem ter em consideração os propósitos com que este foi construído. Além disso, argumenta que tal autor está considerando o todo textual como uma narração, o que não é verdade, uma vez que nele estão imbricados elementos argumentativos.

33 LABOV, W. & WALETZKY, J. Narrative analysis: oral versions of personal experience. In: HELM, H. (Ed.).

Essays on the verbal and visual acts. Seattle. University of Washington Press, 1966, pp.12-44.

34 CORACINI, M. J. R. F. Onde o Discurso Científico „se aproxima‟ do discurso político. Um fazer persuasivo:

o discurso subjetivo da ciência. 1ª ed. São Paulo: Educ, Campinas, SP: Pontes, 1991. pp.41-46.

35 BREMOND, C. A mensagem narrative. In: _____ et al. Literatura e semiologia. Petrópolis, Vozes, 1964.

texto envolvente

texto envolvido (relato da experiência)

Segundo Haré36 (1960 apud CORACINI, ibidem) o discurso científico é eminentemente descritivo. Coracini afirma que os elementos descritivos são partes integrantes da narração e “admitir a existência de discursos unicamente descritivos significaria proceder a uma análise de tipo formal, isolada de toda concepção pragmático-enunciativa e de todo propósito comunicativo” (p. 87).

Coracini concebe o discurso científico como um discurso subjetivo e argumentativo, uma vez que contêm todos os componentes pragmáticos (cf. CHAROLLES37, 1980) de um discurso argumentativo: a situação em que está inserido o discurso (lugar e momento da pesquisa); os participantes dele; o objetivo que se deseja alcançar e os meios utilizados para persuadir o enunciatário.

Concebemos que, no discurso científico, o uso do recurso da paráfrase como explicação definidora deve, provavelmente, acentuar o valor de verdade dos fatos, esclarecendo por meio de teorias já consolidadas ou de conhecimentos consensualmente aceitos o significado dos termos ou expressões. Além disso, as explicações definidoras utilizadas nesse tipo de discurso devem ser as mais claras e precisas possível, evitando qualquer tipo de ambigüidade e sendo atribuído apenas um significado ao termo ou expressão que se quer definir.

É relevante asseverar que as explicações definidoras no discurso científico são construídas segundo os mesmos critérios que fundamentam este tipo texto, cumprindo funções específicas e auxiliando o enunciador a construir a argumentação, mesmo que esta seja mascarada.