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habilidades e superdotação na Rede Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Para este balanço de produções

SUJEITOS DA EDUCAÇÃO ESPECIAL

4.6. O Discurso da Inclusão

As políticas educacionais atuais estão envoltas pelo discurso da inclusão. Os documentos que dão as diretrizes para ações e estratégias aos sujeitos da educação especial referem-se constantemente à ideia da inclusão em seu bojo. O documento ANAIS (BRASIL, 2006) apresenta três princípios filosóficos da inclusão: “- a preservação da dignidade humana; - a busca da identidade; - exercício da cidadania.” (BRASIL, 2006, p. 9). Podemos perceber que a inclusão educacional assume características sociais e com valores humanitários e que as questões pedagógicas, educacionais e de aprendizagens ficam em segundo plano. Para a Rede Federal, a inclusão aparece com destaque, já que “com a criação dos Institutos Federais, destaca-se como foco a justiça social e a igualdade. Isso implica dizer que, na atualidade, a Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica tem o compromisso de disseminar cada vez mais propostas de inclusão social.”(IF-SC, 2009a, p. 49, grifo nosso). Destacamos o fato de que o termo inclusão vem constantemente relacionado a outros termos de caráter humanitário, como igualdade e justiça social.

Em outro documento, a inclusão é definida como:

o processo de adequação da sociedade às necessidades de todos os seus componentes, para que os mesmos, estando nela incluídos, possam exercer plenamente a sua cidadania. Ou seja, é da interação Sociedade/PNE [pessoas com necessidades específicas] que a inclusão é viabilizada. (BRASIL, 2010b, p. 26).

Percebe-se que a inclusão é tratada como promotora de cidadania e que a abertura de espaços aos sujeitos da educação especial – sendo utilizado no excerto de forma mais ampla com pessoas com “necessidades específicas” – viabiliza a inclusão, como uma forma de aceitação das diferenças individuais.

Constatamos que as políticas de perspectiva inclusiva do IF-SC apresentam três eixos principais: voltadas para ações afirmativas, direcionadas aos sujeitos da educação especial e aos considerados em desvantagem social. Algumas dessas ações parecem ser voltadas numa perspectiva de “gestão da pobreza”, com características de função social dos institutos a diminuição destas disparidades construídas socialmente. Os discursos dos envolvidos com inclusão no IF-SC também apresentam esta perspectiva:

O que a gente espera quando eles entram é cumprir com o nosso papel social. O Instituto, na lei do instituto e no nosso regimento, a gente diz lá qual o nosso foco, qual a nossa meta: a gente quer a inclusão, a gente quer ali os grupos em desvantagem social para dar condições de eles entrarem ao mundo do trabalho e poderem ter condições de serem cidadãos dessa nação. A gente quer que eles entrem para serem cidadãos do Brasil. O que a gente quer que aconteça com ele quando eles vêm aqui: cumprir com o nosso papel social, que é nossa atribuição e nos estamos procurando abraçar nossa atribuição. (CNC1, 2011).

O papel de amenizar as desigualdades sociais parece ser aceito e tomado como princípio dentro da Rede Federal, tomando para si o papel de promotor de igualdade social e de obtenção de cidadania. Sobre esse “enfrentamento” às desvantagens sociais, a inclusão se apresenta como papel crucial e podemos problematizar, inclusive, que os documentos levam ao entendimento de que somente através da inclusão poder-se-á tornar nossa sociedade mais justa.

Muitos trechos dos documentos institucionais acabam por tratara inclusão como uma alternativa ao fim da desigualdade, não considerando que “a desigualdade social nada mais é que uma expressão da contradição capitalista, e pôr fim à desigualdade demanda o ataque aos fundamentos centrais do modo de produção vigente”(MARTINS E PINA, 2010). Muitas vezes a forma como se apresenta a inclusão pode ser tomada como clichê e como disseminação da ideia, embora consideremos que as ações tomadas não assumem características de transformação social, nem de emancipação dos sujeitos, já que estão a serviço do sistema econômico e social vigentes. Ponderamos que a

perspectiva tomada é de contenção ou amenização das desigualdades sociais.

Os discursos apresentados sobre inclusão são propostos para encobrir as disparidades sociais, políticas e econômicas, cujas desigualdades de classe permeiam (também) nossos espaços escolares. O capital utiliza-se de artimanhas, entre elas a disseminação da inclusão, encobrindo o fato do capitalismo ser o causador da desigualdade social. O que não se apresenta nessas políticas é que:

[…] poderíamos afirmar que, no âmbito do embate ideológico e político, a “exclusão social” expressa, certamente, o diagnóstico e a denúncia de um conjunto amplo, diverso e complexo de realidades em cuja base está a perda parcial ou total de direitos econômicos, socioculturais e subjetivos. Sinaliza, quem sabe, o sintoma de uma realidade contraditória em cuja base está a forma mediante a qual o capital reage às suas crises cíclicas de maximização de lucro, vale dizer, suas crises de tendência de queda da taxa de lucro. Na atual crise, [...] o capital está expondo limites nunca antes expostos com igual magnitude e intensidade, resultado de sua forma contraditória e, por isso, destruindo, de forma devastadora, direitos constituídos ao longo, especialmente, dos últimos 100 anos. (FRIGOTTO, 2010, p. 419). Nesse aspecto, a inclusão toma características de abertura dos espaços (escolares), aceitação das diferenças e de caráter humanitário (do capital), apresentando ideais de justiça social, diversidade, protagonismo, igualdade de oportunidades, entre outros conceitos. Coloca-se que a inclusão é papel de todos e que ninguém pode ser contra essa premissa, já que possui preceitos que são bem aceitos pela sociedade em geral.

As políticas de inclusão não são propostas para exterminarem as desigualdades sociais, políticas ou econômicas, em busca de uma vida mais justa e de fato emancipatória, mas para amenizarem as disparidades sociais. Consideramos, inclusive, que essas iniciativas que depositam no indivíduo a responsabilidade da política, procura retirar a característica de classe social, com o intuito de fortalecer o poder hegemônico. A relação capital/trabalho continua central para entendermos a dinâmica social. (MESZAROS, 2002).