Filosofia de Design
3.4 O discurso do designer no contexto da Gestão de Design
Não é objetivo desta tese analisar em profundidade as questões referentes às diferentes definições sobre a disciplina do design, mas sim entender que nestes últimos 53 anos, desde a criação do primeiro curso regular de design no Brasil26, em 1962, na ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial) (LEON, 2005, e NIEMEYER, 1998), a compreensão do que é design tem se difundido com suficiente clareza para construir um discurso de design. Mas esta percepção, do ponto de vista do empresariado, é geralmente entendida dentro de uma concepção de que design ainda é uma ferramenta estética, e estas são as expectativas de uso do design pelo empresariado.
A constante diferença entre as expectativas dos empresários e as dos designers quanto ao desenvolvimento de um determinado produto ou quanto aos resultados de uma consultoria deve-se em parte à crença, por parte dos empresários, de que dentro do segmento popular não cabe o trabalho de design. Isto reflete o desconhecimento por parte dos empresários de como se dá o trabalho do designer e de que forma o design pode ser incorporado ao produto e ao processo produtivo. (LANDIM, 2010, p. 137).
Esta percepção é comparada com a ideia de que o,
[...] design de produtos é um meio para obter vantagem competitiva. A combinação de aspectos funcionais, como perfil anatômico e leveza, a aspectos estéticos, como cor, formato, transparência (materiais), textura
26 Considera-se que Eliseu Visconti, precursor do moderno design brasileiro, foi também pioneiro no ensino desta
atividade. Convidado em 1934 por Flexa Ribeiro, que na época era diretor da Escola Politécnica da Universidade do Rio de Janeiro, Visconti organiza e ministra um curso de extensão universitária em arte decorativa e arte aplicada às indústrias, adotando no seu ensino a orientação de Eugene Grasset, um dos mais destacados no estilo Art-Nouveau.
Também se considera que o Instituto de Arte Contemporânea (IAC) do Museu de Arte de São Paulo (MASP) foi a primeira escola de design industrial do Brasil. Inaugurada em 1951, com a exposição de obras do artista suíço Max Bill, a escola reuniu grandes nomes. Entre seus professores estavam Lina Bo Bardi, Pietro Maria Bardi, Jacob Ruchti, Oswaldo Bratke, Roger Bastide, Flávio Motta, entre outros.
(superfície), luminosidade etc., agrega a um produto fatores que o identificam e o distinguem dos demais. (GOBE et al, 2004, p. 73).
A sensação é que o discurso do design está fundamentado no seu valor formal, ainda que isto seja de extrema importância se analisarmos o design como valor semiótico e emocional, mas o contexto econômico é bem mais amplo. O atual discurso sobre o design está mais bem compreendido haja vista os investimentos que entidades governamentais e associativas fazem para projetar a importância desta profissão, porém falta ampliar esta percepção na construção de um diálogo com a necessidade atual do empresariado brasileiro em ser cada vez mais competitivo, quando a análise da visão de negócios se torna importante.
Como foi exposto anteriormente, há várias definições do design cuja compreensão depende de diferentes pontos de vista e interpretações de uma prática original vinda de uma das principais entidades associativas do Desenho Industrial que é o ICSID (International
Council of Societies of Industrial Design). Tomás Maldonado foi um dos pioneiros em definir o
que é o Desenho Industrial, e esta definição posteriormente foi adotada por muitas entidades de ensino, organizações e associações nacionais de Desenho Industrial. A define como,
[...] o conjunto de atividades de diagnóstico, coordenação, negociação e design que se leva a cabo tanto na atividade de consultoria externa como no âmbito da organização empresarial, interagindo com os setores responsáveis da produção, da programação econômico-financeira e da comercialização, com a finalidade de permitir uma participação ativa do design nas decisões dos produtos. (MALDONADO, 1977, p. 13).
Nesta colocação já está inserida a definição do que seria a própria Gestão de Design tendo em vista que a gestão coordena, integra e articula todo o relativo ao desenvolvimento do design.
Esta definição pode ser comparada com a própria definição de Mozota (2011) ao colocar que a Gestão de Design contribui para atender às metas corporativas estratégicas, gerencia os recursos de design e constrói uma rede de informações e ideias importantes para o resultado do design dentro de uma empresa.
Ampliando a análise desta questão do ensino na prática acadêmica, foram analisadas dez apresentações de bancas de um curso de Pós-Graduação em Gestão de Design27.
A experiência com estes alunos de pós-graduação em Gestão de Design mostra dois aspectos importantes. Com pouquíssimas exceções, a maioria procura desenvolver um plano de negócios da empresa onde trabalha ou a montagem da sua empresa – se fosse um curso de empreendedorismo o foco estaria correto. Um segundo ponto é o esquecimento de que a Gestão de Design deve ter sua essência no design como projeto e não na empresa que administra este design.
É possível a Gestão de Design fazer a gestão de uma empresa fabricante de automóveis, sabendo que o design é de extrema importância para o sucesso das suas vendas? Melhor seria cuidar estrategicamente do seu núcleo de design.
É possível a GD estruturar um escritório de design, cuidando de salários, aluguel, taxas, planos de marketing? Não seria mais interessante administrar esta empresa e focar a Gestão de Design no próprio esforço de colocar para o cliente a melhor proposta?
Está claro que a prática do design se refere ao próprio âmbito do design em todas suas nuances profissionais. No livro Manual de Gestão de Design (DZ CENTRO DE DISEÑO, 1997, p. 31), define-se a Gestão de Design como o sistema “[...] que se encontra intimamente relacionada com a concepção do projeto, isto é, com as atividades que se realizam durante o processo de transformação de uma ideia num produto físico [...]”. Também é apontado outro nível da Gestão de Design que seria estritamente o âmbito estratégico do design, “[...] que condiciona a margem operacional e as suas variantes, uma vez que pressupõe a aceitação e compromisso da administração em dotar o design de recursos, meios e organização suficientes para o desenvolvimento de projetos [...]”.
Mas aqui se está referindo à estruturação de departamentos, grupos, equipes que vão gerir as atividades de design dentro da empresa. Martins (2008), no seu livro A Gestão de
27 Este autor é professor de pós-graduação em Gestão de Design numa IES no município de São Paulo - Brasil, e
Design como estratégia organizacional, separa em capítulos distintos o que é Gestão Empresarial (Capítulo 3) e Gestão de Design (Capítulo 4), o que dá a entender que uma visão é a organização da empresa e outra é o projeto de design, ainda que se a gestão empresarial é colocada neste texto é porque de fato o designer ou gestor deve entender de algumas das ferramentas tanto de administração de empresas como de marketing para poder elaborar as próprias estratégias do design.
Esta análise indica, então, a necessidade de discutir a GD como disciplina já no âmbito acadêmico com foco no projeto de design, para assim, posteriormente, propor um discurso coerente que possa ser entendido pelo empresariado. A grande confusão que se coloca no discurso atual é que o gestor de design pode e tem a capacidade de estruturar e administrar uma empresa, o que de fato é falso. Como coloca Walton (2000), “Gestão de Design é uma faceta do gerenciamento de uma organização”, um componente e não a própria organização.