SEÇÃO 3 O PERCURSO METODOLÓGICO 3.1 A estrutura do curso de formação da Semec
3.4 O discurso docente como fonte interpretativa
Para este estudo estabelecemos uma interlocução com os conceitos de discurso, dialogismo e polifonia, do teórico Mikhail Bakthtin (1929).
O discurso expressa a visão de mundo e as concepções dos sujeitos presentes na mise en scene discursiva. A fala, nesse sentido, não é produto apenas do protagonista da fala, à medida que contempla as vivências e experiências trazidas de outros contextos. A fala expressa é, portanto, uma expressão de concepções que se afinam na composição do discurso. Assim, o discurso, a partir das palavras, vai sendo tecido e configurado no espaço social, nos quais o sujeito está inserido, e que, consequentemente, refletem sua caminhada histórico-social e cultural, sendo formada ao estabelecer conexões com os interlocutores na rede de suas relações sociais. Segundo Bakhtin (1997, p.41), a palavra é o indicador mais sensível das transformações sociais:
As palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios. É, portanto, claro que a palavra será sempre o indicador mais sensível de todas as transformações sociais,
mesmo daquelas que apenas despontam, que ainda não tomaram forma, que ainda não abriram caminho para sistemas ideológicos estruturados e bem formados. A palavra constitui o meio no qual se produzem lentas acumulações quantitativas de mudanças que ainda não tiveram tempo de adquirir uma nova qualidade ideológica, que ainda não tiveram tempo de engendrar uma forma ideológica nova e acabada. A palavra é capaz de registrar as fases transitórias mais íntimas, mais efêmeras das mudanças sociais. (BAKHTIN, 1997, p.41)
Nesse universo de palavras que expressa o discurso, vamos nos ater para entender o discurso e as concepções dos professores sobre a utilização do cinema como recurso pedagógico.
Quanto à inter-relação de fios da palavra, que está presente no enunciado dos locutores e interlocutores de um grupo, temos a expressão de determinado grupo sobre um tema, segundo Bakhtin (1997, p.77):
Cada enunciação, cada ato de criação individual é único e não reiterável, mas em cada enunciação encontram-se elementos idênticos aos de outras enunciações no seio de um determinado grupo de locutores. São justamente estes traços idênticos, que são assim normativos para todas as enunciações – traços fonéticos, gramaticais e lexicais -, que garantem a unicidade de uma dada língua e sua compreensão por todos os locutores de uma mesma comunidade. (BAKHTIN, 1997, p.77)
Dessa forma, mergulhar em um processo de análise do discurso por meio da enunciação, pronunciado pelo locutor ou um grupo de locutores, é o que nos dá suporte para entender sua compreensão e sua visão sobre determinado tema.
Outro conceito utilizado é o dialogismo, exposto por Barros (2003, p.2), como condição do sentido do discurso elaborado por Bakhtin, que
concebe o dialogismo como princípio constitutivo da linguagem e a condição do sentido do discurso. Examina-se, em primeiro lugar, o dialogismo discursivo, desdobrado em dois aspectos: o da interação verbal entre o enunciador e o enunciatário do texto, o da intertextualidade no interior do discurso. (BARROS, 2003, p.2)
Bakhtin, conforme destaca Barros (2003, p.2-3), caracteriza o dialogismo não apenas a partir da constituição do eu, mas também a partir da relação entre o eu e o outro (as vozes sociais), que o posiciona como um sujeito histórico e ideológico.
Nesse cenário, para compreender as várias vozes do discurso apresentadas pelos enunciados dos falantes, temos o conceito de polifonia, como ressalta Barros (2003, p. 05-06): “Emprega-se o termo polifonia para caracterizar um certo tipo de texto, aquele em que se deixam entrever muitas vozes, por oposição aos textos monofônicos, que escondem aos
diálogos que os constituem.” Um enunciado, de acordo com a elaboração do locutor, pode apresentar várias vozes presentes nesse discurso: a voz do sujeito como profissional, como espectador analisando uma cena, a voz de vítima de um contexto e várias outras.
Em nosso estudo, considerando o discurso docente polifônico, é possível antever a presença/ausência de vozes. As vozes dos professores, por exemplo, desmembradas em voz do professor tradicional e do professor inovador, poderiam ser esperadas nas falas dos participantes.
Além disso, nos enunciados podem ocorrer uma troca constante de informação e interação entre os sujeitos, principalmente em uma dimensão educativa a interação é um alicerce imprescindível no processo de ensino-aprendizagem, conforme Barbosa (2010, p. 51):
As interações formam o alicerce necessário à construção das experiências que professores e alunos adquirem por meio dos processos de ensino e aprendizagem. A vida em sala de aula é discursivamente construída e suas estruturas organizativas e de funcionamentos têm sustentação nas experiências que vivem na escola e fora dela. (BARBOSA,2010, p.51)
As palavras empregadas nos enunciados discursivos vão expor a visão do sujeito sobre determinado tema. Por isso, trabalhar com a análise do discurso significa trabalhar com uma riqueza de informações, pois, a partir de uma análise e de um olhar mais atentos, conseguimos entender as percepções do outro, conforme sua posição, bem como as concepções que foram sendo formadas diante de uma realidade sócio-histórica, cultural, dentre outras. Segundo Geraldi (2010, p. 123-124), as trajetórias dos sujeitos os fazem sociais também pela língua compartilhada:
A linguagem, enquanto processo de constituição da subjetividade, marca as trajetórias individuais de sujeitos que se fazem sociais também pela língua que compartilham. A exploração das contrapalavras das compreensões diferentes permite o cálculo de horizontes de possibilidades e a construção, através da memória do futuro, de lugares desterritorializados a partir dos quais podem ser mobilizados desejos e ações que, respeitando diferenças, não as transformam em desigualdades. (GERALDI, 2010, p.123-124)
A linguagem nos aproxima e, por meio dela, construímos nossos territórios de relações comuns, assim como também pode nos distanciar, quando não nos vemos no horizonte das relações com os outros.
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