A ALFABETIZAÇÃO NA REVISTA DE EDUCAÇÃO (1933-1943)
1. A produção sobre alfabetização na Revista de Educação (1933-1943)
1.1 O discurso hegemônico acerca dos testes ABC
Em março de 1933, Onofre Penteado aponta, no artigo “Os testes ABC como meio de seleção de classes”, que os professores ainda não sabem como utilizar os testes ABC, e que, no entanto, muitos deles estão procedendo, de maneira errônea, à aplicação dos oito testes para a seleção das classes compostas respectivamente por alunos fracos, médios e fortes.
Na tentativa de se divulgar amplamente entre os professores primários os fundamentos teóricos dos testes ABC e apresentar as explicações necessárias e os motivos para a aplicação dos testes ABC, Lourenço Filho tem publicado, então, o artigo “O problema da maturidade para a leitura e escrita”, em dezembro de 1933.
Agora, do lugar de diretor do Instituto de Educação da Capital Federal, demonstrando insatisfação quanto à “política de alfabetização” no Brasil, propõe uma forma diferente de tratar os problemas da educação, inclusive da alfabetização.
Ao escrever sobre o que está entendendo por educação, cultura e alfabetização e as possíveis relações estabelecidas entre esses conceitos, sustenta que “Alfabeto e cultura não são sinônimos e, muito menos, alfabeto e educação.”, dessa forma a educação deve ultrapassar “[...] o caráter do ensino simples das primeiras letras.” (LOURENÇO FILHO, 1933, p. 91). Para tanto a escola necessita de ajustamentos, especialmente, quanto a maneira de conduzir a alfabetização.
Ajustamento, enfim, num sentido dinâmico, às possibilidades e necessidades de cada região, com respeito aos quadros morais de nosso tempo. O aprendizado da leitura e da escrita por certo que aí entra, em tal conjunto de técnicas de adaptação, mas como processo elementar, mero instrumento, nunca finalidade que a si mesma possa salientar.” (Idem, p. 91)
Após expor essas questões, o autor observa que o que está propondo, na essência, não é um debate sobre a cultura, mas sim um debate sobre um problema que considera de natureza difícil e fundamental, a aprendizagem da leitura e da escrita, pois, de acordo com a nova mentalidade educacional à época, era necessário aumentar a matrícula no primeiro ano escolar, organizar e expandir o aparelho escolar.
[...] a cultura não é a escola de primeiras letras extensas; mas, onde quer que uma escola popular esteja aberta, tradicional ou renovada, o problema da leitura e da escrita, é o problema que, ao mesmo tempo se apresenta como fundamental. (LOURENÇO FILHO, 1933, p. 92)
Nesse sentido, o reformador do ensino, pensa a educação como um conjunto de técnicas que necessita de adaptação, e, alfabetização como um instrumento de aquisição individual de cultura. Assim, a aprendizagem deve atender às diferenças individuais,
[...] que permita, de um lado, a apreciação rápida, simples e eficiente da capacidade de aprender o simbolismo da leitura e escrita, em cada aluno; de outro, a organização de classes seletivas para desigual velocidade no ensino, com o que tenderão a maior economia de tempo e energia de mestres, e conseqüente aumento da produção útil total da máquina escolar. (Idem, p. 95)
Para a organização de classes seletivas, então, o critério científico é o emprego dos testes ABC e “[...] condição elementar para a eficiência das classes que tenham que dar êsse aprendizado.” (LOURENÇO FILHO, 1933, p. 92). A organização de classes é necessária, porque a maturidade apresenta variações individuais e, na fase inicial da leitura e da escrita, exige-se um mínimo de maturidade da coordenação vísio-motora e auditivo-motora da palavra. Assim, destaca que a maturidade é de ordem mais fisiológica que propriamente psicológica, pois independe da idade mental ou cronológica do aluno.
A criança, com suas diversidades individuais, deve, por sua vez, ser considerada e estudada pelo professor para que este possa realizar o ajustamento da personalidade dos alunos, em face as novas possibilidades e necessidades da educação. A escola teria assim, função socializadora, capaz de adaptar o aluno ao tempo e ao meio, “[...] estudemos a matéria prima, antes do ajustamento das máquinas que devem trabalhar.” (LOURENÇO FILHO, 1933, p. 94).
Ao discorrer sobre o estudo da criança, Lourenço Filho considera que é mais importante o professor conhecer as características individuais das crianças, do que a escolha do melhor método para ensinar a ler e a escrever, relativando assim o método de alfabetização.
Nessa investida, a partir de 1935, começam a ser publicados artigos referentes a relatos de experiências bem sucedidas relacionados à aplicação dos
testes ABC, em escolas da capital e do interior do Estado, como os revelam os discursos de Bruno Vollet, Anna Nogueira Ferraz e Olga Bolliger, Renato de Arruda Penteado.
Esses discursos destacam, objetivando adesão dos professores, os aspectos positivos de se procederem à aplicação dos testes para classificar as crianças ingressantes nas classes de alfabetização, apresentando dados estatísticos que comprovam o aumento da taxa de aprovação ao final do primeiro ano escolar, antes e depois da aplicação dos testes.
Ainda nos textos, a figura de Lourenço Filho, é citada como quem tem “autoridade [científica] no assunto”. Assim, encontramos nos escritos de Henrique Ricchetti (1936) “Como apresenta Lourenço Filho”; nos de Anna Nogueira Ferraz e Olga Bolligar (1936) “De acordo com as indicações do professor Lourenço Filho”; e nas citações de Bruno Vollet (1934) “Esse pressuposto pode ser confirmado ao se consultar o livro de Lourenço Filho.”.
A série de artigos envolvendo a temática dos testes culmina com o texto organizado pela Comissão de estudos do S.I.A.E (Chefia das Instituições Auxiliares da Escola), em 1939 e intitulado “Testes” e tem como objetivo divulgar os trabalhos realizados pelo Laboratório de Psicologia, anexo à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.
A esta altura, a “Comissão de estudos” faz uma avaliação de como a divulgação dos testes ABC vinha sendo encaminhada:
[...] a obra de divulgação, referente aos testes, já tão bem encaminhada pelo Laboratório de Psicologia ora anexo à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, e pelos esforços isolados de colaboradores desta Revista, de diretores e professores, que isoladamente, têm colhido resultados satisfatórios neste campo educacional. (COMISSÃO DE ESTUDOS, 1939, p. 28)
Além de destacar o importante papel da Revista de Educação na divulgação dos testes ABC, a Comissão, aproveita para informar que “Nenhum professor começa anualmente o seu trabalho, sem procurar conhecer seus alunos. Um dos seus primeiros cuidados é dar à classe provas fáceis, para distinguir quais os alunos mais fortes, os médios e os mais fracos”. (p. 29), e, que “Os testes ABC
apresentam uma técnica de aplicação definida e inequívoca, em suas oito provas, que indagam aspectos diversos da estrutura da Leitura e Escrita.” (p. 33).