3. O sujeito e o discurso
3.6 O discurso jornalístico
Representar a realidade, usar a linguagem para representar o acontecimento. Este é o papel básico do discurso jornalístico. Fruto do contexto e da história, o texto jornalístico é repleto de significados que o transforma não numa parte da realidade, mas num enunciado que interliga interlocutores, produzindo efeitos de sentido em quem lê ou ouve a notícia. De acordo com Ângela Cristina Trevisan Felippi (1999), “o que está em jogo é a ilusão referencial da linguagem. A linguagem não descreve, ela constitui o que representa, produz significados, é, portanto, processo produtivo” (FELIPPI, 1999: 05).
Como visto no capítulo 2, o campo social midiático, contrariamente aos outros campos sociais, tem sua autonomia marcada pela busca do domínio da experiência dos outros campos sociais, que tenta relatar em seu discurso. Esta tentativa de dar visibilidade aos discursos dos
vários segmentos sociais é que confere legimitidade à imprensa. Ela “dessacraliza” o discurso autorizado e especializado dos vários grupos sociais na medida em que os expressa para uma massa de leitores/espectadores. Daí sua função mediadora de discursos. Segundo Adriano Duarte Rodrigues:
“É a instituição midiática que desempenha, nas sociedades modernas, este papel estratégico de composição e de conseqüente cimento homogeneizador da vida coletiva. Nela vem refletir-se, como num espelho, a diversidade das funções pedagógicas, simbólicas, mobilizadoras e reparadoras das restantes instituições” (RODRIGUES, A., 2002: 224).
É preciso ampliar a noção de que uma reportagem seja apenas uma mensagem transmissora de informações: o jornalismo é uma leitura da realidade e a notícia existe apenas enquanto discurso midiático. Para Sandra Jovchelovitch (2000b), “os jornais perpetuam e ao mesmo tempo constroem representações sociais” (JOVCHELOVITCH, 2000b: 103). Entretanto, esta leitura do real não é subjetiva em sua totalidade, uma vez que tenta se aproximar do referente/objeto (o fato noticiado), mas, quando é feita, produz efeitos de sentido entre os leitores/telespectadores, pois traz em si uma referência extra-textual. Segundo Felippi:
“O discurso jornalístico é discurso polifônico, várias vozes ‘falam’ através dele: as fontes, o emissor, o sujeito enunciado, o interlocutor. Mas busca apagar os muitos enunciadores que possui, congregando o apagamento das posições enunciativas dos ‘sujeitos-jornalistas’ e as posições enunciativas que se mostram (nas vozes dos articulistas, cronistas e chargistas ou no espaço editorial) resultando numa
unificação majoritária do conjunto das vozes que interfere no resultado textual final (MARIANI, 1998, apud FELIPPI, 1999: 09). A mídia funciona como elemento fundamental na representação e reprodução dos ‘consensos de significação’ resultantes das hegemonias políticas ou, ao contrário, pode participar de sua dissolução” (FELIPPI, 1999:09).
No discurso jornalístico, o sujeito-autor do texto não é o sujeito que fala no texto. Ele reproduz o discurso do outro e faz escolhas sobre que partes deste discurso irá relatar. Isso o transforma também em sujeito presente e ativo, uma vez que esta seleção é fundada em sua própria prática discursiva5. As condições citadas anteriormente no capítulo 2 como características do processo produtivo da notícia – classificação das interferências de ordem pessoal, social, ideológica, cultural e histórica; fases da formação do agenda-setting; critérios de noticiabilidade; e formas de credibilidade – constituem-se em elementos de uma determinada formação discursiva. Essa formação discursiva, que interdita e/ou favorece o que pode ser dito e como deve ser dito, é parte da formação ideológica do jornalista, sujeito-autor do texto jornalístico. Miquel Rodrigo Alsina (1989) afirma serem os jornalistas “construtores da realidade de seu entorno” (ALSINA, 1989: 15) [tradução nossa]. Para Felippi:
“Noticiar é tornar acontecimentos visíveis determinando um sentido e impedindo que sentidos indesejáveis circulem. O discurso jornalístico é uma modalidade de discurso sobre, falar sobre. Discursos sobre atuam na institucionalização de sentidos, causam efeito de linearidade e
5 Para Foucault (1971), prática discursiva é “um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma época dada, e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou lingüística, as condições de exercício da função enunciativa”. (FOUCAULT, 1971: 147).
homogeneidade da memória, representam lugares de autoridade em que se efetua algum tipo de transmissão de conhecimento, colocam o mundo como objeto e contribuem para a constituição do imaginário social e cristalização da memória do passado e construção da memória do futuro”. (FELIPPI, 1999: 07).
Todo discurso carrega em si a polissemia como característica, abrigando sentidos múltiplos. Mesmo funcionando como elemento fundamental na representação e reprodução dos “consensos de significação” (FELIPPI, 1999), produto das hegemonias políticas, o discurso jornalístico é polifônico constitutivamente. Isso porque, além da formação discursiva do autor do texto jornalístico, concorre para a polifonia textual uma regra básica do jornalismo: os vários lados da notícia têm que ser ouvidos. Teoricamente, a cada fato narrado, corresponde um conjunto de fontes que irão compor o texto e dar a sua versão. O conjunto de idéias circulantes nos vários discursos acaba por compor os temas que vão formar a pauta de notícias do jornal – ou seja, irá definir o agenda-setting do veículo.
Fica claro, deste modo, como a heterogeneidade é evidente no discurso jornalístico: polifônico, híbrido, com a presença das “vozes” da fonte – aquele que fornece a informação e cujo discurso é reproduzido no texto jornalístico, seja de forma marcada ou constitutiva – e do emissor – o jornalista que é autor do texto e camufla sua presença autoral, por trás de uma pretensa objetividade. Mas, apesar da estratégia de se fazer passar por um discurso imparcial, o discurso jornalístico deixa de marcar ou mesmo apaga as “vozes” de alguns enunciadores e do próprio autor do texto, apagamento que resulta numa ilusão de linearidade. Como conseqüência, parece fazer, muitas vezes, prevalecer a voz do discurso dominante na sociedade como sendo o discurso de consenso. O discurso jornalístico tenta se passar por algo acabado e completo. Para
Rodrigues (2002), “o uso predominante da terceira pessoa garante ao discurso midiático, como aliás também aos discursos histórico e científico, uma estratégia de universalidade referencial dos enunciados, uma credibilidade da narração dos fatos independente do lugar de fala do enunciador” (RODRIGUES, A., 2002: 218).
É importante, assim, ter em mente que, para estudar discursos, é preciso conhecer o contexto e a história, verificar o material verbal e como a relação entre os elementos interfere na produção de sentido, uma vez que a relação entre significante e significado não é direta, natural, única ou eterna. Segundo Felippi, “é preciso entender o sentido como um efeito de uma enunciação, um ato de um sujeito histórico submetido às condições de produção, em que os interlocutores estão situados em lugares, ocupando posições”. (FELIPPI, 1999: 05). Estas marcas lingüísticas podem mostrar o posicionamento e a parcialidade, seja do meio, seja do repórter - como sujeito-autor da história que conta - assim como das representações sociais e do senso comum, por exemplo, sobre o indígena na imprensa, como iremos mostrar a seguir.