PARTE I – PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
1.2 O discurso jornalístico
Como vimos anteriormente, a AD de vertente francesa privilegiou, ao longo de seu desenvolvimento como disciplina, análises que frequentemente se originam em discursos políticos. Em relação ao discurso midiático, os primeiros estudos relacionados à AD francesa emergem nos anos 1970, a partir de estudos de filósofos e historiadores, influenciados, sobretudo, pelos trabalhos de Althusser, para quem a mídia corresponde a um aparelho ideológico de Estado. Nesse período, o discurso midiático não constituía um objeto de análise em si, mas já alimentava corpora diversos para análises lexicológicas, sintáticas e de estruturas significantes (RINGOOT, 2014).
A partir dos anos 1980, com o desenvolvimento das Ciências da Informação e da Comunicação, esse cenário se modifica e a mídia passa a ser considerada como objeto de análise. “A análise do discurso participa ativamente desse momento, interessando-se em novas categorias institucionais de ensino e de pesquisa" (RINGOOT, 2014, p. 16, tradução nossa)9. Nos anos 1990, emerge a categoria ‘discurso jornalístico’, ao mesmo tempo em que se desenvolve a sociologia do discurso10. O interesse estava voltado para a dimensão profissional do discurso (discurso profissional), restrito ao âmbito dos produtos jornalísticos (discurso dos jornais) (RINGOOT, 2014).
Atualmente, o discurso jornalístico tem sido objeto de grande parte de trabalhos em Ciências da Comunicação, da Sociologia, da Psicologia, da História, dentre outros. Essas áreas se utilizam muitas vezes da AD como ferramenta para suas análises, contribuindo assim para que o termo “discurso” tenha sentidos variados.
9 “L’analyse de discours y participe activement, en s’insérant dans de nouveaux cadres
institutionnels d’enseignement et de recherche”.
10 A Análise Sociológica do Discurso (ASD), de origem espanhola, agrupa estudos que
aproximam a análise do discurso à realidade organizacional. A ASD também é conhecida como Interpretação Social do Discurso e como Perspectiva Social-Hermenêutica.
Reduzida ao estatuto de ferramenta em um caso, confrontada às dificuldades da interdisciplinaridade de outro, a análise do discurso se esforça para afirmar sua capacidade de perceber a dimensão simbólica da comunicação midiática (UTARD, 2001, p. 161, tradução nossa)11.
Em suma, o arcabouço conceitual para um estudo discursivo que privilegie como materiais de análise os debates e as notícias, que são produtos da mídia e da prática jornalística, deve ser eminentemente interdisciplinar, reunindo domínios como os da teoria da comunicação, da teoria do jornalismo e da linguística. No percurso que realizamos, em torno dos pressupostos da AD, é possível observar que entre essas disciplinas se articulam conceitos que se complementam, o que justifica as categorias de análise levantadas por nós na parte dois desta pesquisa.
Sobre a especificidade da prática jornalística, nós a reconhecemos por agrupar “[...] um conjunto de 'textos' que pressupõe a existência de coerções linguageiras e lógicas sociais que determinam sua produção” (UTARD, 2001, p. 163, tradução nossa)12, ou seja, como discurso jornalístico. Exemplo disso corresponde à prática de relatar acontecimentos recentes em nossa sociedade, selecionado aqueles que têm maior impacto para um maior número de pessoas e que atendam a critérios como singularidade, relevância, atualidade, verificabilidade, dentre outros cuja prática jornalística apregoa.
A partir do princípio de que “[...] as mídias não transmitem o que ocorre na realidade social, elas impõem o que constroem do espaço público” (CHARAUDEAU, 2012, p. 19), o discurso jornalístico encontra no gênero debate político-televisivo todas essas exigências listadas anteriormente, que
11 “Réduit à l’état d’outil dans un cas, confrontée aux difficultés de l’interdisciplinarité dans
l’autre, l’analyse de discours a du mal à faire valoir sa capacité à rendre compte de la dimension symbolique de la communication médiatique”.
12 “[...] un ensemble de ‘textes’ dont l’existence présuppose des contraintes langagières et des
compõem o thesaurus da prática jornalística, sobretudo àquelas que se referem ao grau de importância e ao número de pessoas envolvidas, que parecem ser o grande interesse dos veículos de comunicação.
O campo jornalístico impõe sobre os diferentes campos de produção cultural um conjunto de efeitos que são ligados, na sua forma e na sua eficácia, à estrutura própria desse campo, ou seja, à distribuição dos diferentes jornais e jornalistas segundo sua autonomia em relação às forças externas, aquelas do mercado de leitores e aquelas do mercado de anunciantes (BOURDIEU, 2008, p. 81, tradução nossa)13.
A relação desses mercados interfere de forma significativa na produção jornalística, como veremos no próximo tópico. Como espaço de um campo maior, o jornalismo nos permite analisar as práticas dos jornais, assim como seu funcionamento discursivo, a partir de sua produção genérica, como fenômeno discursivo e como espaço constitutivamente heterogêneo. Em nossa pesquisa, trabalhamos a partir de um corpus que compreende especificamente a produção da notícia, o que nos permite observar a enunciação jornalística a partir de uma identidade editorial, de um ethos que condiciona e delimita suas produções.
Cada jornal possui uma identidade própria, um modo de fazer o jornal, um modo de produzir a notícia, ou seja, práticas que podem ser reagrupadas em torno de uma marca. Compreender o funcionamento dos jornais, considerado por nós como heterogêneas maquinarias midiáticas, será nosso objetivo no próximo tópico.
13 “Le champ journalistique fait peser sur les différents champs de production culturelle un
ensemble d'effets qui sont liés, dans leur forme et leur efficacité, à sa structure propre, c'est-à- dire à la distribution des différents journaux et journalistes selon leur autonomie par rapport aux forces externes, celles du marché des lecteurs et celles du marché des annonceurs”.