1 O CINZEL E O PINCEL: SOBRE AS LINGUAGENS DO
1.2 Groensteen e a Artrologia
1.2.2 O dispositivo espaçotópico e as artrologias
A trama de uma HQ acontece em um “espaço do qual a história se apropria e se desenvolve” (GROENSTEEN, 2015, p.20), e esse espaço é o dispositivo espaçotópico. A espaçotopia é, por sua vez, um “termo criado por reunir, mesmo mantendo separados, os conceitos de espaço e de localização” (idem, p.20), ou seja, é um termo que delimita a importância do tamanho dos elementos em uma página assim como sua localização nesse espaço.
Vale pontuar que, na tradução de O Sistema dos Quadrinhos (2015), usa-se também o termo “prancha” para denominar uma página, mais diretamente ligado ao termo em francês usado por Groensteen, planche. Utilizaremos nesse trabalho os termos “página” e “prancha” como sinônimos. A denominação da página como um dos elementos constitutivos de uma HQ tem grande influência na teoria do autor belga, principalmente no que se refere aos conceitos de hiperrequadro e multirrequadro.
Por hiperrequadro entende-se a união homogênea de um determinado número de quadros em um espaço contido e visível para o leitor no momento em que ele tem acesso ao quadrinho. Ou seja, o termo “se aplica a uma única unidade, que é a da prancha” e “ele está para a prancha assim como esse requadro está para o quadro” (GROENSTEEN, 2015, p. 42). Horizontal, vertical ou mesmo quadrada, a página de quadrinhos é o espaço em que o hiperrequadro é, de certa forma, “depositado” pelo artista.
O multirrequadro, por sua vez, “corresponde à soma dos requadros que compõem uma história em quadrinhos finalizada” e “suas fronteiras são aquelas da obra como um todo, sendo esta uma tirinha isolada ou uma história de 200 páginas” (GROENSTEEN, 2015, p.42). O multirrequadro é a soma dos hiperrequadros, é a totalidade da obra sem necessariamente um
35 formato específico, a composição completa da trama, dos seus espaços e dos seus tempos. Com esses dois conceitos, o autor belga propõe que não somente o quadro tem relevância espaçotópica, ou seja, exerce influência na página em que se encontra como também na trama como um todo, e vice-versa.
É importante que tenhamos sempre em mente essas tensões presentes na linguagem quadrinística entre dentro e fora, todo e parte, tempo e espaço, e entre outros diversos binômios. O próprio título do artigo escrito por Charles Hatfield para o livro A Comics Studies Reader (2009, p. 132-148) dá uma dimensão dessa característica da linguagem: An Art of Tensions. É dessas tensões que a arte dos quadrinhos tira sua potência, e assim como o narrador da literatura, o artrólogo dos quadrinhos é o gerente dessas tensões que se estendem por quadros, tiras, páginas e publicações inteiras.
Groensteen distingue duas formas de artrologia, a restrita e a geral. Sobre a artrologia restrita, o autor afirma:
As relações elementares, de tipo linear, fazem parte do que nomearemos artrologia
restrita. Regidas pela operação de decupagem, elas implementam sintagmas
sequenciais, normalmente subordinados aos fins narrativos. É nesse nível que a escrita tem prioridade como operador complementar de narração. (GROENSTEEN, 2015, p.32, grifos no original)
Como afirma Kidder, na artrologia restrita, “a sequência de quadros é linear mas bidimensional”25 (2009, p.17), podendo ir para trás ou para frente. O termo “restrito” aqui se
refere a uma encapsulação do foco da artrologia no momento em que cada quadro representa na trama narrada. Ou seja, a compreensão da história é restrita a essa passagem, quadro a quadro, do começo de uma história em direção ao seu fim, linearmente. Diante da artrologia restrita, o quadro se restringe a ser um depois de um quadro e o antes de outro.
(...) podemos dizer que uma imagem singular funciona tanto como um ponto em uma linha do tempo imaginária – um momento autônomo substituindo o momento anterior a esse, e antecedendo o momento a vir – e um elemento do design global da página. Em outras palavras, existe uma tensão entre o conceito de decupar uma história em imagens constitutivas e o conceito de leiautar essas imagens juntas em uma superfície concisa26. (HATFIELD, 2009, p.140)
A artrologia restrita, essa que organiza os elementos de uma história em um vetor
25 “(...)panel sequence is linear but bidirectional”. (tradução nossa)
26 “(...) we can say that the single image functions as both a point on an imagined timeline – a self-contained
moment substituting for the moment before it, and antecipating the moment to come – and an element of global page design. In other words, there is a tension between the concept of 'breaking down' a story into constituent images and the concept of laying out those images together on an unbroken surface”. (tradução nossa)
36 passado-presente-futuro, é profundamente vinculada à própria ideia de narrativa. Groensteen aponta que a “qualidade definidora de uma narrativa (…) é que ela necessariamente inclui um começo e um fim, ou, colocando de outra maneira, um elemento de desenvolvimento da ação, de evolução de uma situação inicial, de um estágio A para um estágio B”27 (2013, p.23). Daí,
podemos perceber que narrar é, entre outras coisas, decupar momentos.
O uso do termo “histórias em quadrinhos”, no entanto, pode nos remeter a pensar que todo quadrinho necessariamente narra uma história, mas isso não é verdade. Uma HQ, tal qual qualquer outro suporte que pode ter caráter narrativo, também pode ser usado expressivamente para experimentações estéticas para além do narrar. É possível, por exemplo, colocar lado a lado imagens que não necessariamente contem uma história, como nos casos dos quadrinhos dissertativos e argumentativos (Figura 3), ou nos abstratos (Figura 4), esse últimos apontados por Groensteen em seu livro Comics and Narration. Como aponta o pesquisador, HQs abstratas “libertam-se da arte narrativa, das relações sequenciais e da produção de sentido”28 (GROENSTEEN, 2013, p. 10). Groensteen completa que, nesses casos, as imagens
formam uma serialização mais do que uma sequência (idem, p.12).
Se a decupagem governa a artrologia restrita, é o leiaute que governa a artrologia geral. Layout (o termo original em inglês29) é bastante utilizado no campo do design, e nos quadrinhos se refere à composição da página como artefato visual dotado de significação. A artrologia geral “é não-linear e os quadros são potencialmente separados por grandes espaços”30
(KIDDER, 2009, p.17). É a artrologia geral que faz que, no fim das contas, o primeiro quadro de uma HQ não somente tenha ligação com o quadro seguinte, como também se ligue e tenha influência sobre o último quadro da história e com todos os presentes entre esses dois pontos. Groensteen afirma:
As outras relações, translineares ou distantes, emergem da artrologia geral e englobam todas as modalidades de entrelaçamento (tressage). Elas representam um nível mais elaborado de integração entre o fluxo narrativo (que também pode ser chamado de energia narrativa ou, novamente, para adotar uma expressão de Hubert Damisch, “transporte da narrativa” [navette du récit]) e o dispositivo espaçotópico,
27 “The defining quality of a narrative (…) is that it necessarily includes a beginning and an end, or, to put it
another way, an element of development of the action, of evolution of the initial situation, from state A to state B”. (tradução nossa)
28 “(...) they jettison narrative art, sequential relationships, and the production of meaning”. (tradução nossa) 29 Optamos pelo termo aportuguesado “leiaute” em detrimento do inglês “layout” para que possamos, sem
grandes perdas para a compreensão do conceito, estender essa tática para outras palavras, como, por exemplo, “leiautar”, “leiautado”, etc.
37 no qual o componente essencial, como Henri Van Lier nomeou, é o “multirrequadro” (multicadre).31 (GROENSTEEN, 2007, p.30, grifos no original)32
Figura 3: Página de Autocracia, de Woodrow Phoenix, uma obra dissertativa que se posiciona contra a supervalorização dos veículos automotores na sociedade.
Fonte: PHOENIX, 2015, p.27.
31 “The other relations, translinear or distant, emerge from general arthrology and decline all of the modalities of
braiding (tressage). They represent a more elaborated level of integration between the narrative flux (which can also be called the narrative energy or, again, to adopt an expression from Hubert Damisch, the “story shuttle” [navette du récit]) and the spatio-topical operation, in which the essential component, as Henri Van Lier has named it, is the “multiframe” (multicadre).” (tradução nossa)
32 Optamos, especificamente nessa citação, em trazer o trecho da versão em inglês de The System of Comics, por
acreditar que ela traz informações que foram perdidas na tradução para o português, principalmente ao não citar os termos em francês. Na edição nacional da publicação, o trecho foi traduzido assim: “As outras relações, translineares ou distanciadas, pertencem à artrologia geral e compõem as modalidades do entrelaçamento. Elas representam um nível mais elaborado de integração entre o fluxo narrativo (que podemos chamar de energia narrativa, ou, recorrendo à expressão de Hubert Damisch, de 'lançadeira narrativa') e o dispositivo espaçotópico, cuja essência, nomeada por Henri Van Lier, é o 'multirrequadro'” (GROENSTEEN, 2015, p.32, grifos do próprio autor)
38 Um quadro dentro de uma história em quadrinhos tem não somente importância pro fluxo narrativo que vai de um ponto A a um ponto B, mas exerce influência e é influenciado por todos os outros quadros que compõem a HQ, tanto na página quando na obra completa. A teoria de Groensteen nos faz expandir nossa visão sobre uma história em quadrinhos, abordando-a não somente como uma narrativa linear, mas também como um complexo justaposto de elementos que exercem entre si força e que tiram daí seu potencial significativo.
Figura 4: HQ abstrata da série Quadradinhas, de Lucas Gehre, lançada na página de Facebook LTG.
Fonte: GEHRE, 201833.
Uma vez que uma fotografia se insere nesse entrelaçamento complexo de forças, diversas são as mudanças que podem ser causadas e sentidas, tanto na artrologia geral quanto na restrita. Ao propormos a importância dos conceitos supracitados para a presente pesquisa (quadro, requadro, dispositivo espaçotópico, artrologia, etc.) estamos definindo uma chave de percepção do potencial do nosso corpus, além de focar na possibilidade de criarmos um instrumento de análise para quadrinhos que possuem fotografias em seu interior, ou, podemos
33 Outros trabalhos de Lucas Gehre, muitos deles experimentais e não-narrativos, podem ser encontrados na
página de Facebook do artista, LTG. Disponível em https://www.facebook.com/lucas.gehre.ltg/. Acesso em 10/01/2018.
39 afirmar isso sem medo, para fotografias que possuem quadrinhos ao seu redor34.
Compreendemos que ambas as linguagens de que tratamos aqui possuem diferenças e semelhanças. Muitos dos elementos articulados pelas histórias em quadrinhos advêm de outras linguagens, assim como estamos cientes de que a linguagem quadrinística em si influencia outros tantos artistas que trabalham com tantas matrizes. Fato é que para entendermos a dinâmica entre quadrinhos e fotografia, precisamos entender as similaridades e diferenças de cada uma dessas linguagens, e para isso a obra de Daniele Barbieri é de grande relevância.