CAPÍTULO 2: O DISPOSITIVO: do conceito e das apropriações
2.2. O dispositivo, o poder e a formação do sujeito.
e de enunciação, que são, respectivamente, máquinas de ―fazer ver‖ e de ―fazer falar‖. A visibilidade não supõe um objeto pré-existentes iluminado por um feixe de luz, mas ao contrário, a existência desse objeto condicionada justamente a essa luz. Da mesma forma, os enunciados não verbalizam verdades pré-existentes, mas as produzem; dito de outra forma, os enunciados produzem regimes que dão origem a campos diversos de práticas discursivas. As curvas de visibilidade e de enunciação são sustentadas pelas linhas de força, que atravessam todos os dispositivos, mas nunca de forma homogênea. Essas, por sua vez, podem ser fraturadas pelas ―linhas de fuga‖, produzidas pelas ―linhas de subjetivação‖, que são segundo Deleuze (1999) a dimensão do ―si próprio‖.
Deleuze (1999) ainda elabora uma analogia do dispositivo em relação à história. Compreende que a história é aquilo de que já nos desfizemos, aquilo que já não somos mais, e por isso é o arquivo. Por outro lado, o atual não é o que somos, mas aquilo que estamos nos tornando, é o devir e o dispositivo é o que constrói esse devir. Essa compreensão coloca para o dispositivo uma noção sempre itinerante e inacabada.
Deleuze (1999) procura ilustrar essas características do dispositivo a partir da projeção de diferentes imagens, que ao serem indicadas nos trazem uma noção maior da sua interpretação. Assim faz, por exemplo, em relação às Linhas de força. Funcionam como flechas, caracteriza o autor, que mudam de direção de acordo com os movimentos feitos pelo poder e pelo saber concomitantemente. São as linhas de força que sustentam os campos de visibilidade e os regimes de enunciabilidade.
2.2. O dispositivo, o poder e a formação do sujeito.
Foucault afirma em ―Por que estudar o poder: a questão do sujeito‖ (1995) que seu propósito, ao longo de duas décadas de investigação, foi compreender o modo pelo qual os seres humanos se tornam sujeitos, ou, dito de outra forma, Foucault procurou compreender os ―modos de objetivação‖ que tornam os seres humanos sujeitos. Sua investigação se baseou em pelo menos três modos: o primeiro deles trata-se da objetivação feita em diferentes
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investigações que procuraram acender ao estatuto da ciência, que pode ser, por exemplo, por meio do sujeito da linguagem ou, do sujeito produtivo na economia e nas trocas de bens, ou ainda na biologia, na história natural. O segundo modo de objetivação do sujeito ocorre por meio de diferentes práticas, das quais Foucault chama de ―divisórias‖ e estas, por sua vez, são as que fazem do sujeito um objeto que pode ser dividido, por exemplo, entre o louco e o são, o criminoso e o bem comportado, o normal e o anormal. Por fim, um último modo de objetivação estudado por Foucault ocorre por meio da sexualidade, a partir da qual os indivíduos se reconhecem enquanto sujeitos de uma sexualidade (FOUCAULT, 1995, p. 231).
A questão posta por Foucault é que, se os indivíduos são ―apanhados‖ pelas relações de produção, como explica a economia e a história, e pelas relações de sentido, como explica a linguística e a semiótica, ―(...) ele é igualmente apanhado nas relações de poder de uma grande complexidade‖. Entretanto, segundo sua concepção, não havia naquele momento uma teoria do poder que pudesse ir além dos limites analíticos do campo jurídico e institucional, que pudesse ir além da dimensão do poder negativo e opressor, bastante recorrente neste período, de modo que era necessário ―(...) alargar as dimensões de uma definição de poder se quiséssemos utilizar esta definição para estudar a objetivação do sujeito‖ (FOUCAULT, 1995, p. 233). Deste modo, o tema do poder surge, para Foucault, no âmbito da investigação dos modos de objetivação dos sujeitos, isto é, aos processos de subjetivação.
Foucault propõe uma ―Nova economia‖ das relações de poder, e esse novo modo de investigação do poder tem como ponto de partida, como sugere o autor, a investigação das formas de resistência. Estas, por sua vez, são compreendidas como ―catalisadores químicos‖ (idem, p. 234) que permitem visualizar as relações de poder, onde estas se inscrevem, onde se aplicam e quais métodos utilizam. Segundo Foucault ―(...) trata-se de analisar as relações de poder através do antagonismo das estratégias‖ (idem, p. 234).
Os exemplos dados são os antagonismos históricos que podem ser observados entre homens e mulheres, entre pais e filhos, entre a psiquiatria e os doentes mentais, entre a medicina e a população, entre outros, afrontamento estes que permitem visualizar diferentes lutas contra o autoritarismo. Foucault (1995) observa que estas lutas têm em comum: 1. O
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fato de não serem lutas localizadas e sim transversais; 2. A evidência em relação ao tipo de efeito produzido pelo poder, um efeito sobre os corpos, sobre o controle dos corpos; 3. Estas lutas evidenciam as formas de poder que estão mais próximas e não pensam numa libertação futura por meio de uma revolução, ou do fim da luta de classes, por exemplo; 4. Estas lutas problematizam o estatuto do indivíduo, de um lado, afirmando o direito à diferença e de outro, combatendo tudo o que possa isolar o individuo à sua própria identidade, isto é são lutas que se opõem ao ―governo pela individualização‖ (idem, p. 235); 5. Opõem-se aos privilégios do saber e ao mesmo tempo, às deformações, aos mistérios e às representações místicas que se impõem as pessoas; 6. ―Finalmente, todas as lutas atuais contemporâneas giram em torno de uma mesma questão: quem somos nós? Elas são uma recusa destas abstrações, uma recusa da violência do Estado econômico e ideológico que ignora que nós somos indivíduos, e também uma recusa da inquisição científica e administrativa que determina nossa identidade‖ (idem, p. 235).
O principal objetivo dessas lutas observa Foucault (1995) não é o de atacar uma ou outra instituição de poder, ou grupo, ou classe ou elite, mas sim se opor a uma técnica particular de poder que se exerce sobre a vida cotidiana. Em outras palavras, são lutas que se opõem ao poder que classifica os indivíduos em categorias, que os aprisiona a uma identidade e que lhes impõem uma verdade. Dito de outra forma são lutas contra a forma de poder que transforma os indivíduos em sujeitos. Sobre a noção deste conceito Foucault compreende que:
Há dois significados para a palavra sujeito: sujeito a alguém pelo controle e dependência e preso à sua própria identidade por uma consciência ou autoconhecimento. Ambas sugerem uma forma de poder que subjuga e toma sujeito a13. (FOUCAULT, 1995, p.
235).
Para Foucault existem 3 tipos de lutas, que podem ser resumidas em:
13 Foucault está inserindo aqui a noção de que o indivíduo não é soberano e que ele sempre
estará sujeito a alguma forma de poder, que irá constituí-lo; trata-se de pensar o sujeito sempre como inserido em seu tempo, nos dispositivos de seu tempo.
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1. As lutas contra as formas de dominação (sociais, étnicas, religiosas), mais presentes nas sociedades feudais;
2. As lutas contra as formas de exploração que separam o indivíduo daquilo que ele produz, mais presentes no século XIX;
3. As lutas contra a sujeição, contra as diversas formas de ―submissão da subjetividade‖ (1995, p. 236), mais presentes no século XX.
As lutas contra a submissão da subjetividade tendem a prevalecer porque, desde o século XVI as sociedades viram desenvolver uma nova forma de organização política que se objetivou por meio do Estado. Foucault afirma que em geral se compreende o Estado como poder totalizante, que se preocupa mais com os interesses da comunidade do que dos indivíduos, entretanto, apesar desse processo também ocorrer, ocorre ainda outro, que é o desenvolvimento de técnicas de individualização combinadas com procedimentos totalizantes. Isto se deve ao fato do Estado Ocidental desde o século XVI ter aderido a uma forma de poder que só se via nas instituições cristãs, o poder pastoral. As principais características dessa forma de poder são: assegurar a salvação individual no mundo; estar preparado para sacrificar- se em nome da vida e do rebanho; cuidar da comunidade e do indivíduo, durante toda a sua vida; não poder ser explorado sem o conhecimento da mente das pessoas, dos seus pensamentos, dos seus segredos mais íntimos.
Em síntese, Foucault está falando de um poder que não necessariamente age de forma centralizada e por meio da repressão, mas, como reitera Veyne (2005, p. 101), que tem a capacidade de conduzir a vida dos indivíduos:
(...) sem lhes pôr com a mão, os pés e as pernas, na posição adequada. É a coisa mais cotidiana e a mais bem partilhada; há poder na família, entre dois amantes, no escritório, no atelier e nas ruas de sentido único. Milhões de pequenos poderes formam a trama da sociedade da qual os indivíduos constituem o liço14.
14 Os Liços são os fios que amarrados e emaranhados formam um tear. Os liços ficam presos
aos liçaróis, que são a parte fixa de madeira ou metal, na qual os fios se enrolam, para desenhar os liços do tear.
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Esses ―milhões de micro poderes‖ a que Veyne (2009) se refere são instaurados por meio dos dispositivos. Por isso a noção de que o dispositivo é o que constitui o sujeito (VEYNE, 2009). Ou ainda, a de que o sujeito é a relação que se estabelece entre os ―seres viventes‖ e os dispositivos (AGAMBEN, 2005).
A noção de subjetivação, também usada por Foucault (1995) para falar da constituição do sujeito, reitera sua oposição ao sujeito soberano. Assim Veyne (2009, p. 110) destaca que: ―a subjetivação segundo Foucault ocupa a mesma localização na sociedade que, em Bourdieu, a noção de hábitus – esse par de conversões entre o social e o individual - ou que a noção sociológica de papel (...)‖ 15. De qualquer forma o que está em pauta é que não existe um
sujeito alheio aos regimes de verdade e práticas, não existe um sujeito fora da cultura, não existe um sujeito alheio aos dispositivos de seu tempo. O sujeito é sempre constituído, é sempre o indivíduo no contexto da socialização (VEYNE, 2009, p. 110).
2.3. O dispositivo da infância: alguns elementos para seguir