GRAFICO 1 – Quantidade de tags por idioma no Delicious
5.2 O DOCUMENTO DIGITAL
Frequentemente no meio científico ocorre que objetos e processos de mesma natureza podem receber denominações distintas devido a uma série de fatores, como o contexto no qual estão inseridos, a época em que foram conceituados e a função daquele objeto ou processo para determinada ciência. Na área de biblioteconomia e ciência da informação, isto se revela algo comum, por exemplo, muitas vezes quando falamos em “metadados” ou “pontos de acesso de um catálogo”, estamos nos referindo aos mesmos objetos em contextos diferentes. Outro exemplo é o conceito de “classificação”, tratado como uma disciplina científica, como uma tarefa presente no tratamento da informação, como um instrumento de representação etc.
Esta é uma situação que também perpassa o significado de documento para cada ciência – e até na mesma ciência, como no caso da ciência da informação – existindo uma série de denominações que se relacionam com o conceito documento, tais como informações, dados,
recursos, arquivo, material escrito, texto, imagem, folha, página (PÉDAUQUE, 2003), ou seja, tudo quanto se possa revelar portador de significado.
Historicamente, o conceito de documento apropriado pela ciência da informação remonta a um momento anterior ao nascimento desta área do conhecimento, sendo fundamentado no contexto da ciência da documentação (ORTEGA; LARA, 2009). Para efeitos desta explanação, baseia-se na definição de documento formulada pelas autoras supracitadas. Segundo Ortega e Lara (2009), o documento, na perspectiva da ciência da informação, é concebido simultaneamente como instância (i)material e informativa, que, sob ações e condições propícias e contextualizadas, otimiza a circulação social do conhecimento. Esta premissa também é válida para documentos em suporte ou contexto digital, mas deve-se ter em mente os aspectos singulares que permeiam sua natureza.
Analisando o documento digital e sua virtualização através da Internet, Barreto (2009, online) classifica em dois tipos os artefatos de informação (documentos):
Artefatos de informação fechados – são objetos de informação que se encontram explicitamente formatados e finalizados, por razões das características de suas estruturas ou por uma necessidade de integridade do seu formato. Por exemplo, livros, artigos de periódicos impressos, pinturas, películas etc.
Artefatos de informação abertos – são objetos de informação que estão com os enunciados em construção ou, apesar de acabados, podem ter seu conteúdo modificado devido a um diálogo entre o gerador e o documento ou pela participação permitida de outros usuários e rede. Por exemplo, páginas da Web, blogs, wikis, documentos compartilhados em rede etc.
Barreto (2009, online) reconhece que “a criação em documento aberto está menos no espaço físico e mais nos sistema dominado por várias tecnologias de transferência do saber”.
O documento digital vem exigindo muita reflexão por parte daqueles que têm este objeto no centro de seus estudos, na tentativa de avaliar e delinear as mudanças que este formato introduz nos contextos informacionais. Segundo o coletivo Pédauque (2003, p. 2), “a mais óbvia manifestação de mudança seria a perda de estabilidade do documento como um objeto
material e sua transformação em um processo construído em uma aplicação, que pode interferir na legitimidade depositada no mesmo31”.
Duas características importantes para delinear a natureza do documento digital são a flexibilidade e simulação (TAMMARO; SALARELLI, 2008). Quanto à flexibilidade, os documentos digitais, na condição de representação numérica, são imateriais. Isso quer dizer que uma vez digitalizados ou já criados em formato digital os diversos tipos de documentos – texto, imagem, som – se transformam em dados binários e podem ser acessados, tratados e organizados em um mesmo ambiente e com mesmas ferramentas.
A outra característica, a simulação, diz respeito à forma de manipulação e uso que podemos ter com o documento digital que certamente não ocorreria no documento físico.
A possibilidade de ser formalmente manipulado, de ser desmontado e remontado em mil combinações diferentes sem jamais perder a possibilidade de manter intacto o original. O valor heurístico do processo de digitalização consiste na possibilidade de propor, de supor diferentes configurações do próprio documento: a capacidade de simular possíveis cenários. (TAMMARO; SALARELLI, 2008, p. 13)
Levando estas constatações à dimensão do ciberespaço, pode-se inferir que as possibilidades do que é um documento digital se tornam ainda mais abrangentes. Lévy (1999, p. 159) faz reflexões a respeito do documento em forma de hipertexto, elemento constituinte da Web. O autor faz a comparação entre uma página de papel e uma página da Web. Enquanto a primeira página é “um campo demarcado, apropriado, semeado com signos enraizados”, a segunda é dinâmica, “uma unidade de fluxo”, fazendo conexão com outras páginas dispersas em toda a Rede.
As características inerentes ao hipertexto – sobretudo as possibilidades de enlaces, cruzamentos e bifurcações entre as páginas – torna-o um agente estruturador propiciando a construção de unidades portadoras de significado únicas para cada sujeito, isto é, um ponto de vista original (LÉVY, 1999). Nesse sentido, recorrendo-se à fala de Barreto (2007),
A estrutura do documento pode estar em diversas linguagens, combinando texto, imagem e som. O documento não está mais preso a uma estrutura linear da informação. Cada receptor interage com o texto com a intencionalidade de uma percepção orientada por sua decisão individual. (BARRETO, 2007, p. 27).
31
“The most obvious manifestation of this change is therefore the loss of stability of the document as a material object and its transformation in to a process constructed on request, which can undermine the trust placed in it.”
Em outras palavras, cada usuário da Web percorre um diferente caminho na busca por informações, logo, cada um acaba por construir sua própria instância informativa.
Desta forma, apenas um trecho de um e-book, somente uma parte da fotografia ou até mesmo a combinação entre o texto e imagem de origens distintas poderiam ser definidos como documento digital e ser passíveis de tratamento. Assim, reportando-se a Alvarenga (2003), a desmaterialização do documento possibilita uma organização e tratamento da informação espacialmente integrada de textos, imagens, sons e índices de acesso correspondentes, acessíveis também em forma hipertextual, possibilitando combinações entre assuntos, conceitos e categorias.