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É tempo de meio silêncio, de boca gelada e murmúrio, palavra indireta, aviso na esquina.

Tempo de cinco sentidos num só. O espião janta conosco.

Carlos Drummond de Andrade

Não poucas vezes, nas palavras pronunciadas pelos depoentes e nas costuras das tramas das histórias, nos deparamos com um sentimento avassalador, presente de modo sorrateiro e intenso: o ressentimento. Quais as causas de seu surgimento? Como ele se manifesta? Que conseqüência traz? Antes de abarcar estas questões, vamos nos ater a uma primeira indagação, primordial à compreensão da discussão a ser feita: o que significa “ressentimento”?

No campo semântico, o termo “ressentir” significa sentir de novo, magoar-se muito com, sentir profundamente. A palavra “ressentimento”, nos dicionários, é comumente relacionada ao sujeito que está magoado, aquele que se melindra com facilidade ou que sofreu os efeitos de abalo, dano ou moléstia. O vocábulo tem correlato em outros idiomas. Em espanhol é remordimiento que é definido como a amarga e arraigada lembrança de uma injúria, da qual se pretende tirar satisfações. Em francês, ressentiment, traz em sua etimologia a repetição de uma vivência, cuja qualidade da emoção é hostil.

Numa análise superficial, ressentimento estaria relacionado a lembranças não agradáveis, mágoas, provocadas por alguém ou por fatos ocorridos no passado. Todavia, definir ressentimento em toda a sua extensão e profundidade não é tarefa simples, porque “ressentimento é uma noção complexa e bastante difícil de precisar”, considera Konstan (2001, p. 61).

Um dos primeiros a se debruçar sobre a questão do ressentimento foi Nietzsche, filósofo alemão (1844 – 1900), em sua obra Genealogia da Moral.

Nietzsche situou o surgimento do ressentimento como o resultado de um conflito, de uma ação conduzida pela religião judaico-cristã contra os guerreiros aristocratas. Estes últimos possuíam o privilégio de poder exprimir livremente suas idéias e desejos satisfazendo

as suas vontades, exercendo a sua dominação. Teria havido, então, uma inversão de valores, por ele explicada com o que chamou de moral dos senhores e moral dos escravos.

A moral dos “senhores”, ou “nobres”, ou “poderosos”, ou “donos do poder” teria como princípio o sentimento de distância e superioridade para introduzir avaliações. O homem nobre e sua moral, do alto de sua superioridade, criam valores acerca de si e da vida: “O homem de espécie nobre se sente como determinante de valor, não tem necessidade de ser declarado bom, julga: ‘o que é pernicioso para mim é pernicioso em si’, sabe-se o único que empresta honra às coisas, é criador de valores” (NIETZSCHE apud AZEREDO, 2000, p. 65). Ele tem a coragem de estabelecer valores e de exercer o poder, porque acredita em sua força. Por isso, vê o escravo como um desprezível, devido a sua fraqueza e incapacidade de ascender ao senhor.

Por sua vez, a moral dos escravos tem como base a fraqueza e a igualdade. O escravo olha desconfiado para o nobre e vê de forma depreciativa o poder que dele emana. Uma espécie de rancor transparece no escravo. Ele sabe que é fraco e opta em não enfrentar o nobre que é potente e tão diferente dele. O que faz, então? O tipo escravo passa a considerar imorais todas as manifestações de potência, de força, e começa a incentivar e a estimular a igualdade, a defender uma moral de “rebanho”, que tem por principal característica, a defesa da coletividade. Na moral de rebanho, bom é o que favorece a coletividade e mau é aquilo que a ameaça.

Segundo Nietzsche, foi o povo judeu que mais danos causou à moral dos senhores. A sociedade era estruturada: no topo, os que dominavam; nas camadas mais baixas, os dominados e, para administrar esta relação hierárquica entre senhores e escravos, os sacerdotes. Para Nietzsche, serão os sacerdotes judeus quem, em virtude de sua impotência, inverterão os valores ao propagar a vingança dos escravos contra os seus senhores - os maus, utilizando-se de uma artimanha ideológica, a adoção da caridade:

Se os oprimidos, pisoteados, ultrajados exortam uns aos outros, dizendo, com a vingativa astúcia da impotência: sejamos outra coisa que não os maus, sejamos

bons! E bom é todo aquele que não ultraja, que a ninguém fere, que não ataca, que não acerta contas, que remete a Deus a vingança, que se mantém na sombra como nós, que foge de toda maldade e exige pouco da vida, como nós, os pacientes, humildes, justos. (NIETZSCHE, 1998, p. 37, grifos do autor).

A moral dos escravos seria a moral do ressentimento para quem a verdadeira reação, a da ação, é proibida, e que só encontram compensação numa vingança imaginária. “Ele entende do silêncio, do não esquecimento, da espera, do momentâneo apequenamento e da

humilhação própria” (NIETZSCHE, 1998, p. 30). O homem do ressentimento acaba por desenvolver uma extraordinária memória onde guarda, esconde, cuida, rememora. Ele suporta a dor e a humilhação, abaixa o olhar, submete-se. Mas não esquece: espera pelo dia da vingança.

Baseado nesta teoria, Nietzsche apontava ser o cristianismo uma forma de ressentimento: seria a atitude do homem que é débil e acaba por aceitar a submissão, a debilidade ou a piedade; que aspira a uma espécie de aceitação dos fortes. Este homem acredita que no dia do juízo final haverá o julgamento dos “bons” e dos “maus” e, então, ocorrerá a recompensa: os “bons” entrarão no reino dos céus.

Com o transcorrer do tempo, outros estudos produziram acréscimos, novos significados e interpretações do conceito de “ressentimento”.

Konstan (2001) ao buscar o significado de “ressentimento” opta por enumerar três amplas conotações para o termo: psicológica, social e existencial. O sentido psicológico de ressentimento equivaleria à raiva ou à irritação perante uma desfeita. Todavia, uma breve explosão de raiva é fugaz e não poderia ser descrita como ressentimento que é, geralmente, um sentimento duradouro, cultivado e acalentado. O sentido social relaciona o ressentimento como uma resposta ao preconceito ou à discriminação que sofre um indivíduo pertencente a um grupo que, por algum motivo, encontra-se em posição injustamente subordinada a outro. O sentido existencial do termo é apreendido de Scheler:

[Ressentimento é] uma atitude mental duradoura, causada pela expressão sistemática de certas emoções e afetos que são componentes normais da natureza humana. A repressão dessas emoções leva a uma tendência constante de se permitir valores incorretos e juízos de valor correspondentes. As emoções e afetos primordialmente referidas são vingança, ódio, malícia, inveja, o impulso a diminuir e desprezar. (SCHELER apud KONSTAN, 2001, p. 62).

Nesta perspectiva, ao termo ressentimento se aliaria a idéia de raiva, preconceito, discriminação, repressão.

Ansart (2001, p. 18), ao se ater aos estudos do sociólogo Robert K. Merton sobre o ressentimento, destaca a definição dada por ele: “Um conjunto de sentimentos em que predomina o ódio, o desejo de vingança e, por outro lado, o sentimento, a experiência continuada da impotência, a experiência continuamente renovada da impotência rancorosa”. Mas, conclui o autor, esta definição é limitada diante dos conflitos e da violência ocorridos a partir da metade do século XX, que tiveram como um dos seus provocadores o ressentimento coletivo. É necessário falar de “ressentimentos”, no plural, e não de um ressentimento de

essência universal, pois há vários tipos de ressentimentos como o dos fracos (apontado por Nietzsche) e o dos fortes que experimentaram a derrota e desejam reencontrar a autoridade perdida e se vingar da humilhação vivida; das diferentes intensidades dos ressentidos; dos provocadores de ressentimentos; das conseqüências e manifestações do ressentimento.

Numa rápida síntese, podemos relacionar ressentimento a rancor100, ódio, desejo de vingança, inveja. Sentimentos estes considerados não muito nobres aos seres humanos, mas que estão latentes, entranhados, podendo romper as amarras que os prendem, fazendo-os emergir e dar-se a conhecer, de forma sorrateira ou explosiva.

Retomemos o parágrafo inicial deste texto. Falávamos da presença do ressentimento nas palavras dos depoentes, e também, nas tramas da história da educação em Blumenau. É provável não ser possível determinar o momento do nascimento do ressentimento entre os imigrantes e os governantes da então Província de Santa Catarina, ou entre os imigrantes e os brasileiros natos. O que se constata é que, após poucos anos da chegada à nova terra, os imigrantes alemães, ao ver suas reivindicações não atendidas pelos governantes, iniciaram um discurso de queixas e lamúrias. Estas ficaram registradas nas cartas escritas e nos artigos de jornais locais, em que apareciam manifestações de repúdio quanto ao não atendimento de suas solicitações de criação de escolas e de abertura de estradas, que ligassem a Colônia aos outros municípios. A pouca (ou nenhuma) atenção dada às suas reivindicações e necessidades contribuiu para o isolamento da Colônia, primeiro geográfica e, mais tarde, etnicamente.

Por sua vez, a imprensa nacional, pelos jornais, ajudava a disseminar a mentalidade de vários políticos e intelectuais brasileiros que eram contrários à política de imigração européia, principalmente alemã. Willems (1940) cita um artigo publicado, em 1860, num jornal carioca, e reproduzido em muitos outros, que revelava:

[...] os governos germânicos, compreendendo a vantagem que lhe oferecem os nossos colonizadores, em vez de oporem bem aventurados embaraços à imigração, facilitam-na por todos os modos, incitam-na, e que por efeito de suas medidas, aparece de novo agora na bela Germânia um movimento de êxodo, análogo ao que a quatorze séculos arrojou as suas bárbaras hordas sobre a Europa Ocidental. Demos que este movimento se faz para o Brasil, demos que se multiplicam em nossos portos navios e navios; dizei-nos: ao cabo de algumas dezenas de anos o que será deste nosso Brasil latino, católico, na presença desse outro Brasil germânico, protestante, em hábitos, em índole, em tudo completamente repulsivo, antagônico, ao Brasil ao que pertencemos, de que nos ufanamos? [...] Dizemos que a colonização européia não é desejável; - porque queremos o Brasil – Brasil para

100 Rancor: palavra originária do latim e que significa queixa, pendência, demanda. Constantemente, o termo

rancor é associado ao ressentimento, ou é até mesmo seu sinônimo como atesta Ferreira (1995): Rancor é uma aversão profunda ou ressentimento amargo, não raro reprimido, ocasionado por algum ato alheio que causa dano material ou moral.

todas as gerações de brasileiros, e não o Brasil, terra de lutas sangrentas das duas nações hostis. [...] E agora, haverá justiça nesses favores, que a custa do contribuinte brasileiro, fazeis ao estrangeiro, que aqui queria vir estabelecer-se? Sois generosos, pagai-lhes as passagens; dai-lhes alimentos; dai-lhes terras [...] a custa de quem? Essas despesas saem do tesouro, isto é; saem da algibeira de todos nós, do pobre como do rico; ora, não tendes direito de esportular o pobre brasileiro, para socorrer a custa dele, o pobre que ides buscar na Europa. Basta esse vosso procedimento, para lançar sobre vós e sobre os colonos que trouxerdes, um desfavor, um odioso, que vai desde já fomentando sinistras rivalidades. É, pois, dizemo-vos: a colonização européia não é desejável. (WILLEMS, 1940, p. 134 – 136).

Esta citação revela duas questões que estavam em ebulição nos bastidores da sociedade brasileira, quanto à política de imigração do governo imperial: a preocupação da igreja católica, quanto à perda da hegemonia que tinha no Brasil e, conseqüentemente, a perda de seu poder político, cultural e econômico; e o avanço da xenofobia sentimental provocado pela ameaça à segurança daqueles que prosperavam às custas do trabalho escravo. Havia uma especial prevenção em relação aos alemães, considerados ordeiros e trabalhadores, mas de religião protestante e que não pretendiam seguir o trabalho servil.

Outra questão que se coloca era o uso da imprensa para divulgar informações - nem sempre verdadeiras – e formar opiniões: é fato que o governo imperial dispensou muitos recursos financeiros para trazer e fixar os imigrantes em solo brasileiro. Todavia, muitas vezes, havia o pagamento pelas terras por parte dos imigrantes. A Colônia Alemã de Blumenau, criada em 1850, por exemplo, surge com a compra das terras do governo imperial pelo Doutor Blumenau e não da doação gratuita destas aos imigrantes, em detrimento dos brasileiros que tinham que pagar pelas suas terras, como divulgado pelo artigo. Décadas mais tarde, a venda de terras aos imigrantes tornou-se uma prática comum. “O grupo recebeu as terras para cultivar. Não de graça; cada um tinha que pagar a sua parte e meu pai pagou. Ninguém deu calote, ninguém pediu auxílio para o governo”, relembra Erika em seu depoimento.

As primeiras sementes do ressentimento estavam plantadas. Elas germinaram e cresceram nas décadas seguintes, adubadas por ações de ambos os grupos: de um lado os imigrantes alemães e os seus descendentes e, do outro lado, os nacionalistas.

Porém, como continuar falando de “ressentimento” sem abordar com maior atenção um dos seus mais importantes fomentadores: o preconceito? Muitas vezes, o ressentimento (tanto individual como de um grupo) foi construído sobre atos que tiveram por base o preconceito.

Ferreira (1995) define preconceito como “conceito ou opinião formados antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos; idéia preconcebida; julgamento ou opinião formada sem levar em conta os fatos que o contestam”. Trata-se de um prejulgamento (em francês, préjugé), ou seja, algo já previamente julgado.

Dispensando uma maior atenção a estas definições, parece-nos indiscutível o fato de que todos os sujeitos têm pré-conceitos, ou seja, formulam idéias prévias sobre outras pessoas, ou grupos, ou acontecimentos; isto é inerente ao ser racional. O que diferencia pré- conceitos de preconceitos é o prejulgamento antecipado que justifica a tomada de decisões que motivam, auxiliam e justificam atos de discriminação.

Para Heller (2000), o preconceito envolve emocionalmente o indivíduo e o faz distanciar da razão a tal ponto de o impedir de ver os fatos de forma honesta e objetiva. Ele se fecha em uma determinada opinião, assumindo uma posição dogmática e sectária, que o impede de aprofundar o conhecimento sobre a questão não possibilitando o reavaliar de sua posição. “Os juízos provisórios refutados pela ciência e por uma experiência cuidadosamente analisada, mas que se conservam inabalados contra todos os argumentos da razão, são preconceitos.” (p. 47).

Vianna (2000), ao estudar o preconceito dentro de departamentos de Matemática em universidades brasileiras, aponta algumas questões, das quais destacamos três. A primeira é que o preconceito traz algumas vantagens aparentes. Ser membro do grupo opressor é mais vantajoso do que pertencer ao grupo minoritário e vítima do preconceito. A segunda é que a ignorância sobre os outros grupos é geradora de preconceitos. “O preconceito é acompanhado sempre de opiniões inexatas ou sem fundamentos sobre as pessoas que são objeto do preconceito.” (p. 446). A terceira questão aponta que o preconceito é transmitido socialmente e que os estereótipos101 são criados pela cultura. No contato com o “outro”, o “estranho”, o “diferente”, aplicamos valores que nos são fornecidos pela nossa cultura, nosso “habitat”. Estes valores podem ser positivos ou negativos e é entre eles que se encontram os preconceitos.

As questões apresentadas acima auxiliam a compreensão dos mecanismos de surgimento e manutenção dos preconceitos. Como conseqüências de ações preconceituosas temos a geração da suspeita, do desprezo, da discriminação, da intolerância e aversão a outras raças, religiões e culturas.

101 Estereótipos são rótulos usados para (des)qualificar, superficial e genericamente, grupos étnicos, raciais,

Foi o preconceito religioso e a intolerância que provocaram a criação da Neue

Deutsche Schule de Blumenau. Após um sermão considerado ofensivo aos evangélicos,

proferido pelo Padre Jacobs, diretor da maior e melhor escola do município, os habitantes luteranos se uniram e criaram uma nova escola, de caráter não religioso, como fez questão de deixar registrado o fundador da Colônia. É sabido que não foi apenas o ato isolado do padre Jacobs que provocou tal atitude. As dificuldades que os luteranos enfrentaram quanto à validade de seus casamentos, por parte das autoridades do Império, que só reconheciam aqueles realizados pela igreja católica, já haviam provocado queixas dos imigrantes não católicos.

Os preconceitos racial e cultural cedo se manifestaram nas palavras dos imigrantes. Doutor Blumenau em seu livro “Sul do Brasil em suas referências à Emigração e

Colonização Alemã” publicado em 1849, na Alemanha, assim se referiu ao brasileiro:

[...] o brasileiro por ser uma mistura de raças, demonstra em seu caráter uma grande indolência, preguiça e sensualidade, sofre de impetuosa paixão e irascibilidade, característica dos povos de países tropicais, como também gosta de enganar no comércio, tanto quanto o norte-americano, possuindo muito talento para esta arte. (BLUMENAU, 1999, p. 53).

Apesar de nas linhas seguinte do texto, o autor reconhecer qualidades nos brasileiros, como a hospitalidade, simpatia e sociabilidade, a chaga do preconceito se fazia presente. O preconceito aos brasileiros era demonstrado no dia-a-dia dos habitantes de Blumenau, em pequenos atos, como relatou a depoente Cora: “na Loja Peiter, na Casa Willy Sievert, de

Blumenau, primeiro eram atendidos os alemães e depois os brasileiros, que tinham que esperar. E isso deixava o meu marido bravo. Ele era bem moreno.” O preconceito gerando

rancor, ambos se encontrando na origem de ressentimentos, que vão se arraigando e entranhando com o passar dos anos. De um lado, o aumento da xenofobia e do nativismo inflamados, principalmente, pelos grandes proprietários de terras - classe dominante na política e na economia de Santa Catarina – que denunciavam o “perigo alemão”; por outro, a fidelidade dos alemães e seus descendentes aos costumes, língua e mentalidade germânicas, que exigiam ter reconhecida a cidadania brasileira, mas que não aceitavam o “abrasileiramento”.

O acirramento do preconceito e, conseqüentemente, a ampliação do ressentimento entre os teuto-brasileiros e os nacionalistas aconteceu durante a primeira guerra mundial. A entrada do Brasil no conflito, em 1917, contra a Alemanha, fez desencadear hostilidades contra a população de origem alemã. Em Blumenau, sociedades recreativas, lojas e fábricas

sofreram ataques; escolas foram fechadas. Os teuto-brasileiros passaram a ser vistos como “alemães” e não como cidadãos brasileiros. Estas ações geraram o ressentimento da população que se considerava leal ao país.

Com o término da guerra (1919) os ânimos, inicialmente, são acalmados: as “escolas alemãs” reabrem, porém, torna-se obrigatório o ensino do Português e de História do Brasil; os ataques entre elementos dos dois grupos diminuem. Entretanto, durante a década de 1920, a luta pela preservação das características étnicas se intensifica, quando as exigências de “abrasileiramento” se tornam mais presentes. Seyferth (2003, p. 55) registra que os teutos opositores à assimilação, ainda ressentidos pelos fatos ocorridos no período da guerra, utilizaram jornais locais para justificar a posição de manutenção das distinções étnicas, como pode ser observado numa matéria do jornal Blumenauer Zeitung (ano 44, n. 72, 1925): “Para os brasileiros, os imigrantes alemães e seus descendentes serão sempre alemães, [...] a guerra nos mostrou que o próprio Dr. Lauro Muller é chamado só de alemão.” E, realmente, a denominação “alemão” era sempre utilizada pelos brasileiros nos momentos de crise, para desqualificar os teuto-brasileiros como cidadãos.

Na década de 1930, as relações entre teutos e brasileiros pioram. Contribuiu para isto as atividades do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) nas regiões de colonização alemã. Este apregoava a unidade de todos os alemães, a superioridade da raça e a transformação de todas as pessoas em nacional-socialistas. Em Blumenau, apesar da intensidade das propagandas e atividades em prol das idéias nazistas, muitos teutos, especialmente os da área rural, mantiveram-se afastados do cenário político. Outros, entretanto, como políticos, pequenos comerciantes e industriais, aderiram à causa nazista, defendendo os seus preceitos com ardor, provocando o aumento da exigência de medidas de repreensão mais radicais, por parte do governo.

Em 1937, com o Estado Novo, ocorre o período de nacionalização das áreas de imigração alemã. Em Santa Catarina, o interventor federal, Nereu Ramos, em seus discursos políticos deixava transparecer o ressentimento que tinha em relação aos teutos que dominaram o cenário político catarinense, durante a década de 1920. A nacionalização agressiva e traumática da educação em Santa Catarina registra, não só o cumprimento de uma lei, mas o sentimento de revanche e vingança de ressentidos. O acerto de contas com o passado mostrou- se ser mais importante do que viver plenamente o presente.

De forma geral, quando os muros que aprisionam o ressentimento são rompidos, atos de vingança e represália jorram e se alastram com furor, provocando dor, sofrimento e novos

ressentimentos. Sentimentos, assim, estão impregnados nas palavras do depoente Dagobert, ao narrar os acontecimentos de como o seu pai teve todos os relatórios, livros, fotos, até as de família, queimadas pelo DOPS, após ser denunciado como nazista, por um desafeto seu que não o perdoou por um fato ocorrido alguns anos antes.

A declaração de guerra à Alemanha pelo Brasil, em 1941, desencadeou um período de medo, intolerância, hostilidade e humilhação aos teuto-brasileiros. O ato de falar o idioma