• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 1 – A SÓCIO-COSMOLOGIA KAINGANG E O RITUAL DO KIKI

1.1. O DUALISMO COMPLEMENTAR E ASSIMÉTRICO DOS MITOS

Poder-se-ia questionar qual a relação ou importância do dualismo Kaingang para o tema aqui tratado. O que tem a ver o ritual do kiki com o sistema dual dos kaingang? O que podemos antecipar é que todo o ritual é permeado pela oposição, ação complementar e reciprocidade entre as metades kamé e kairu, além de ser um evento específico que propicia a rememoração do momento primordial de criação, onde os irmãos mitológicos kamé e kairu criaram os seres da natureza, e as regras de conduta para sua sociedade, onde humanos, espíritos, animais e demais seres se inter-relacionam.

O dualismo Kaingang é configurado pelas concepções e práticas entre as metades kamé e kairu, classificadas por Veiga (1994) como um sistema complementar e simétrico, ao mesmo tempo hierarquizado e assimétrico no plano das subdivisões existentes em cada metade, sendo a metade kamé composta pelas subdivïsões kamé e wonhetky e a metade kairu composta pelas subdivisões kairu e votor. O parâmetro simétrico entre as metades kamé e kairu refere-se a uma definição totalizante que abarca homens, seres da natureza e sobrenatureza.

Conforme o mito do dilúvio dos Kaingang, após a grande inundação das águas emergia apenas o topo da montanha Krijijimbé (Serra Geral), em direção da qual kairukré e kamé nadaram, com tições nas suas bocas. kairukré e kamé foram dragados e suas almas foram habitar o centro da montanha. Os Kaingang e alguns Curuton chegaram ao topo da Krinjijimbé. Eles permaneceram lá diversos dias acocorados nos ramos de uma árvore ou reclinados na relva. Quem salvou os Kaingang kamé e kairukré foram saracuras e os patos que jogavam terra na água.

Após a inundação recuar, kamé e kairukré abriram caminho para sair da serra.

Na noite em que saíram, com fogo, cinzas e barro criaram animais. kairu criou bons animais, como abelhas, mas também os tigres e as antas. Enquanto isso, kamé fez as vespas, cobras venenosas, os pumas. Tentaram depois afogar os tigres, mas não conseguiram. “Por fim reuniram-se num grande campo e decidiram casar as filhas dos Kamé com os Kairukré e vice-versa” (BORBA, 1908, p. 20,22).

As características de cada metade apresentam padrões de complementaridade, assimetria e, em alguns momentos hierarquia. As pinturas corporais (marcas) utilizadas pelos membros de cada metade são representadas por riscos/ traços (rátéj) entre os kamé e círculos/ redondos (rãror) entre os kairukré. Contemporaneamente, é a partir das marcas corporais que muitos dos Kaingang mais velhos se reconhecem entre si como parentes ou cunhados (afins). O casamento considerado ideal é aquele entre pessoas de marcas distintas (afins).

Telêmaco Borba não reconheceu a existência de um sistema de metades entre os índios Kaingang com os quais conviveu na região Norte do atual Estado do Paraná, enquanto Nimuendajú (1913) foi o primeiro a afirmar que os Kaingang estão articulados através do reconhecimento de um sistema de metades kañeru e kamé que constituem o

“fio vermelho” que passa por toda a vida social e religiosa desta nação. Os heróis culturais que dão o nome às metades kaingang, criaram os seres da natureza: “kanyerú fez cobras, kamé, onças. Este fez primeiro uma onça e a pintou, depois kanyerú fez um veado. Kamé disse à onça: ‘Come o veado, mas não nos coma’. Depois ele fez uma anta, ordenando-lhe que comesse gente e bichos. A anta, porém, não compreendeu a ordem. Kamé repetiu-lhe ainda duas vezes em vão; depois lhe disse, zangado: ‘Vais

comer folhas de urtiga, não prestas para nada!’. Kanyeru fez cobras e mandou que elas mordessem homens e animais” (NIMUENDAJÚ, 1986, p. 87).

Os irmãos mitológicos kamé e kairu não apenas criaram os seres da natureza, mas também as regras de conduta para os homens, definindo a patrilinearidade e estabelecendo o relacionamento das metades através da exogamia. “Chegaram a um campo grande, reuniram-se aos Kaingang e deliberaram casar os moços e as moças.

Casaram-se primeiro os kairucrés com as filhas dos kamés, estes com as daqueles, e como ainda sobravam homens, casaram-se com as filhas dos Kaingang” (BORBA, 1908, p.22).

O dualismo expresso no mito de origem Kaingang, apresenta um sistema de classificação que abrange os homens e os seres da natureza, com suas respectivas metades e atributos associados, além de uma fórmula de organização social através do estabelecimento de regras de descendência e de casamento.

Complementaridade e assimetria são características expressas nos mitos Kaingang:

“O dualismo expresso na mitologia Kaingang é construído a partir da diferenciação dos iguais. A progressiva diferenciação dos iguais resulta no dualismo complementar e assimétrico, expressão da alteridade e da hierarquia que o constitui, e postula princípios fundamentais da vida social: a descendência patrilinear como princípio da identidade, a exogamia entre as metades e a dicotomia consanguíneos-afins como princípios da diferença”.

(FERNANDES, 2003, p. 43).

O mito de origem dos Kaingang indica que, na perspectiva cultural dos Kaingang, há a necessidade de que haja sempre dois elementos opostos, complementares e com um dos elementos se sobrepondo, para que o mundo seja produzido e tenha fertilidade (VEIGA, 1994; FERNANDES, 2003).

No mito de origem encontra-se delineado que a forma de criação da unidade social e da eliminação da diferença ocorre pela via do estabelecimento de alianças pelo casamento entre os filhos. O restabelecimento da ordem social ocorre a partir da afirmação das metades e pela criação de regras de exogamia.

Pelos mitos depreende-se que para que haja harmonia entre as metades deve haver oposição, complementaridade e reciprocidade. Observa-se que para os Kaingang não há uma diferenciação radical entre os estados de natureza, cultura e

sobrenatureza, ou seja, entre humanos, bichos e espíritos, havendo relações solidarias entre eles e capacidade de comunicação.

O mito Kaingang do dilúvio, coletado por Borba publicado em 1882, foi-lhe transmitido pelo cacique Arakshó que o recebera através de seus antigos progenitores:

“Em tempos idos, houve uma grande inundação que foi submergindo toda a terra habitada pelos nossos antepassados. Só o cume da serra Crinjijimbé emergia das ágoas.

Os Caingangues, Cayurucrés e Camés nadavam em direção a ela levando achas de lenha incendiadas. Os Cayurucrés e Camés cançados, afogaram-se;

as suas almas foram morar no centro da serra. Os Caingangues e alguns poucos Curutons, alcançaram a custo o cume de Crinjijimbé, onde ficaram, uns no solo, e outros, por exiguidade de local, seguros nos galhos das árvores; alli passaram muitos dias sem que as agoas baixassem e sem comer; já esperavam morrer, quando ouviram o canto das saracuras que vinham carregando terra em cestos, lançando-a à agoa que se retirava lentamente.

Gritaram elles às saracuras que se apressassem, e estas assim o fizeram, amiudando também o canto e convidando os patos a auxiliá-las; em pouco tempo chegaram com a terra ao cume, formando como que um açude, por onde sahiram os Caingangues que estavam em terra; os que estavam seguros aos galhos das arvores, transformaram-se em macacos e os Curutons em bugios.

As saracuras vieram, com seu trabalho, do lado donde o sol nasce; por isso nossas agoas correm todas do Poente e vão todas ao grande Paraná. Depois que as agoas secaram, os Caingangues se estabeleceram nas immediações de Crinjijimbé. Os Cayurucrés e Camés, cujas almas tinham ido morar no centro da serra, principiaram a abrir caminho pelo interior della; depois de muito trabalho chegaram a sahir por duas veredas: pela aberta por Cayurucré, brotou um lindo arroio, e era toda plana e sem pedras; dahi vem terem elles conservado os pés pequenos; outro tanto não aconteceo a Camé, que abrio sua vereda por terreno pedregoso, machucando elle, e os seos, os pés que incharam na marcha, conservando por isso grandes pés até hoje. Pelo caminho que abriram não brotou agoa e, pela sede, tiveram de pedi-la a Cayurucré que consentio que a bebessem quanto necessitassem.

Quando sairam da serra mandaram os Curutons para trazer os cestos e cabaças que tinham deixado em baixo; estes, porém, por preguiça de tornar a subir, ficaram alli e nunca mais se reuniram aos Caingangues: por esta razão, nós, quando os encontramos, os pegamos como nossos escravos fugidos que são. (...)

Cazaram primeiro os Cayurucrés com as filhas dos Camés, estes com as daqueles, e como ainda sobrassem homens, cazaram-nos com as filhas dos Caingangues. Dahi vem que, Cayurucrés, Camés e Caingangues são parentes e amigos (BORBA, 1908, p. 20,22).

Tommasino (1995, p.52) interpreta a experiência do dilúvio como a re-fundação da sociabilidade Kaingang, a qual aparece como um regresso à natureza ou numa área de transição entre natureza e cultura. Alguns humanos se transformam em bugios, outros em macacos e os Cayurucrés e Camés se tornaram parentes e amigos através dos filhos e das filhas. “Nesse sentido, o dilúvio é como que um ponto de partida da

Cultura, da concepção de passagem de Natureza à Cultura, já que, nesta passagem, surge a possibilidade de trocas matrimoniais (parentesco) e trocas simbólicas (festas)”.

1.2. A PERCEPÇÃO KAINGANG SOBRE CONSTRUÇÃO DA PESSOA, MORTE E OS