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Capítulo II – O G ÊNERO F EMININO COMO S TATUS E P APEL S OCIAL

2.4 O E MPREENDEDORISMO E E MPODERAMENTO F EMININO

Cada vez mais as mulheres vêm inserindo-se e influenciando o mercado de trabalho, não somente como mão de obra progressivamente mais qualificada, mas como empreendedora. De acordo com o último relatório publicado sobre empreendedorismo feminino do Global Entrpreeurship Monitor em 2010, foram verificados os seguintes dados: Em 2010, 104 milhões de mulheres em 59 economias-que representam mais de 52% da população mundial e

84% do mundo-iniciaram e conseguiram novos empreendimentos. Outros 83 milhões de mulheres em toda as regiões conduziram negócios que tinham lançado pelo menos três anos e meio antes. Juntos, esses 187 milhões exemplificam a contribuição das mulheres para o empreendedorismo em todo o mundo e para a propriedade de negócios.

No ano de 2012, no Brasil, observamos a mulher ascender a cargos de liderança antes inatingíveis.

Pode-se cogitar se há a influência da eleição de uma presidente mulher para o comando da República, mas é certo que há cada vez mais mulheres em cargos de comando tanto na iniciativa pública quanto na privada. Uma pesquisa feita pelo Serviço Brasileiro de Apoio ao Micro e Pequeno Empresário (SEBRAE) aponta que para cada 100 Empreendedores Individuais, 45 são mulheres. A quantia de 61 mil delas estão à frente de uma franquia, a qual fatura até 32% a mais do que aquelas que são gerenciadas por homens (BRASIL, 2012).

A expressiva valorização de mulheres indica a necessidade de conhecer o perfil da mulher para conduzir políticas públicas mais adequadas. O estudo de Vale, Serafim e Tedósio (2011), considera importante valorizar e conhecer a natureza das relações sociais das mulheres, concebidas como mais estreitas, para desenvolver projetos mais adequados ao seu perfil, visto que as mulheres estiveram socialmente desigadas aos cuidados e gerenciamento das demandas da casa e da família, as mulheres estiveram por gerações e gerações protegidas e ligadas a fortes laços das relações familiares.

Essa característica poderia estar influenciando ainda o modo como as mulheres organizam-se para empreender no mercado de trabalho. Garcia (2012) pondera que as diferenças de comportamentos por gênero apontam para diferenças baseadas em aspectos culturais, sociais psicológicos iniciadas na educação infantil doméstica e indica que essas características apresentam-se como vantagem no mundo profissional da era dos serviços. Os rumos do empreededorismo na contemporaneidade foram incrementados exigindo mais habilidades para o gerenciamento e pessoas, e competências que são por execlência femininas, tais como os cuidados com os detalhes, com pessoas e a determinação.

Segundo a economista e pesquisadora Gina Paladino, que acompanhou o estudo GEM 2010, entre as principais características femininas do empreendedorismo estão um maior nível de preparo: “elas planejam melhor e procuram compreender mais o mercado onde atuam”

(BRASIL, 2012). A taxa de sobrevivência dos empreendimentos criados pelas mulheres também é maior. O levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP) para a pesquisa GEM 2010 aponta que elas possuem negócios menores e tendem a estar no setor de serviços. Em 33% dos casos, as atividades são ligadas ao comércio varejista, 20% investem em alimentação, e 12% estão na indústria de transformação.

Ana Fontes, diretora da Rede Mulher Empreendedora, concorda com Garcia (2012) quando percebe nas mulheres um jeito diferente de fazer negócios afirma que, de entre as qualidades femininas favoráveis aos negócios, estão a menor agressividade, o bom hábito de dialogar e trocar ideias com as pessoas envolvidas os processos de trabalho, e ser mais cautelosas antes de tomar decisões. Essas características fazem com que sejam melhor planejadoras, embora progridam com mais lentidão.

Vale, Serafim e Teodósio, (2012) comentam que os resultados de investigações sobre a socialização das mulheres apoia a concepção de que, geralmente, as mulheres são mais empáticas, cooperam mais facilmente e enfatizam, muito mais do que os homens, as relações interpessoais, características que fazem grande diferença quanto ao desempenho no mundo dos negócios.

O histórico de cuidados familiares, a experiência da maternagem e da gestão das demandas domésticas desenvolveram nas mulheres a prática em lidar com situações diferentes ao mesmo tempo, inclusive como negociadora em relações interpessoais e administração de conflitos, em especial no caso de mulheres com mais de um filho. A convivência com vizinhos, parentes e amigos fica mais acessível também pelo tempo disponível no ambiente do lar, e isso favorece a expansão e a consolidação de redes de convivência e a habilidade em relacionamentos. Por outro lado, a rede de contatos é um fator gerador de oportunidades de negócios, e quanto mais confiáveis e sólidas as relações, mais favoráveis às indicações para oportunidades comerciais.

As relações familiares são de grande importância para o desenvolvimento de empreendimentos em redes sociais femininas no momento de seu início, mas a expansão dessa rede de contatos é necessária para a expansão dos negócios no momento de seu amadurecimento, pois contatos diferentes levam a oportunidades diferentes. Assim, a família tem poder decisivo na constituição do empreendimento feminino, podendo ajudar ou

prejudicar intensamente. Ao lado de uma condição ainda dependente no início dos negócios, a mulher tende, segundo Buttner (citado por Vale, Serafim & Teodósio, 2012), as prioridadees dos homens e das mulheres são diferentes. Quando criam redes de rlacionamenos os homens privilegiam as vantagens pessoais, desenvolvem mais relações instrumentais. As mulheres se ocupam de mais das questões afetivas. Como desenvolvem mais amizades e relações baseadas em afeto, podem ter mais dificuldade em deixar os sentimentos de lado em questões profissionais. Enquanto os homens se apoiam em profissionais com as expertisses de que preecisa, as mulheres buscam os próprios maridos.

Ao passo que os homens acompanham o desenvolvimento da carreira profissional da mulher, eles têm acesso e controle à maior parte de sua rotina. Caso os cônjuges considerem que os afazeres domésticos sejam negligenciados, ou que a conduta ocasionada por demandas do trabalho lhes desagrade, têm um grande poder de influência para requisitar uma mudança de comportamento, o que pode mesmo prejudicar o empreendimento feminino. Desta feita, vê-se como de grande valor o apoio institucional de políticas públicas. Os ensinamentos, as oportunidades e o apoio ao desenvolvimento profissional ofertado pelo Estado oferece a oportunidade da mulher ter a quem recorrer que não ao homem, a contar com o apoio neutro de uma entidade dissociada das questões domésticas e conjugais. Essa ação constitui um suporte para o empoderamento da mulher.

A Dupla Jornada de Trabalho e o Empoderamento da Mulher

Promover a equidade de gêneros com o intuito de empoderar mulheres no que se refere a qualquer atividade de natureza social e econômica é garantia de efetivo fortalecimento das economias nacionais, promove a sua qualidade de vida, a dos homens e das crianças conjuntamente, e promove o desenvolvimento sustentável.

Tendo em vista o papel que as empresas desempenham no crescimento das economias e no bom desenvolvimento humano, a ONU e o Pacto Global definiram os Princípios do Empoderamento das Mulheres, que se constituem de um conjunto de considerações que servem para orientar a comunidade empresarial a fim de que incorporem em suas organizações valores e práticas que levem à equidade de gêneros e ao tão desejado e

necessário empoderamento das mulheres. Seguem abaixo os sete Princípios do Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres, 2012):

1. Estabelecer liderança corporativa sensível à igualdade de gênero, no mais alto nível.

2. Tratar todas as mulheres e homens de forma justa no trabalho, respeitando e apoiando os direitos humanos e a não-discriminação.

3. Garantir a saúde, segurança e bem-estar de todas as mulheres e homens que trabalham na empresa.

4. Promover educação, capacitação e desenvolvimento profissional para as mulheres.

5. Apoiar empreendedorismo de mulheres e promover políticas de empoderamento das mulheres através das cadeias de suprimentos e marketing.

6. Promover a igualdade de gênero através de iniciativas voltadas à comunidade e ao ativismo social.

7. Medir, documentar e publicar os progressos da empresa na promoção da igualdade de gênero.

A condição de submissão das mulheres é o exercício da violência doméstica, familiar, social ou laboral, e representa a manutenção do subdesenvolvimento. Sendo assim, cabe ao poder público agir para reverter essa condição. Segue-se então que é importante considerar a transversalização como Johnson (2007) a representa. Em sua visão, a transversalização na perspectiva do gênero pressupõe que todos os atores sociais atuantes na elaboração de políticas públicas devem incluir obrigatoriamente a questão do gênero, pela simples e originária consciência de que problemas incidem de forma diferente a homens e a mulheres. Desta feita, as soluções diferenciadas podem produzir impactos diferentes, favorecendo e assistindo a demandas peculiares a cada gênero. Considerando que muitos têm responsabilidades quanto aos problemas de gênero, considera que deve caber ao estado assumir o papel de organizar, implementar e coordenar políticas públicas de gênero.

Para Vásquez (2007), o triângulo do empoderamento é constituído pela articulação entre os atores coletivos. Uma das obras que versa sobre o processo de formulação das políticas

públicas localizadas em países da Europa, América Latina e Caribe, de autoria de Vargas e Weringa, citado por Vásquez (2007), foi a concepção de um conceito de “triângulo de empoderamento” no qual faziam uma análise comparativa dos processos que foram mais bem sucedidos. Em sua visão, uma articulação entre mulheres em posições privilegiadas para minimizar os impactos da desigualdade entre gêneros, resultaria em ganhos positivos para o empoderamento da mulher. As posições sugeridas são:

1) mulheres dentro do poder executivo;

2) mulheres políticas que tenham uma agenda para questões de gênero no âmbito político partidário; e,

3) mulheres que articulem e promovam o acesso de outras mulheres aos recursos e oportunidades nos mais diversos setores da sociedade.

Costa e Porto (2012) reforça a necessidade da transversalidade nas políticas de gênero, e ressalta que a política pública inicia-se no dimensionamento e na percepção dos problemas, seguido da formulação das soluções aos problemas elencados. As definições são estratégicas para od esenvolvimeto e concretização de ações políticas, então os objetivos e as responsabilidades precisam ser claramente designadas. Dessa forma criam-se projetos, programas e são definidas as ações que de fato podem ajudar as pessoas.

A fase seguinte trata da implementação, ou seja, da concretização daquilo que foi definido como ação executável da política, seguida por fim, de sua avaliação. Costa & Porto (2012) prossegue com a recomendação de que é necessária, então, a reorganização dos processos políticos, desde sua concepção inicial, à sua avaliação, exercer o viés da equidade de gênero, em todas as suas ações, níveis e fases. Dessa forma, será possível contemplar as demandas que irão desenvolver o empoderamento feminino na sociedade e uma cultura mais igualitária.

O maior acesso às instituições de ensino proporcionaram melhores condições de ingresso da mulher no mercado de trabalho, mas as condições paritárias de trabalho ainda são um desafio. Mesmo assim, a qualidade do ensino ao qual a mulher teve acesso ainda depende de sua condição socioeconômica. Pessoas de níveis inferiores nesse quesito apresentam mais dificuldade de ingresso no mercado de trabalho, donde a oferta de educação profissionalizante por parte do governo tem destaque na ascensão profissional e consequente empoderamento da

mulher. A qualificação oferecida como componente de políticas públicas dá condições básicas necessárias ao desenvolvimento de negócios que poderão levar a mulher à autonomia financeira e melhorar sua condição social.

Lisboa (2012, p. 3) considera que ao se combater a pobreza, o empoderamento é uma forma de viabilizar a conquista da cidadania, dda capacidade ser agente da própria vida em aspectos individuais e coletivos, uma forma de obtr e saber usar conhecimentos, recursos de natureza econômica, social, política e cultural para ser responsável plenamente pela defesa dos próprios direitos, influenciando e cobrando decisões políticas no uso de recursos e serviços.

O empoderamento da mulher é um caminho para o desenvolvimento social, nessa condição ela pode exercer o controle e contribuir para o desenvolvimento de seu próprio ambiente social. Esse atributo pode ser avaliado também por sua empregabilidade e o acesso a posições de comando. É condição fundamental na busca pelo alcance da igualdade de gênero e valorização da mulher, pois contribui para o equilíbrio que a ONU estipulou como necessário para reverter o aspecto da globalização que ainda exclui a inteligência da mulher, o que, segundo Barbieri e Andreola (2012, p. 14,), “indiscutivelmente, gera descompassos no avanço sustentável das economias locais e internacional”.

A busca pela autonomia induz a mulher ao enfrentamento de um dilema, a gestão da duplicidade de papéis. O conflito entre o trabalho e a família é um tema recorrente na trajetória profissional da mulher, conforma já citado anteriormente. Os artigos de Stoner, Hartman e Arora (1990) e de Parasuraman, Purohit, Godshalk e Beutell (1996) ressaltam que o aumento de episódios de conflito no quesito que relaciona o trabalho e a família, leva a uma relação direta com a insatisfação conjugal, profissional e com a vida em geral, o que acarreta altos níveis de stress e mesmo esgotamento.

A condição de empreender pode ser considerada por si só como estressante. Segundo Hisrich e Peters (2002, p. 20), essa atividade é compreendida como “a capacidade de identificar oportunidades e criar algo inovador sob condições de incerteza, assumindo os riscos aí envolvidos”. Trata-se então da situação de enfrentar riscos a partir de uma visão de futuro que se baseia na análise de probabilidades até então imaginárias. Essa concepção evidencia o conjunto de fatores psicológicos envolvidos no ato de empreender, como a motivação, iniciativa e notadamente a autoconfiança, que impulsiona a mulher a transpor a barreira

invisível que a restringe ao ambiente doméstico, subordinada ao poder e à autoridade masculina.

Barnett (2004) argumenta que o impulso feminino para empreender se depara com a barreira do mito quanto às competências dos gêneros. A concepção de que à mulher cabem as inclinações para o cuidado com o lar e aos homens cabem provê-lo cria uma armadilha para a manutenção da desigualdade dos gêneros. Essa desigualdade se impõe no momento que a mulher empreende, visto que as tarefas domésticas continuam aos seus cuidados, condenando-a à famosa dupla jornada de trabalho. Sobrecarregada, sob uma situação de stress pelos desafios do empreender e com a vigilância e cobrança pelos afazeres domésticos, facilmente pode se configurar as demandas do trabalho e de casa como incompatíveis. A autoconfiança e a motivação para o trabalho ficam ameaçadas pela culpa. Conforme expressam Jonathan e Silva (2012, p. 78): “Nesta abordagem da condição feminina, não há saída para a mulher contemporânea: culpada por trabalhar; culpada por não o fazer”.

Estudos realizados no Brasil por Jonathan (2001) e Rocha-Coutinho (2003) revelaram que na concepção da mulher empreendedora ou executiva, a realização em uma esfera de sua vida não significa a exclusão de outras. Elas atribuem valores altos simultaneamente às demandas profissionais, de maternidade e amorosas, buscando dar equilíbrio às necessidades dos espaços profissionais, familiares e pessoais. Segundo Codo, Sampaio e Hitami (1993) ao desenvolverem vínculos entre afeto e trabalho, produção e reprodução, as mulheres conquistam seu bem-estar subjetivo.

A visão da mulher sobre suas diversas atividades difere da perspectiva masculina, e quando compreendida e aceita resulta em mais benefícios que prejuízos em todos os aspectos. A variedade de papéis favorece mais ao desenvolvimento que à fragmetação, dificuldades e sofrimento (Jonatthan, 2001).

Os estudos de Possati e Dias (2002) constataram que o exercício de papéis que oferecem autonomia e poder de decisão traz realização para as mulheres e também se configuram como bons preditores de bem estar psicológico para as mulheres casadas. Esses achados favorecem o questionamento e a discussão da manutenção da mulher no restrito ambiente do lar. Segundo Cherlin (2001), mães que trabalham relatam maiores índices de bem estar e satisfação do que aquelas que não o fazem.

Configura-se então uma nova perspectiva à compreensão da mulher que acumula funções em diferentes âmbitos de sua vida pois ela sente-se mais satisfeita, menos estressada, o que favorece a relação conjugal e aumenta a renda familiar. A luta pela igualdade de gêneros além de favorecer a mulher beneficia a toda a família e à sociedade.

Essa perspectiva é bastante estimulante e motiva a busca pela verificação dessas possibilidades em um grupo de mulheres participantes de um programa de inserção econômica da Prefeitura Municipal de Fortaleza. Para tal empreitada, tivemos em consideração o percurso metodológico que em seguida se aborda.

Capítulo III – M

ETODOLOGIA

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