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3 EVOLUÇÃO BIOLÓGICA: O DISCURSO E O ENSINO

3.5 O ECLIPSE DARWINIANO E O ADVENTO DA GENÉTICA NO DISCURSO

Por extensão, ainda que tivesse sido bem recebida pela comunidade científica da época, a teoria darwiniana gerou controvérsias entre os pesquisadores, visto que, se por um lado a Teoria da Evolução ficava estabelecida como um alicerce, para as ideias sobre a origem e mudanças sofridas pelas espécies, o mesmo não ocorreu com a Teoria da Seleção Natural (RIDLEY, 2006, p.36). De fato, isso ocorreu porque nem Darwin e nem a ciência haviam apresentado um mecanismo de herança que explicasse, satisfatoriamente, a razão pela qual as características da prole seriam herdadas dos seus progenitores.

Ao mesmo tempo, nesse terreno, despertaram alguns defensores ferrenhos do evolucionismo, como o seu amigo - conhecido como o Buldogue de Darwin - Thomas Huxley (1825- 1895), e outros que o combatiam. Para os dogmáticos, de todas as categorias, o darwinismo era inaceitável, e, dessa forma, espalhavam-se por diversos países debates veementes em relação à natureza e condição humana em torno do contexto biológico.

Atrás de todos os sofismas estava escondida a questão humana. Neanderthals, macacos, ancestrais negros – isso tudo estava carregado emocionalmente e para muitos era assustador. As antigas convicções estavam ameaçadas, bem como as regras que durante séculos conduziram as condutas. Essa era a razão pela qual Huxley, em suas exposições públicas, substitui as leis da natureza por imposições religiosas e viu a obediência na liderança da ciência, com o mesmo fim, ordem social e justiça moral. Mas não havia como escapar da traumática transformação social – ou de um materialismo messiânico. Do útero ao Palácio, o problema era a posição do homem na natureza (DESMOND e MOORE, 1995, p.548).

Até que por volta de 1900, houve uma ampla divulgação de experimentos mendelianos com hibridização de plantas, por pesquisadores que trabalhavam independentemente, como Hugo de Vries (na Holanda), Correns (na Alemanha) e Tschermark (na Áustria).

Gregor Mendel (1882-1884) era um monge católico, contemporâneo de Darwin, que mediante estudos de hibridização com ervilhas-de-cheiro (Pisum sativum), consolidou as tão famigeradas leis da genética. Desde então, seus estudos passaram despercebido para a maior parte da comunidade científica da época, isso porque outros pesquisadores já tinham atingido resultados muito semelhantes, entretanto, eles ainda não haviam sido revistados a luz de uma teoria como a Evolução Biológica.

Mendel não teria sido tão inovador ao planejar seus experimentos, mas teria, pela primeira vez, contado numericamente os diferentes tipos de descendentes. Ele teria repetido alguns experimentos realizados na Inglaterra e, pela primeira vez, supostamente, quantificado as diferentes formas que aparecerem na descendência (BIZZO e EL-HANI, 2009, p.239).

Por conta desse quadro, as Leis de Mendel assinalavam que as células são portadoras de fatores hereditários que se transmitiam uniformemente por meio das hibridizações em sucessivas gerações. Tais pares de fatores (mais tarde chamados de genes) combinavam-se e recombinavam-se a cada geração obedecendo às probabilidades estatísticas. Em certo sentido, Bizzo (2008) destaca que, embora considerável, os estudos mendelianos reportavam-se a resultados previsíveis para o pensamento evolutivo.

O trabalho de Mendel trazia um refinamento matemático moderno, mas que conduzia de volta a uma antiga conclusão. Ela não poderia trazer nada além do que certa decepção aos evolucionistas da época uma confirmação de que parte dos híbridos manterá a característica recebida de um dos pais, e a transmitira de forma inalterada, e, além disso, que os descendentes transmitem combinações matematicamente previsíveis das características parentais (BIZZO, 2008, p. 325).

Devemos também considerar a possibilidade de que o naturalista, trabalhando com o cruzamento e a autofertilização de plantas (DARWIN, 2000), pudesse inclusive ter chego conclusões muito semelhantes às de Mendel, até mesmo com ervilhas. Entretanto, o mesmo relutou em modificar sua visão epigenética. Fazendo-nos refletir sobre as versões de que ambos os naturalistas se desconheciam ou de que Darwin, a partir desses resultados mendelianos, poderia ter modificado a sua opinião quanto à hereditariedade e, por extensão, sobre a Evolução Biológica (BIZZO e EL-HANI, 2009). Isso implica que

Existia uma demanda por uma teoria da herança particular, ou seja, as ideias nesse campo não poderiam ser dissociadas das perspectivas evolutivas que pareciam com a grande novidade do período. Ideias sobre herança havia e em profusão; a comunidade científica carecia de uma teoria que pudesse incorporar as novas demandas trazidas pelas novidades da teoria evolutiva (BIZZO, 2008, p. 320).

Frente ao exposto, por mais que as ideias de Hereditariedade e Evolução estivessem estreitamente relacionadas, ainda necessitavam transpor barreiras para uma articulação à visão evolucionista. Portanto, ainda que, frequentemente, encontremos na literatura certo anacronismo histórico entre as teorias darwinianas e mendelianas, deve-se considerar que Darwin poderia ter conhecimento das teorias mendelianas, mas procurava consolidar uma própria teorização em sua base evolutiva.

É comum que se transmita a ideia de que ele não estava ciente da obra se seu contemporâneo Charles Darwin, ou então que ele não teria percebido as decorrências de suas ideias sobre hereditariedade para uma teoria evolutiva qualquer. Embora seja comum encontrar algum lamento para o desconhecimento de Darwin em relação a Mendel, é raro (se é que já tenha feito isso) o lamento inverso, ou seja, de que Mendel poderia ter realizado algo parecido com a síntese evolutiva do início do século XX se tivesse conhecido com profundidade o trabalho de Darwin, pode-se muito bem dizer o contrário: Mendel foi apontado como anti-evolucionista e anti-darwiniano (...) e, inclusive, anti-mendeliano (BIZZO, 2008, p.

318-319).

Com efeito, podemos pontuar que, embora Darwin até pudesse conhecer os experimentos mendelianos de hibridização e chegar a resultados muito próximos em seus estudos, o próprio adotara um percurso marcado pela diferença teórica, mais precisamente, marcado pela visão evolucionista. De modo que, apontam Bizzo e El-Hani (2009), se analisarmos esse contexto em uma perspectiva histórica isso,

[...] mostra que não seria viável para Darwin construir sozinho, ou mesmo pavimentar o caminho, para um enfoque sintético simplesmente lendo o trabalho de Mendel. Trata-se de uma simplificação muito distorcida da sucessão dos fatos.

Contudo, o mito de que Darwin poderia ter realizado tudo sozinho ainda prospera em diversos contextos, inclusive o escolar (BIZZO e EL-HANI, 2009, p.240).

Além do mais, dada a importância e a profusão de experimentos com hibridização, no começo do século XX, os estudos de Mendel conduziram-se à formulação de leis de herança e, por conseguinte, levaram ao advento e posterior desenvolvimento da Genética.

Hugo De Vries (1848 – 1935) estudando flores descobriu que nelas novos tipos podem surgir de uma única descendência, e chamou essas mudanças de mutações (MOODY, 1975).

Verificamos mais tarde que as mutações não eram resultadas de nova variação genética, mas eram meramente um tipo peculiar de segregação. No entanto, convém esclarecer que naquele

momento os novos sentidos dados ao discurso evolucionista, tanto as (re)descobertas mendelianas, como o conhecimento sobre as mutações, foram interpretados como um golpe mortal para a teoria darwiniana. Para Ridley,

Os primeiros mendelianos, como Hugo de Vries e Willian Bateson, eram todos contra a teoria da seleção natural de Darwin. Eles pesquisavam principalmente sobre a herança das grandes diferenças entre os organismos como um todo. Eles sugeriam que a evolução prosseguia em grandes saltos, por meio de macromutações (RIDLEY, 2006, p.37).

Desde então, os princípios chave de Darwin - a Seleção Natural e a mudança gradual - foram eclipsados entre 1900-1920, enquanto o mendelismo, calcado na Teoria da Hereditariedade, passou a ser a base da genética moderna. Os princípios mendelianos também não eram unânimes, isso porque os membros de outra escola, autodenominada de biometristas, alegavam que o mendelismo servia para estudo de poucos caracteres.