• Nenhum resultado encontrado

O embranquecimento nos momentos de brincadeira

No documento Download/Open (páginas 122-125)

4. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

4.2 As crianças e o branqueamento

4.2.2 O embranquecimento nos momentos de brincadeira

A videografia foi um dos recursos metodológicos empregados para o registro e análise do universo investigado. Para tal, foram realizadas seis seções, sendo duas seções de brincadeiras livres, duas seções de brincadeiras dirigidas e duas seções de contação de história, como mencionado anteriormente. Para ilustrar a relação entre branqueamento e as impressões das crianças, trouxemos um episódio que é ilustrativo dessa relação e foi o registro videográfico de uma das seções de leitura de histórias para as crianças. Assim como aconteceu nos desenhos das crianças, o que se percebe é uma desvalorização da estética negra, incorporada pela protagonista da história, a personagem Lelê.

Imagem 29 – Crianças e pesquisadora

Fonte: Elaboração própria

Episódio: Porque o cabelo dela é cacheado e eu não gosto. Marcação temporal: Os Cabelos de Lelê- (01:05, 11- 01:12,54) Duração: 13 segs.

Contexto: As crianças estão sentadas em um semicírculo no chão, a pesquisadora no início da ponta esquerda desse semicírculo de costas para a câmera, Mateus se encontra fora do enquadramento. Maria e Moranguinho estão olhando em direção da pesquisadora e dizem: feio. Talyson, quarta criança da esquerda para direita, está com a mão direita em sua boca e com a outra mão apoiada sobre uma almofada que está em seu colo e olhando em direção a pesquisadora. Mariza: está sentada após Talyson, sendo a primeira criança do lado direito no sentido horário. Ela está sentada de pernas cruzadas, encostada na parede e com a mão esquerda na boca, olha em direção à pesquisadora e diz: “feia”. Luíza está sentada sobre uma almofada verde e segura uma almofada laranja em

suas mãos, que fica balançando para cima e para baixo. Está olhando em direção à pesquisadora. Zulaine está sentada sobre uma almofada verde e está calada, olhando para um relógio roxo que está segurando entre as mãos. Mateus está fora do enquadramento da câmera.

Início do episódio:

Luíza balançando a almofada laranja para cima e para baixo e olhando em direção a pesquisadora diz:

L: Feia. Porque o cabelo dela, o cabelo dela é, é cacheado, aí eu não gosto. Nesse momento Moranguinho volta-se em direção à Luíza, assim como Maria e Talyson. Zulaine continua olhando para seu relógio, levanta o olhar rapidamente para a pesquisadora e volta a olhar para seu relógio. A pesquisadora toca no chão para que Talyson se aproxime e ele fica dentro do enquadramento da câmera, aparecendo no vídeo. Mariza alterna entre olhar para a pesquisadora e olhar em direção a Talyson com sua mão no queixo. Quando Luíza termina de dizer isso, Maria ajeita uma almofada verde e seu colo, olha para a pesquisadora e diz: O meu também é cacheado, e toca onde está o rabo de cavalo em seu cabelo. Nesse instante Zulaine levanta sua cabeça abre e fecha a boca, mas não diz nada. Ao mesmo tempo a pesquisadora pergunta a Luíza:

P: Você gosta do seu cabelo como? No momento em que a pesquisadora pergunta à Luíza como ela gosta do seu cabelo, os olhares de todas as crianças estão voltados para ela. Zulaine olha para a pesquisadora prendendo a boca e segurando o objeto roxo em suas mãos. Mateus está virado para a pesquisadora, Moranguinho também está olhando para ela. Gabriel está com o pescoço um pouco arqueado e olha para a pesquisadora. Mariza está com a mão direita sobre a perna direita, que está dobrada de maneira que um pé está encostado no outro e a boca aberta. Luíza: balança a almofada da direita para a esquerda e balança a cabeça negativamente e diz: Cabelo liso (e prende os lábios e balança a cabeça afirmativamente).

Quando Luíza termina de responder a pesquisadora diz:

P: Gosta de cabelo liso. Luíza balança a cabeça afirmativamente e continua a balançar a almofada. Maria se volta em direção à pesquisadora, inclina sua cabeça para e a direção do seu olhar para seu braço direito, toca em seu rabo de cavalo e ri para a pesquisadora. Moranguinho continua olhando em direção a Luíza. Talyson fica olhando para Luíza. Mariza está passando batom nos lábios, interrompe, balança a cabeça afirmativamente e diz: Gosto mais. Mariza com cara séria olha de Luíza para a direção da pesquisadora e fala: eu não gosto. (Final do episódio)

Note que as características físicas de Lelê, mais especificamente o seu cabelo cacheado que é uma das características físicas negras, foi o argumento utilizado por Luíza para demonstrar que a personagem é feia, a menina nos diz que: "Feia. Porque o cabelo dela, o cabelo dela é, é cacheado, aí eu não gosto". A valorização de um padrão estético branco fica evidenciado quando a menina indica qual o tipo de cabelo considera o mais belo, segundo ela "Cabelo liso".

Observe que Luíza não é a única a considerar o cabelo liso como o mais belo, ela é seguida por Marisa que diz: "Gosto mais" (como que dissesse eu assim como Luíza gosto mais de cabelo liso).

Como será ilustrado a seguir, umas das crianças, em algumas situações, demonstra vacilar em suas ideias sobre o que é belo, o que nos leva a crer que um trabalho pedagógico que proponha um olhar positivo para a identidade negra pode colaborar para uma identificação positiva das características da raça negra.

Episódio: Eu gosto do meu cacheado.

Marcação temporal: Os cabelos de Lelê 01:17, 82- 01:19, 42 Duração: 2 segs.

Contexto: Se mantém o contexto anterior. Início do episódio:

Zulaine com cara séria olha de Luíza em direção à pesquisadora e diz: Eu

gosto cacheado. E olha em direção a Moranguinho. Nesse instante a pesquisadora

volta- se para a câmera. Moranguinho diz: Eu também gosto de cacheado.

Desejamos destacar com o episódio descrito acima a posição de Zulaine e Moranguinho. Essas crianças demonstram a valorização de suas características físicas, no caso o seu cabelo cacheado. Isso é evidenciado quando afirmam "Eu gosto cacheado" (fala de Zulaine sobre o qual cabelo ela gosta) e "Eu também gosto de cacheado". (Moranguinho). Com a afirmação dessas meninas, podemos inferir que elas ainda não têm cristalizado ideias preconceituosas sobre uma beleza atrelada a ter características brancas, o que só nos leva a considerar a importância da escola como um espaço que pode favorecer a construção positiva acerca da identidade negra.

Nos episódios vídeográficos descritos e nos desenhos é possível perceber que as crianças vivenciam em suas vivências cotidianas situações em que ressaltam e valorizam uma cultura branca eurocêntrica e desvalorizam a estética negra, tal como indicam autores como Bento (2002), Cavalleiro (2000) e Gomes(2002b). Inclusive, a escola é, muitas vezes, um desses espaços como indica Cavalleiro (2000), Oliveira (2004), Trinidad (2011), entre outros, pois é um espaço em que se compartilha valores, sentimentos e preconceitos de toda natureza.

O corpo precisa ser considerado pelas instituições educacionais, pois, como coloca Gomes (2002b, 2006) e o próprio Wallon, corpo e trajetória escolar estão interligadas, pois o corpo é o meio com o qual nos relacionamos com o mundo. As

representações sociais sobre as pessoas, como a questão da raça, são aplicadas ao corpo. No corpo, segundo a autora, estão interligados os aspectos biológicos (como a fome, o sono, o sexo), os da materialidade e os das representações. E a cultura atuaria nesse corpo ditando normas a partir de castigos e recompensas que terão como função adequar esse corpo ao que se é tido como padrão. E o corpo negro e o cabelo negro funcionariam como marcas identitárias que definem um lugar para os indivíduos.

Assim, crianças que participaram dessa pesquisa parecem vivenciar essa questão do cabelo e do corpo negro de uma maneira negativa. Por isso, a escola, espaço de vivência dessas crianças, não pode desconsiderar a necessidade de um trabalho pedagógico voltado para a estética negra de maneira positiva. Isso poderá contribuir para que a criança negra possa construir uma imagem positiva de si, como a que é cantada pela Mc Soffia, uma criança negra de 11 anos de idade que diz:

"Menina pretinha, exótica não é linda. Você não é bonitinha. Você é uma rainha" (MC SOFFIA, 11 anos).

No documento Download/Open (páginas 122-125)