2.3 A ACADEMIA RIO-GRANDENSE DE LETRAS
3.2.1.1 O empreendedor e a Academia Rio-Grandense de Letras
Olinto Olímpio de Oliveira não foi o escritor ou poeta mais importante de seu tempo. Sua colaboração para com a representante das letras rio- grandenses advém de seu espírito empreendedor e percepção aguçada das necessidades de seu tempo.
Muitos anos antes, em 1804, outra importante personalidade rio- grandense fez uma primeira tentativa para que fossem instauradas as instituições que, anos mais tarde, seriam fundadas por Olinto de Oliveira. Em uma das salas do Palácio de Barro, sede do governo da Província que precedeu o atual Palácio Piratini, localizado na Praça da Matriz no centro de Porto Alegre, o então governador Paulo José da Silva Gama, responsável pela construção do primeiro prédio da Santa Casa de Misericórdia, promoveu, no dia 21 de janeiro, um encontro com os homens mais influentes da cidade122.
O presidente da Província enfatizou aos presentes que o progresso irradiava-se em diversas áreas, principalmente no âmbito político. Para que o crescimento de Porto Alegre continuasse, a população necessitava que outros setores também obtivessem espaço e, para isso, foram propostas as inaugurações de um teatro, uma casa de bailes e festas e um clube de letras. A
121 Atualmente, o Instituto de Artes é uma unidade de ensino da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, a UFRGS. Sua sede localiza-se na rua Senhor dos Passos, 248, em Porto Alegre.
122 DAMASCENO, Athos. Sociedades literárias em Porto Alegre no século XIX. Fundamentos da cultura rio-grandense (Quinta série). Porto Alegre: UFRGS, 1962. p. 51-52.
iniciativa, porém, não obteve êxito, já que a estruturação desses locais só ocorreu anos depois.
Após esse primeiro momento, sucessivas tentativas foram realizadas para erguer um clube dedicado às letras. Sessenta e quatro anos depois, em 18 de junho de 1868, o sonho do governador Paulo Gama materializou-se com a inauguração da Sociedade do Partenon Literário, entidade com caráter societário e inspiração para a primeira academia de letras do Rio Grande do Sul.
Se Gama foi o semeador da fermentação cultural ocorrida no final do século XIX, Olinto de Oliveira, com a colaboração de seus contemporâneos, foi quem efetivamente implementou algumas das mais importantes sociedades do período e que persistem até hoje. Mesmo contra as opiniões adversas, que não aprovavam um médico amante da música e da literatura, Olinto resistiu, pois acreditava que todas as formas de expressão, fossem científicas ou artísticas, mereciam espaço. Por isso, em um primeiro momento, cedeu sua casa como espaço para apreciação e discussão.
Seguiu-se a organização de entidades voltadas à Medicina, à música e às letras. No âmbito literário, com a colaboração de seus contemporâneos, criou, em 1901, a Academia Rio-Grandense de Letras, da qual foi sócio- fundador e o primeiro presidente. Durante as sessões preparatórias, o acadêmico Aurélio de Bittencourt foi reconhecido como presidente da futura entidade, porém, na inauguração da entidade Oliveira, já figurava na presidência.
Além de ser iniciador das atividades acadêmicas e presidente da agremiação, a colaboração de Olinto foi importante para a edificação de algumas das normas que fazem parte até hoje do estatuto da Academia Rio- Grandense de Letras. Dentre as iniciativas que permaneceram merece destaque a edição de uma revista, meio de divulgação, ainda hoje, dos trabalhos dos agremiados. Apesar de a primeira edição do periódico vir a público apenas em 1910, a ideia havia surgido anos antes, sob a presidência do pediatra. Na primeira reunião preparatória123 organizou a relação dos vinte e cinco a trinta nomes que poderiam ser membros efetivos. Também ficaram
definidas duas comissões, uma, responsável pelos detalhes que ainda faltavam para a constituição definitiva da entidade e outra por comunicar aos nomes selecionados a possibilidade de comporem a associação.
No segundo encontro124, o qual antecedeu o ato fundacional, ficou definido que a instituição seria acessível não só aos nascidos no Rio Grande do Sul, mas também a brasileiros natos ou naturalizados que, por sua dedicação aos temas gaúchos e por reconhecido valor literário, merecessem a insígnia da entidade. Essa decisão, tomada conjuntamente em 1901, faz parte das atuais normas da instituição, da mesma forma que os objetivos de promover e impulsionar o desenvolvimento da literatura rio-grandense, ocupando-se das suas história e biografia está em vigor.
Foram definidos também aspectos importantes relacionados ao posicionamento social da Academia e da organização de seus sócios. A única preocupação da instituição seria a literatura e cultura rio-grandense, devendo a mesma manter-se alheia a lutas ou disputas de outra ordem, principalmente as políticas ou religiosas, não impedindo, porém, que seus membros tivessem liberdade de pensamento em seus trabalhos. Tal posicionamento, porém, não foi posto em prática uma vez que, pouco tempo depois, divergências políticas fariam com que a Academia entrasse em recesso do qual só saiu em 1910.
Durante esses primeiros momentos, ficou definido que os sócio- fundadores poderiam escolher os patronos de suas cadeiras dentre os literatos rio-grandenses já falecidos. Ainda que os eleitos naquele período não sejam os adotados atualmente, o modelo de organização persistiu, ou seja, cada cadeira homenageia um nome da literatura do Rio Grande.
Olinto de Oliveira, além de fundar e ser o primeiro presidente da Academia Rio-Grandense de Letras, foi o sedimentador de importantes iniciativas estatutárias. Seu espírito empreendedor e a vocação para a organização de sociedades foram reconhecidos em seu tempo e pelos que hoje compõem as instituições que tiveram início pelas suas mãos. O legado e as ideias atemporais permaneceram, fazendo com que a Academia Rio- Grandense de Letras seja conhecida como “a casa de Olinto de Oliveira”.