4.3 O CHAMADO DO AMOR: A DISPONIBILIDADE DO ESTUDANTE
4.3.1 O encantamento com a vida do morador: disponibilidade para a
Passada a fase inicial de inserção no Projeto, os estudantes entram em uma etapa seguinte, que vai repercutir profundamente em suas atitudes e posturas como profissionais. Nessa etapa, eles vivenciam um processo de aproximação mais intensa com os moradores, com o Projeto e com a realidade da comunidade, que vão apresentando situações propiciadoras de mudanças de valores, atitudes e motivações para suas vidas, através da construção de vínculos e da vivência do encontro autêntico experimentado nas relações estabelecidas.
O vínculo aqui mencionado inicia-se com o encantamento dos estudantes ao se depararem com a criatividade das pessoas do mundo popular, com o tratamento carinhoso que recebem dos moradores, com o fascínio despertado frente à diversidade de trajetórias de vida existentes naquela comunidade e a partir dos desafios teóricos colocados pelas situações vivenciadas e seus consequentes aprendizados, pela gratidão das famílias e pela amizade e alegria experimentadas no processo de trabalho. Trata-se de um vínculo que vai sendo construído pelos acontecimentos e pela relação estabelecida na convivência cotidiana. Gradativamente, esse vínculo vai se aprofundando, mesmo em situações de dificuldade, ingratidão, tensão, conflito e frustração que surgem, criando períodos mais áridos na relação. Alguns dos estudantes desanimam, mas outros se descobrem vinculados afetivamente para além das emoções presentes. Em seu processo e evolução, vai se desenvolvendo um vínculo mais visceral e mais atávico que aproxima os estudantes de um compromisso não apenas com os moradores acompanhados, mas também com as classes populares (BATISTA, 2012). Nesse estágio de maior profundidade na relação, esse vínculo se caracteriza por um encontro profundo (encontro autêntico), permeado pelo sentimento do amor, no seu sentido mais amplo. O encontro autêntico é uma experiência descrita por Martin Buber (1974) como aquela que, sendo denominada pela relação EU-TU, envolve o reconhecimento e a afirmação da alteridade e a reciprocidade dos sujeitos em relação. Acontece na atualidade da presença, da contemplação do outro e permeada pelo amor, não pode ser descritível, nominável, classificável. E por ser atualidade, não pode ser prevista ou programada. Esse tipo de encontro, quando acontece, é gerador de transformações significativas em ambos os sujeitos envolvidos.
É importante ressaltar que nem todos os estudantes alcançam essa experiência do encontro autêntico. Existe uma heterogeneidade nas experiências que vivem. Eles vivenciam o encontro de forma diferenciada, alguns, em um nível mais superficial da relação, e outros chegando aos níveis mais profundos, como o do encontro com o numinoso (LELOUP, 2009, p. 19). O encontro no nível do numinoso pode ser referido como o profundamente amoroso e significativo entre sujeitos e que envolve o encontro com nossa realidade verdadeira que é fascinante e, ao mesmo tempo, amedronta-nos, pois questiona o nosso modo habitual de vermos a vida e nossa consciência. Esse momento pode acontecer através “do encontro de um espírito com outro espírito, de um coração com outro coração”.
Nesse processo de construção do vínculo, o estudante vai percebendo a necessidade de encontrar caminhos que proporcionem novas formas de compreensão da vida e do comportamento do morador, buscando valorizar os conhecimentos advindos deles, com a
criação de estratégias de aproximação que possibilitem alcançar uma relação dialógica, tal como propunha Freire (2005). A relação assim enfatizada, estando comprometida com a libertação dos oprimidos e com a transformação da realidade social, deve se dar na horizontalidade do diálogo entre sujeitos que se reconhecem e se respeitam como alteridades, permeada pelo amor, pela fé na vocação de “ser mais” do outro, pela esperança, pela humildade, pela comunhão entre os sujeitos, pela criticidade e a problematização da realidade.
Nessa fase, os estudantes demonstram a abertura e a disposição na construção de uma identificação com as famílias. A construção do vínculo acontece a partir do contato com um mundo diferente para eles - o mundo comunitário – que eles não conheciam muito bem nem tinham experiência anterior. Eles se inserem em uma realidade diversa do seu contexto de origem, em que precisam, realmente, aprender a lidar com toda a novidade inusitada, representada por essa inserção. Seus hábitos, costumes, cultura, comportamento e percepção de mundo, geralmente, são muito diferentes dos vividos pelos moradores, e este é seu primeiro grande desafio: a compreensão da lógica de vida do morador. Valla (2006) fala sobre essa necessidade de todas as pessoas que decidem entrar no mundo comunitário para dar apoio ou acompanhamento sistemático, de se abrir para o aprendizado e respeito das diversas formas de compreensão da vida e de se comportar das pessoas pobres. Para o estudante, esse é um mundo fascinante e, ao mesmo tempo estranho, que ele vai adentrando, paulatinamente, na convivência com a família visitada. O estranhamento vai desde o ambiente no qual se insere os moradores, até a própria figura do morador.
Numa reunião grupão, alguns estudantes relataram esse processo de construção do vínculo com as famílias, relacionando-o ao primeiro desafio de quebrar as barreiras das diferenças, através do diálogo com os moradores. E o primeiro movimento, segundo os estudantes, é o de aprender a escutar o morador e tentar compreender sua lógica de ver o mundo e a vida. Esse aprendizado é fundamental diante de muitas ideias pré-concebidas aprendidas, muitas vezes, dentro de seus cursos da área da saúde, de que o morador não tem condições de avaliar e escolher o melhor ou não para si mesmo, em relação a sua saúde, e por serem considerados ignorantes e sem conhecimentos adequados para melhorar sua qualidade de vida. Assim, orientados pelos princípios da Educação Popular, eles apontaram a importância de se valorizarem os conhecimentos dos moradores, relacionados aos conhecimentos trazidos por eles, estudantes universitários. Inclusive, trabalhando com esses sujeitos, a ideia de valorização de seu conhecimento cultural e tradicional, e não somente a percepção de que os estudantes detêm o conhecimento, pois representariam o saber universitário e, portanto, o saber da ciência.
Nessa perspectiva, a primeira barreira a ser superada é a de tornar o diálogo igualitário em termos de compartilhamento de conhecimentos. Os estudantes mencionaram, ainda, ser preciso sair do conceito no qual os moradores são carentes e necessitados, que precisam ser auxiliados, por não conseguirem se manter sozinhos, pelas condições em que vivem.
Um estudante do Curso de Fisioterapia, de uma faculdade particular, expressou, nessa reunião, a necessidade de enxergar a potência existente nesses sujeitos, durante as visitas e, a partir dessa potência, dialogar para encontrar soluções para as demandas. Outro, do Curso Técnico de Enfermagem, completou a fala do colega, afirmando ser necessário levar o estímulo como forma de apoio aos moradores, e que ele havia aprendido isso no convívio com as famílias que ele visitava. Mencionou que dar uma palavra de apoio e atenção melhorava o entrosamento com os moradores. Mais um deles falou sobre a importância de ajudar o outro, o morador, a pensar sobre suas escolhas de vida, sendo, o estudante, essa pessoa que escuta com carinho e atenção as suas colocações. Esse processo demonstra o esforço empreendido por eles, de busca por estratégias de aproximação que conduziam a uma abertura ao diálogo e à escuta. Essa postura acolhedora pode ser percebida, ainda, no seguinte depoimento de uma estudante de Psicologia sobre sua convivência com as famílias. “É preciso se permitir viver experiências transformadoras a partir dos vínculos criados com as pessoas, com as famílias e os grupos comunitários que, apesar da aparência precária, são cheios de garra, determinação, criatividade e percepções sensíveis” (PEIXOTO, 2011, p. 91).
É importante lembrar que essa aproximação inicial do estudante com a família ainda não pode ser compreendida como uma relação dialógica, pois, nesse estágio, é necessária a construção da confiança entre eles, condição fundamental para embasar o diálogo genuíno entre o estudante e o morador, como bem refere este depoimento de uma estudante de Fisioterapia sobre seu envolvimento com as famílias da comunidade: “Passei a ver como suas casas bem simples são provas de vitórias conquistadas com suor e persistência. Mas, para isso, foi preciso me vincular a elas e me comprometer por meses e meses. Só com o tempo e a confiança vão caindo muitas cortinas que encobrem as realidades mais delicadas e até mesmo pouco reveladas” (CARVALHO, 2011, p. 131). Essa disposição e abertura à compreensão do outro possibilita ao estudante conhecer mais profundamente a realidade e as potencialidades presentes e pulsantes na comunidade. Ela compreendeu a necessidade de se vincular por meses a fio, até poder ter contato, pela via da confiança, com as questões mais significativas e delicadas dos moradores. Essa aprendizagem levou-a a novas percepções de cuidado com o outro.
O aprofundamento do vínculo aqui enfatizado aconteceu para os estudantes e os moradores, permeado por uma relação dialógica, o que possibilitou novos aprendizados para ambos. Essa relação dialógica, numa perspectiva freireana, se dá por meio de um encontro entre os homens, mediatizados pelo mundo, para a sua pronúncia, em que o elemento fundamental dessa relação é a presença do amor. “Não há diálogo, porém, se não há um profundo amor ao mundo e aos homens. Não é possível a pronúncia do mundo, que é um ato de criação e recriação, se não há amor que a infunda”. Por isso, o amor, como o fundamento do diálogo, ele é, em si, também diálogo (FREIRE, 2005, pp. 91-92).
Vasconcelos (2013) fala sobre a complexidade dessa reflexão a respeito do amor. De um lado, ele esclarece que o amor, como sentimento, pode ser considerado simples de ser compreendido, por ser parte da realidade existencial universal. Contudo, como conceito, encontram-se algumas dificuldades em defini-lo, pois o conceito de amor é considerado algo confuso e de significado teórico pouco preciso, principalmente por assumir diferentes formas no cotidiano da vida humana. Para esse autor, o amor é percebido como um vínculo afetivo intenso e profundo entre as pessoas, a ponto de reorientar, a partir do momento em que se estabelece a relação entre elas. O que o diferencia de outros vínculos afetivos é a intensidade com que acontece, pois dinâmicas inconscientes são fortalecidas, ampliando-se para além do controle da vontade consciente. Dessa maneira, o agir e a consciência das pessoas envolvidas na relação são tomados por um enlevo afetivo, propiciando formas de tratamento acolhedoras e incentivando a compreensão mútua dos envolvidos na relação e a aceitação das suas diferenças. Aparece, nesse contexto amoroso, um forte sentimento de reciprocidade e de união de interesses, propósitos, necessidades e emoções. Assim configurada, a relação passa a se basear em compromissos regidos mais pela emoção do que pela vontade racional de cumprimento de algum dever, com os sujeitos sofrendo com as tristezas e contentando-se com as alegrias da outra pessoa. Então, o amor, desde o instante em que se instala na relação, torna-se um importante elemento estruturante do sentido e da motivação que as pessoas dão às suas vidas, sendo uma experiência, ao mesmo tempo, espontânea, mas também intencionalmente cultivada. É pela disposição e abertura da vontade consciente que se criam condições para um aprofundamento da dinâmica de envolvimento emocional, pela qual o sentimento amoroso é alimentado e se sedimenta (VASCONCELOS, 2013).
Nessa concepção, no processo de construção desse diálogo amoroso entre o estudante e o morador, o educando vai sentindo-se, progressivamente, tocado profundamente pelo outro e ligado a ele, abrindo-se ao processo intuitivo de mobilização para mudanças nos valores sobre os modos de cuidado, sentimentos, intuições e sensibilidades mais profundos, com a
necessidade de doação e compromisso. Eles se permitem vivenciar essa disponibilidade para uma relação mais dialógica, começando a vislumbrar várias possibilidades de aprendizados advindas desse vínculo com as famílias, como podemos perceber no exemplo de uma estudante do Curso Técnico de Enfermagem, ao relatar suas impressões relacionadas a uma das famílias que visitava, compreendendo e valorizando o significado dos momentos de diálogo que vivenciou junto a uma moradora com a qual tinha forte ligação afetiva. “Quando chego a sua casa, chamando: Dona ‘R’!! Ela, lá de dentro (...), responde: ‘Oi amor, já tô indo!!’. A partir dali, entramos em seu mundo e em sua realidade que, por alguns minutos ou até horas, passa a ser a nossa realidade também (...) Quando “D” e eu nos acomodamos em seu sofá, e ela senta no banquinho da sala e fica de frente para nós, já sei que vêm grandes histórias, não pelo volume, mas pela riqueza de detalhes” (OLIVEIRA SILVA, 2011, p.102).
Com o passar do tempo de convivência, os estudantes começam a conhecer bem mais o cotidiano da casa e os hábitos dos moradores, a manter contato intimamente com a realidade do ambiente familiar, surpreendendo-se com a potencialidade e a expressividade das pessoas visitadas, mesmo com suas limitações. Também vão tornando-se mais emocionalmente atrelados a elas, construindo sentimentos de carinho, afeto, cuidado e amizade, muitas vezes, são correspondidos, pois os moradores também se sentem ligados afetivamente a eles. Essa convivência constante de intimidade e de trocas de experiências vai germinando nos educandos novos olhares mais sutis e sensíveis, valores diferentes dos aprendidos em seus cursos sobre os modos de cuidado, como também sentimentos e intuições mais profundas, relacionados ao trabalho em saúde, como mencionado pela referida estudante neste trecho de seu depoimento: “Visitar dona ‘R’ é a oportunidade de conhecer novas histórias, valores, modos de fazer e compreender a saúde. É também um jeito de irmos treinando o manejo de nossos gestos de acolhimento e expressão” (OLIVEIRA SILVA, 2011, p.102).
Esses gestos de acolhimento referem-se ao processo de mobilização interna disponível a cada um, a partir de sua abertura e ligação autêntica com o outro de uma forma integral, em que ele se sente tocado por essa inter-relação, compreendendo a necessidade de doação e compromisso com essa relação estabelecida que é, como referido, antes de qualquer coisa, reciprocidade (BUBER, 1974). O estudante, nessa perspectiva, intuitivamente, percebe a grandiosidade da experiência vivida e busca acolher essas trocas tão significativas para ambos. Para eles, esses moradores passam a ser presenças importantes em suas vidas, como compreendem ser, também, pessoas especiais para os moradores. Ressalte-se, no entanto, que o contato com esses moradores, que se configura em uma convivência tão íntima, requer a construção de uma postura responsável e amorosa diante da vida revelada pelo outro. Por isso,
a citada estudante reflete a possibilidade de novas aprendizagens dos gestos de acolhimento e expressão e compreende que o elemento impulsionador da relação entre ela e a moradora é a forma mais aprofundada de percepção do outro, demonstrada pela moradora, e entendida como um olhar mais “espiritual”, um olhar mais profundo e imbuído de sentimentos afetuosos e acolhedores. “Dona ‘R’, mesmo sem nos enxergar com os olhos físicos, nos enxerga com os olhos espirituais. Ela se interessa em nos receber, acolher e conhecer melhor. Percebemos que se agrada e fica muito feliz com a nossa presença (...) Como isso é recompensador!!! Com ela, vou descobrindo caminhos mais profundos de lidar com as pessoas de quem cuido” (OLIVEIRA SILVA, 2011, p.102). Esse comportamento amoroso da moradora encanta a estudante e a faz ficar mais vinculada à relação, sabendo levar alegria e conforto à moradora com sua presença.
Essa percepção de o quanto são aguardados e valorizados é um dos motivos que faz com que os educandos vinculem-se mais ainda às famílias. Eles sabem que são queridos e importantes, que sua presença é significativa e acalentadora. Sabem também que são valorizados, e isso amplia a sintonia entre eles e os moradores. Essa valorização recebida pelo estudante nutre mais relação, fazendo com que o extensionista perceba a sua potência como ser humano, mesmo sem precisar se esforçar para demonstrar saberes acadêmicos e técnicos, voltados para o bem-estar do outro. Assim, começam a se conceber como futuros profissionais, construindo um olhar mais ampliado, sensível e atento em relação ao cuidado com o outro. Em uma reunião do Projeto, um estudante do Curso Técnico de Enfermagem afirmou que seu maior aprendizado foi descobrir o quanto ele era importante para as famílias e perceber essa “importância de ser importante” para sua vida profissional. Dessa maneira, os estudantes sentem-se recompensados por ser também alvos desses sentimentos fraternais e, nutridos por eles, descobrirem outros caminhos no processo de cuidado, como a escuta atenta e carinhosa, o interesse autêntico pelo outro e o compartilhar de experiências significativas entre eles.