4 GIRO DESCOLONIAL E NOVO CONSTITUCIONALISMO LATINO-
4.1 O encobrimento dos outros e a colonialidade
Não pretendemos colocar toda a discussão do novo constitucionalismo e do pensamento descolonial em um mesmo patamar. Ou afirmar a utilização teórica deles na feitura das novas constituições, todavia, concordamos com Fernanda Bragato e Natalia Castilho (2014b, p. 11) e Alejandro Médici (2013, p. 262) na utilização do pensamento descolonial para fundamentação do novo constitucionalismo latino-americano. E o novo constitucionalismo, mormente, as mais recentes constituições enquanto resposta e instrumento para a des-colonização ainda em des- construção.
Neste capítulo será desenvolvida a crítica à dominação colonial e a construção de outras epistemologias válidas que não as eurocêntricas. Rejeitamos os mecanismos classificatórios e lineares da Europa enquanto luz para as demais civilizações.
Primeiramente, é de fundamental importância compreender a forma de dominação colonial dos povos de Abya Ayla, pelos europeus, é necessário compreender o que foi o colonialismo e a forma pela qual se deu a dominação colonial dos povos nativos da América, pelos europeus, por meio da apropriação e do controle de todos os recursos pelo capitalismo imperialista e como se organizou a política na divisão do planeta, desde o início da Modernidade. E, nesse contexto, como os meios de comunicação contribuíram para a dominação cultural dos colonizados, destacando reprodução ao empreendimento colonial.
Conforme já demonstramos anteriormente, o pressuposto do grupo modernidade/colonialidade é a de que a colonialidade é constitutiva da modernidade e não derivada. Logo, sem colonialidade não há modernidade e vice-versa, como duas faces da mesma
moeda, na mesma medida em que se constitui o eu/outros, civilizados/bárbaros25 e demais categorias que inferiorizam os diferentes. Dessa maneira, propomos essa leitura desconstrutiva da modernidade, com enfoque na colonialidade e na subalternização cultural e epistêmica da América Latina. Um olhar diferenciado sobre a modernidade, o eurocentrismo e a colonialidade é fundamental para a crítica à uniformização e à “pasteurização” dos meios de comunicação latino- americanos e o ocultamento das identidades outras, bem como, o controle do capital na radiodifusão e a necessidade de uma regulação democrática emancipatória dos meios de comunicação, na qual seja posta em prática visibilização dos sujeitos ocultados.
Podemos definir o pensamento descolonial como pensamento crítico da modernidade, vista como um fenômeno ambíguo cuja outra face é a colonialidade. Esse coletivo de acadêmicos, predominantemente latino-americanos, busca visibilizar os efeitos estruturantes da colonidade, como também considera a colonidade como elemento constitutivo da modernidade (GROSFOGUEL; MIGNOLO,2008, p.32).
No tocante as intenções, Arturo Escobar explica que:
Isso não significa que o trabalho deste grupo é apenas de interesse para as supostamente universais ciências sociais e humanas, mas que o grupo pretende intervir de forma decisiva nos discursos da ciência moderna para criar outro espaço para a produção de conhecimento, uma forma distinta de pensamento, “um paradigma outro”, a própria possibilidade de falar sobre “mundos e conhecimentos de outra maneira” (ESCOBAR, 2003, p. 51).
Assim, o movimento não possui intenção de consolidar-se como um novo paradigma teórico dentro da academia, e sim questionar os critérios epistêmicos da produção do conhecimento associado ao eurocentrismo e à modernidade (RESTREPO; ROJAS, 2009, p. 35). Todavia, enquanto uma nova perspectiva, um olhar diferenciado, local, sem a pretensão de universalizar, uma vez que pretende responder a anseios e necessidades locais.
Assim como o novo constitucionalismo latino-americano, enquanto movimento constitucional tenta responder anseios da sociedade, dos movimentos sociais, numa estrutura
25
A utilização da “/” une as categorias e ,ao mesmo tempo, as separa. Assim, tais categorias não podem ser pensadas sem as outras e que, são oriundas do mesmo processo. O mesmo ocorre com quando nos referimos a descolonialidade, nos aludimos a modernidade/colonialidade/descolonialidade, sendo ela uma atuação de enfrentamento à retórica da modernidade e á lógica da colonialidade (GROSFOGUEL; MIGNOLO, 2008, p. 34).
local, não pretendemos o colocar enquanto modelo ideal universal, mas como modelo que funciona para a realidade local, na qual busca des-ocultar sujeitos negados durante todo o processo histórico em níveis políticos, jurídicos, econômicos, sociais e culturais.
O encobrimento26 do “novo mundo” provocou um choque na civilização europeia em razão do contato com a diversidade cultural, a formação social e as tradições dos povos originários. Houve, deliberadamente, um processo de imposição de um modelo reducionista e uniformizador que converteu os povos originários em inferiores e subordinados ao poder dos colonizadores. Em 1492, quando os europeus desembarcaram no continente latinoamericano, os habitantes daqui não sabiam que tal acontecimento pesaria tanto em suas histórias. Foi a partir desse momento que a Abya Ayla27 começou a ter um novo começo histórico, ao menos na concepção eurocêntrica.
A exploração das colônias nas terras então “descobertas28” latino-americanas se sustentava no trabalho escravo das mais diversas etnias de indígenas que nestes territórios habitavam e do elevado contingente de negros pertencentes a diferentes comunidades africanas que foram sequestrados do seu continente. Culminou em um genócidio acrescido de um etnocídio, como nenhum outro conhecido na história mundial, bem como a imposição de um modelo de cultura, produção, reprodução, desenvolvimento, a partir da ótica do colonizador.
O que ocorreu foi um verdadeiro genocídio das populações originárias da América Latina ou o compulsório branqueamento, originando-se, portanto, essa relação assimétrica que, conforme Boaventura de Sousa Santos (2006, p. 81) demonstra, uma clara relação de desigualdade entre poderes, saberes e seres e que enseja a apropriação e a compulsória modificação. “Toda descoberta tem, assim, algo de imperial, uma acção de controle e submissão”
26Sempre que houve referência a chegada dos europeus no continente, nos utilizaremos da nomenclatura encobrimento, por acreditarmos que não houve descobrimento e sim (en)cobrimento a partir da inferiorização, assimilação dos que aqui habitavam (DUSSEL, 1993, p. 8).
27 Os kunas, muito antes da chegada dos europeus, chamavam este território de Abya Yala, que significa “terra madura, terra mãe grande, terra de sangue (DUSSEL, 1993, p. 93). No mesmo Sentido, Mignolo “Así, mientras que la ‘latinidad’ fue el sesgo identitario de la burguesía y de la intelectualidad criollo-mestiza e inmigrante, ‘Abya Yala’, cuyo significado es ‘tierra en plena madurez’, es un término empleado por los indios Cuna de Panamá, para nombrar lo que en otro registro se denominó Indias Occidenta- les primero y América después. El líder indígena Takir Mamani sugirió que todos los movimientos indígenas lo utilicen tanto en sus documentos como em sus declaraciones orales” (MIGNOLO, 2001, p. 180).
28 Defendemos que não houve descobrimento, vez que as terras já existiam. O que ocorreu na verdade, foi um processo de encobrimento.
(SOUSA SANTOS, 2006, p. 182). Ocorre dentro desse dualismo uma relação de inferioridade, e com diversos mecanismos: seja pela escravidão, seja por instrumentos jurídico-políticos ou culturais.
Houve somente duas opções para os povos originários: assimilarem a cultura europeia ou seres subjugados, na realidade, mesmo assumindo a cultura europeia continuaram sendo inferiorizados. Tezvetan Todorov, analisando a chegada de Colombo demonstra que:
Ou ele pensa que os índios [...] são seres completamente humanos com os mesmos direitos que ele, e aí considera-os não somente iguais, mas idênticos, e este comportamento desemboca no assimilacionismo, na projeção de seus próprios valores sobre os outros, ou então parte da diferença, que é imediatamente traduzida em termos de superioridade e inferioridade (no caso, obviamente, são os índios os inferiores): recusa a existência de uma substância humana realmente outra, que possa não ser meramente um estado imperfeito de si mesmo (TODOROV, 2003, p. 58).
Assim, a primeira ordem cultural mundial (DUSSEL, 2005, p. 58) ocorreu com o encobrimento da América em 1492. Não apenas para importar matéria prima, mão de obra de graça e a divisão do trabalho, como também em um viés muito forte de significantes e dominações interiores e imperceptíveis, tais como no universo da epistême, da moral, da política, do direito e da cultura, na medida em que se inicia o processo de inferiorização do não-europeu e o não reconhecimento. “De maneira que 1492 será o momento de nascimento da modernidade enquanto conceito, o momento concreto da origem de um mito de violência sacrificial muito particular, e, ao mesmo tempo, de um processo de en-cobrimento do não europeu” (DUSSEL, 1993, p. 8).
Para grande parte dos teóricos da modernidade todas as culturas e sociedades do mundo são reduzidas a uma manifestação da história e cultura europeia. Entretanto, as histórias são “outras” e partem do ponto de vista e olhar de quem a conta. A modernidade tem duas faces. O chamado progresso, desenvolvimento, avanço da modernidade é construído a partir da violência, inferiorização, genocídio, expropriação da colonialidade (GROSFOGUEL; MIGNOLO, 2008, p. 31).
Assim, há a criação de centros homogeneizadores de comportamento e a necessidade da invenção de mecanismos para “subordinação” e obediência, dito isto, encontra-se como criações
da modernidade e da soberania estatal para manutenção do capitalismo: os bancos, a moeda nacional, o exército nacional, o idioma oficial e centros dissipadores de um único modelo de vida, tais como, os meios de comunicação. Busca-se, portanto, a implantação de uma estrutura monista e homogênea.
A retórica da modernidade e seus projetos universais (cristianização, civilização, modernização, desenvolvimento, democracia), perpetuam-se tão somente devido a lógica da colonialidade (dominação, controle, exploração, etc.) (MIGNOLO, 2008, p. 293).
Observamos, assim, uma visão histórica do mundo que trata o ser do outro em ser de si mesmo. Nessa visão, ao se fazer apologia da modernidade, entende-se que todos os avanços que ela representa constituíram o resultado natural de um próprio ser europeu, sem levar em consideração a América ou a África e a Ásia é reconhecida em como primórdios da história, mas permanece em um estado infantil e primitivo.
Enrique Dussel (1993, p.13) considera a necessidade do entendimento mais amplo acerca da modernidade. A “modernidade aparece quando a Europa se afirma como ‘centro’ de uma História Mundial que inaugura, e por isso a periferia é a parte de sua própria definição”. (DUSSEL, 1993, p. 13). Em outras palavras, só existe a criação desse “centro” porque houve uma denominação dos diferentes enquanto periferia, enquanto selvagens.
O modelo estatal dominante é produto de um processo colonizador que não apenas resumia-se a exploração do capital, mas também da imposição de uma cultura. Buscou-se adestrar seres humanos a certas práticas e valores a fim de assegurar a coexistência social orientada segundo padrões externos. O projeto moderno colonizador teve um sentido além de explorar a terra, o de uniformizar os colonizados.
A totalidade ontológica produz a lógica desde o mesmo e isto posto, exerga o outro a partir do próprio horizonte, e não em sua alteridade. O outro como outro é nada (o índio, o negro, a mulher - em suma, os subalternos são nada enquanto postos como ele mesmo). Assim:
A conquista da América Latina, a escravidão da África e sua colonização da mesma forma que a da Ásia, é a expansão dialético-dominadora do ‘mesmo’, que assassina ‘o outro’ e o totaliza no mesmo. Este processo dialético-ontológico tão enorme na história humana simplesmente passou despercebido à ideologia
das ideologias (mais ainda quando pretende ser a crítica das ideologias): filosofia moderna e contemporânea europeia (DUSSEL, 1977, p. 58).
O autor considera que os intelectuais do “centro” se esquecem da “periferia” e reproduzem a “falácia eurocêntrica”, encobrindo a origem da modernidade e seu mito, que poderia ser descrito por meio dos seguintes momentos:
Como primeiro corolário: A dominação que a Europa exerce sobre outras culturas é uma ação pedagógica ou uma violência necessária (guerra justa) e é justificada por ser uma obra civilizadora ou modernizadora; também estão justificados eventuais sofrimentos que possam padecer os membros de outras culturas, já que são custos necessários do processo civilizador, e pagamento de uma “imaturidade culpável”. Como segundo corolário: O conquistador ou o europeu não só é inocente, mas meritório, quando exerce tal ação pedagógica ou violência necessária. Como terceiro corolário: As vítimas conquistadas são “culpadas” também de sua própria conquista, da violência que se exerce contra elas, de sua vitimação, já que podiam e deviam ter “saído” da barbárie voluntariamente sem obrigar ou exigir o uso da força por parte dos conquistadores ou vitimários; é por isso que os referidos povos subdesenvolvidos se tornam duplamente culpados e irracionais quando se rebelam contra essa ação emancipadora – conquistadora (DUSSEL, 1993, p. 78).
Para Enrique Dussel (2005, pp. 61-62) a Modernidade pode ser compreendida em duas fases. Primeira e segunda modernidade, na qual a primeira inicia-se com o “descobrimento” (en)cobrimento do outro no período da colonização/invasão.
Falar de Europa como o começo, centro e fim da História Mundial – como era a opinião de Hegel – era cair numa miopia eurocêntrica. A Europa Ocidental não era o “centro”, nem sua história nunca fora o centro da história. Será preciso esperar por 1492 para que sua centralidade empírica constitua as outras civilizações como sua ‘periferia’. Este fato da ‘saída’ da Europa Ocidental dos estreitos limites dentro dos quais o mundo muçulmano a prendera constitui, em nossa opinião o nascimento da Modernidade (DUSSEL, 1993, p.113).
A “modernidade”, como novo “paradigma” de vida cotidiana, de compreensão da história, da ciência, da religião, surge ao final do século XV e com a conquista do Atlântico. O século XVII já é fruto do século XVI; Holanda, França e Inglaterra representam o desenvolvimento posterior no horizonte aberto por Portugal e Espanha. A América Latina entra na Modernidade (muito antes que a América do Norte) como a “outra face”, dominada, explorada, encoberta (DUSSEL, 2005, p. 64).
O que Enrique Dussel (2005, p. 62) chama de “segunda modernidade” é a única modernidade que a Europa reconhece. Nessa segunda fase da “Modernidade”, a da Revolução
Industrial do século XVIII e do Iluminismo, os europeus aprofundam e ampliam o horizonte cujo início está no século XV. A Inglaterra substitui a Espanha como potência hegemônica até 1945, e tem o comando da Europa Moderna e da História Mundial.
A primeira modernidade não só antecede à segunda, mas também é sua condição necessária para existência e desenvolvimento dela. Antes de ser articulado o ego cogito cartesiano29 (penso, logo, existo), produziu-se o ego conquiro (conquisto, logo, existo). Nesse sentido, o autor afirma:
A conquista do México foi o primeiro âmbito do ego moderno. A Europa (Espanha) tinha evidente superioridade sobre as culturas Azteca, Maia, Inca etc, em especial por suas armas de ferro – presentes em todo o horizonte euro-afro- asiático. A Europa moderna, desde 1492, usará a conquista da América Latina (já que a América do Norte só entra no jogo no século XVII) como trampolim para tirar uma “vantagem comparativa” determinante com relação a suas antigas culturas antagônicas (turco-muçulmana etc.). Sua superioridade será, em grande medida, fruto da acumulação de riqueza, conhecimentos, experiência etc., que acumulará desde a conquista da América Latina (DUSSEL, 2005, p. 63).
Colonialidade foi uma categoria desenvolvida por Anibal Quijano, na qual colonialismo e colonialidade são dois conceitos relacionados, porém distintos. O colonialismo se refere a um padrão de dominação e exploração onde:
O controle da autoridade política, dos recursos de produção e do trabalho de uma população determinada possui uma diferente identidade e as suas sedes centrais estão, além disso, em outra jurisdição territorial. Porém nem sempre, nem necessariamente, implica relações racistas de poder. O colonialismo é, obviamente, mais antigo, no entanto a colonialidade provou ser, nos últimos 500 anos, mais profunda e duradoura que o colonialismo. Porém, sem duvida, foi forjada dentro deste, e mais ainda, sem ele não teria podido ser imposta à inter- subjetividade de modo tão enraizado e prolongado (QUIJANO, 2007, p. 93).
Colonialidade, portanto, não é o mesmo que colonialismo. Para o pensamento eurocêntrico, a palavra colonial remete somente ao colonialismo no seu sentido clássico, todavia, a noção de colonialidade, introduzida por Anibal Quijano, possui um sentido mais amplo e complexo. Em um primeiro momento busca tornar visível o lado obscuro da modernidade. (QUIJANO, 2010, p. 84). Uma vez que a retórica da modernidade vem sempre acompanhada
29 Descartes escreve a sua filosofia em Amsterdam justamente quando a holanda passa a ser centro do sistema- mundo (GROSFOGUEL, 2007, p. 64).
pela lógica da colonialidade, de modo que não pode haver modernidade sem colonialidade (MIGNOLO, 2008, p. 239).
Trata-se de um fenômeno histórico complexo que se estende até o nosso presente, e se refere a um padrão de poder que opera através da naturalização de hierarquias territoriais, raciais, culturais e epistêmicas que possibilitaram a reprodução das relações de dominação que não só garantiam a exploração do capital de uns seres humanos por outros em escala mundial, como também subalternizam os conhecimentos, experiências e formas de vida, vivências de quem foi dominado. E assim os faz não de maneira visível como ocorreu no período colonial, mas, com mecanismos implícitos, como o controle através da história, da produção de ciências, de institutos jurídicos e da informação.
Conforme essa postura, não haveria nada fora da modernidade, vez que todas as histórias se explicariam desde uma única experiência linear e evolutiva como padrão ideal e universal, tornando-se impensável a possibilidade de construir projetos alternativos aos que a modernidade encara. As histórias podem ser contadas de variadas maneiras (MIGNOLO, 2007, p. 17). A resposta político-epistêmica encontra-se na colonialidade, que se refere a “la subalternización del conocimiento y las culturas de los grupos oprimidos y excluidos, que necesariamente acompaña al colonialismo y que continúa hoy con la globalización” (ESCOBAR, 2005, p. 236). A colonialidade, em síntese, seria a junção da face simbólica com a face epistêmica da colonização que resiste fortemente até os dias atuais.
A “descoberta” do “novo mundo” provocou um choque na civilização europeia em razão do contato com a diversidade cultural, a formação social e as tradições dos povos americanos. Houve, deliberadamente, um processo de imposição de um modelo reducionista e uniformizador que converteu os povos originários em uma “classe” inferior e subordinada ao poder dos colonizadores.
Em síntese, observamos a necessidade de reconhecer a conquista da América e o controle do Atlântico em 1492 como pontapé inicial do pensamento moderno, antes mesmo dos pontos historicamente conhecidos como os marcos da modernidade (que Dussel chama de segunda modernidade) e a modernidade enquanto discurso universal, ou seja, que engloba não somente os espaços geopolíticos locais que o reproduzem (na Europa), mas que, por esse discurso, tem a
pretensão global e homegeneizante. A partir disso, surge o centro observador e o centro produtor de ideias, de valores, de cinema, de cultura, de moda, etc.
O lado oculto da modernidade e suas promessas universais, tais como o ideário burguês da revolução francesa “liberdade, igualdade e fraternidade”, não atendem a todos, porque a construção sobre esses conceitos não é pluri-versa (GROSFOGUEL, 2007, p.66). A liberdade burguesa não abarca a liberdade de crenças, costumes e territorialidade que eram os donos da terra quando os europeus chegaram, da mesma maneira que a igualdade, pois até pensar nos horizontes do constitucionalismo pluralista (YRIGOYEN FAJARDO, 2011, p. 127), não havia qualquer equidade no tratamento. Não negamos o lado racional, todavia, é necessário des(encobrir) a faceta que é utilizada para justificar as práticas genocidas, etnocidas e expropriatórias da conquista da América.
O hemisfério ocidental fundou o imaginário do sistema mundo moderno/colonial com base no imaginário do homem branco europeu. Assim, “o imaginário do mundo moderno/colonial não é o mesmo quando se observa desde as ideias europeias e quando se olha a partir da diferença colonial: as histórias forjadas pela colonialidade do poder nas Américas, Ásia ou África” (MIGNOLO, 2000, p. 61). Anibal Quijano desenvolve o conceito de colonialidade e da colonialidade do poder que originará a colonialidade do saber e do ser.
As relações de poder no sistema-mundo moderno/colonial levam a classificação social a partir de alguns atributos: sexo, idade, força de trabalho (QUIJANO, 2010, p. 118). Todavia, a partir do encobrimento das Américas, acrescenta-se o fenótipo. Em que pese o sexo, idade, serem características biológicas diferenciais para força de trabalho, todavia, o fenótipo “cor da pele, a forma, a cor do cabelo, dos olhos, a forma do nariz” (QUIJANO, 2010, p. 118) não possui relação com uma estrutura do indivíduo e a sua força de trabalho. Assim, a ideia de raça surge a partir das diferenças fenotípicas colonizador/colonizado e a partir dessa construção a ciência “moderna” desenvolve também supostas estruturas biológicas que diferenciam esses grupos (QUIJANO, 2005, p. 220). A ideia de raça legitimou as relações no período da conquista (QUIJANO, 2005, p. 221).
Ou seja, a diferença fenotípica do europeu/não-europeu foi utilizada para a racialização das estruturas sociais e consequente inferiorização e classificação social.
Enquanto a produção social da categoria gênero a partir do sexo é, sem dúvida, a mais antiga na história social, a produção da categoria “raça” a partir do fenótipo é relativamente recente e a sua plena incorporação na classificação dos indivíduos nas relações de poder tem apenas 500 anos, começa com a américa e a mundialização do padrão de poder capitalista (QUIJANO, 2010, p. 119).
Dentre as consequências da colonialidade do poder destacamos a expansão mundial da ideia de classificação social e a divisão em quem possui poder e quem não possui, a partir de diferenças fenotípicas e, desse modo, a atribuição do europeu enquanto raça branca e as demais raças de cor, atribuindo escalas para as colorações e sendo a raça branca superior (QUIJANO, 2010, p. 120). Como também, a divisão mundial do trabalho na qual a classificação em que:
No centro (eurocentro), a forma não só estruturalmente, mas também, a longo prazo, demograficamente dominante, da relação capital-trabalho, foi a salarial. Ou seja, a relação salarial foi, principalmente, “branca”. Na “periferia colonial”,