2 OLHAR O COTIDIANO: REFLEXÕES SOBRE O CAMPO DOS
2.1 O encontro com um campo: Estudos com o Cotidiano
Minha aproximação com o que, tempos depois, conheceria como “Estudos com o
Cotidiano” ocorre na primeira metade da década dos anos noventa de uma forma pouco
consciente e, na segunda metade, já o reconhecendo como um campo de estudo.
No início dos anos noventa, participei de um processo de formação, desenvolvido pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, destinado ao corpo de profess@res que atuavam no Programa de Educação do Centro Integrado de Educação Pública (CIEP). O desafio da formação era unir prática e teoria, sendo o percurso desenvolvido em dois momentos de atuação: uma parte da carga horária ocorre no efetivo trabalho em sala, atuando nos anos iniciais, e a outra parte, em um momento de estudo.
Durante as quatro horas diárias destinadas ao estudo, conversávamos sobre o nosso cotidiano de trabalho, discutindo as questões que atravessavam o fazer docente, e que, de certa forma, "desorganizava" a nossa rotina. Estes momentos intensos de conversa eram provocados por textos que compunham uma revista elaborada especialmente para este fim.
Refletindo sobre esta época, lembro-me de um texto, que marcou significativamente este período de formação, intitulado "Fala Português, Professora" em que, a partir das
considerações da autora32, começo, ainda de uma forma bem sutil, a perceber as múltiplas lógicas presentes no espaço escolar, em especial na sala de aula. Neste texto, a autora relata o cotidiano de uma turma em que a pergunta feita por uma aluna desconstrói, ou pelo menos, abre outros caminhos para a explicação dada pela professora sobre a pronúncia da letra s nas palavras. Sua explicação, pautada em uma regra universal, desconsidera as regionalidades e as diversas pronúncias que esta letra assume em função da sua posição na palavra. A professora descontextualiza o uso da letra, simplificando a sua aplicabilidade, apresentando a regra como uma verdade absoluta. Deixa as exceções para outro momento, sendo essas algo que apenas confirma a regra, pois as apresenta apenas como um questão semântica, retirando da explicação as questões culturais que perpassam o uso das palavras. O s, por exemplo, que o carioca pronuncia, não é o mesmo que o do baiano e do catarinense, sem falar nos bracarenses ou nos moçambicanos. Ao fazer a solicitação: “fala português, professora!” seu questionamento coloca nossas certezas em suspensão e nos provoca trazer à tona um debate que é por vezes silenciado. Foi a partir deste texto, que apresenta uma situação comum em diversas salas de aula, que sou levada a pensar sobre o cotidiano escolar como algo complexo. Reconheço-me naquele contexto descrito no texto em que um(a) alun@ desconstrói as respostas simplificadas que damos. A reflexão feita pela autora, apesar de pautar-se em autores que eu desconhecia, trazia uma íntima relação com a prática, o que tornava seus argumentos algo muito próximo a mim. Era um texto que falava diretamente das minhas angústias frente às dúvidas que as crianças apresentavam e apresentam ainda diariamente na escola, a que, muitas vezes, não conseguimos responder.
Era um texto que evidenciava os limites de um modelo de racionalidade que se legitima como universal. A elaboração teórica feita pela autora, por tomar a prática cotidiana como elemento central, era repleta de sentido. O texto também desnaturalizava o conhecimento único como verdade inquestionável, ao revelar seus limites, e, simultaneamente, apresentava outras possibilidades de respostas para a questão trazida pel@ alun@. Dei-me conta de que para viver o cotidiano da escola era necessário pensar para além das explicações simplistas que dávamos diariamente @s alun@s. Era premente pensar o conhecimento como uma construção social, conforme a autora estava provocando, mas de fato este foi só um pequeno contato com um debate sobre o cotidiano, que mais tarde iria ocupar lugar central na minha vida acadêmica.
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Na época da leitura, a autoria não marcou a minha experiência com o texto. Posteriormente, descubro ser um texto escrito pela professora Edwiges Zaccur e a sua história identitária ganha novas dimensões conforme irei indicar em outro trecho do relato.
Nesta mesma época, inicio o meu curso de Pedagogia na Universidade Federal Fluminense e, na segunda metade dos anos noventa, precisamente em 1998, curso a disciplina de Alfabetização, ministrado pela professora Teresa Esteban, quando sou apresentada ao livro
Cartas Londrinas e outros lugares de educação (GARCIA, 2001), de autoria da Professora
Regina Leite Garcia. Neste livro, a autora parte de situações cotidianas para problematizar questões centrais sobre a educação. A sua escrita é em primeira pessoa, fazendo constantemente relações entre a vida cotidiana e a teoria. O livro dava sentido a um conjunto de conceitos que eu estava há vários anos estudando na universidade e que não conseguia articular com os diversos acontecimentos da minha sala de aula. A articulação entre prática e teoria, presente no livro, também era a tônica desta disciplina, fato que marca, definitivamente, a minha caminhada acadêmica, pois defino por fazer a minha monografia sob a orientação da professora Teresa Esteban, integrante do GRUPALFA33, coordenado pela professora Regina Leite Garcia, vinculado ao campo dos estudos com o cotidiano.
Mais tarde, venho a descobrir que o texto Fala Português, Professora, que tanto havia me impactado era de autoria da professora Edwiges Zaccur, pesquisadora e professora da Universidade Federal Fluminense, vinculada ao mesmo grupo de pesquisa.
Desde essa época, assumo os estudos do cotidiano como o meu lugar, mais por uma empatia com os textos estudados do que por reconhecer a complexidade que tal campo convoca e proporciona, e isso ainda não se altera significativamente, mesmo após concluir o curso de especialização34, coordenado pelo GRUPALFA. Percebo que, nesta época, inicio aproximações teóricas, mas de forma bem modesta, pois ainda não era capaz de realizar as articulações e as aproximações teóricas que o campo exige.
No mestrado, opto pelos estudos das representações sociais, que tomam o cotidiano numa outra perspectiva, pois somente a recorrência de fatos, ideias, sentimentos são considerados relevantes para o processo de investigação. Desaparece do debate o cotidiano como algo complexo, efervescente e, desta forma, o desvio, o inesperado são negligenciados. Ou seja, afasto-me, neste momento, do que percebo ser fundamental ao estudar o cotidiano, a compreensão da complexidade como um elemento intrínseco, debate que tanto o GRUPALFA defende, mas isso também só fará sentido anos depois.
No Doutorado, volto a vincular-me ao grupo de pesquisa que outrora tanto me colocava em xeque. Foi este novo encontro com o campo do cotidiano que me lançou no desafio de pesquisar o cotidiano, indo além da mera utilização de jargões, mas com o desejo
33 GRUPALFA - Grupo de Pesquisa de Alfabetização dos alunos e alunas das classes populares 34 Curso de pós graduação Lato Sensu: Alfabetização das crianças das classes populares.
de buscar compreender o cotidiano enquanto uma construção epistemológica. Interesso-me por responder a questões simples, mas que, sem serem simplificadas, têm a possibilidade de ajudar-me a compreender a complexidade em que tal campo se encontra alicerçado. Interesso- me por saber: Como surgiram os estudos com os cotidianos? Em que contexto surgiram e com qual propósito? O que é “os estudos com o cotidiano”? Este campo pode ser considerado um referencial teórico, metodológico ou epistemológico? Quais são os seus princípios e as suas referências teóricas? É uma abordagem que serve para realizar qualquer estudo?
Entendi que para compreender a empatia, que "gratuitamente" sentia ao ler os textos dos autores deste campo, deveria buscar estas respostas, mesmo sabendo que não encontraria respostas para todas as perguntas. Compreendi que a simples busca de tentar responder a elas tinha o potencial de qualificar a minha compreensão sobre o que viria a ser os Estudos com o
Cotidiano.