ASPECTOS DO CRONOTOPO DO JOGO
2. O encontro fortuito e a inversão do camaval
O aproveitamento dessa relação da crônica de esportes com o cronotopo da praça tem ainda outros desdobramentos. Nelson traduz narrativamente o c a n ^ de jogo num plano representativo em que se pode recobrar a intensidade dramática das partidas. Além disso, utiliza-o para recuperar aquele caráter tbrtuito do encontro que acontece casualmente, na estrada ou na praça.
O encontro fortuito, regido pelo acaso, é uma tradição do romance antigo, mas se toma escasso a partir do momento em que os encontros ocorrem no salão ou na sala de visitas, onde o acesso é bem mais limitado e pré- selecionado. No jogo, times e torcidas têm um encontro pré-marcado, mas não há, a rigor, um limite sobre que tipo de pessoas lá podem de fato se encontrar.
Assim ccmo reúne em crônica, a partir dessa anq>litude do cronotopo do jogo, os dois Zés - o intelectual Zé Lins e o zé povinho, Nelson reúne também o saudosista e o moderno, a grã-fína e o torcedor de subúrbio, o Nero de cinema com os nautas camoneanos, o tempo exato das partidas cronometradas com a extra-temporalidade do sobrenatural, o elevado (veja-se suas referências: Camões, Balzac, Dickens, Shakespeare - ser ou não ser vira-
latas, eis a questão^ -, Bilac - Ora, direis, o que é um escanteio?^^ -, Eça de
^ Crônica 116. Manchete Esportiva a “ 132,31 maio 1958. '0 Crônica 96. Manchete Esportiva n.“ 108,14 dez. 1957.
Queirós) e o baixo (os palavrões de Jaguaié, o próprio futebol e seus jogadores), o santo (o Deus de Carlito Rocha - [...] não há um Deus geral, nào há um Deus
de todos, não há um Deus para todos. O que existe, sim, é o Deus de cada um, um Deus para cada um. * M e o obsceno (a cusparada metaÜsica).
Trata-se da faceta carnavalesca do texto de Nelson.
A camavalizaçâo, conceito que Bakhtin desenvolve em
Problemas da poética de Dostoiévski e em ^ cultura popular na Idade Média e no Renascimento, é a transposição para a arte do espirito do camawl. Uma
transposição dialógica, na medida em que há interrelação de linguagens, situações, posições e discursos. A titulo comparativo, a camavahzação mantém para com o dialógico a mesma relação que a normalidade mantém com o monológico.
A tônica do espirito carnavalesco - que tem profundas raizes na cultura popular - é a liberdade de papéis e a possibilidade de sua invra^o, abolindo hi0:arquias e classes sociais. No carnaval, o mendigo pode ser rei, o operário pode ser patrão, o pobre pode ser rico e vice-versa. A destronização tranporáiia do rei é um dos significados originais do carnaval.
Enquanto instância lúdica e liberadora de emoções instinti\^, o futebol se aproxima do espirito do carnaval. No inicio da sua divulgação no Brasü, também teve o dom de integrar classes sociais e diferenças raciais*^. Se se distancia dele pela presença de iima hierarquia e uma nonna - há juizes.
‘ * Crônica 98. Manchete Esportiva n.“ 111,4 jan. 1958.
■ 2 Sobre a mistura de ricos, poises, pretos e brancos no iiiteboi, ccmsuhe-se O Negro no Futebol
do Brasil, de Mario Filho, inclusive o prefkâo de Gilberto Freyre, e Negro, macumba efiitebol,
bandeiriDhas, técnicos, leia etc.-, esaa hierarquia e essa norma também parecem representar a antiga organização das tribos, com seus territórios e leis.
È certo que o iutebol chegou ao Brasil, no final do século passado, sob o signo do novo e do modemo, era um sport jogado pela elite e com íunções higienizadores para o corpo e a mente, como também é certo que ele adquiriu, na segunda metade deste séciilo, iima importante íunçâo comercial e de entretenimento, na chamada indústria cultural. Contudo, algumas idéias e imagens que se interligam no camaval também aparecem no futebol e o vinculam ao popular, notadamente no futebol tal qual é visto e relatado por Nelson.
Pode-se enumerar, entre tais imagens carnavalescas comuns ao futeboP^ ;
sl) A valorização da força vital, atualizando os mitos perenes da
natureza. O futebol representa um combate coletivo e organizado entre giupos
adversários, o gol equivalmio à conquista de algo que o adversário guarda. "Os jogadores encarnam, aliás, de modo peculiar, o traço radicalmente humano que é a possibilidade da visão ampliada graç^ ao pôr-se em pé."’'* Para Nelson, os pés, sempre calçados de chuteiras (seus personagens, aliás, nunca existem da cabeça aos pés, mas da cabeça aos sapatos^^), ligam o tempo cronometrado do jogo com o sem-tempo, o imjemoiial.
^ ^ As caracteristicas do camaval são baseadas em Bakfatin e foram (kscrítas, na maneira aqui utilizada, p<v Robert Stam, an Bakhtin: da teoria literária à cultura de massa. São Paulo: Ática,
1992. (Temas, vol. 20.) pp 46-47. l'’ AGUIAR, Flávio. Op. ó t , p. 159.
^ ^ Além de e^qnressdes onno A pátria em chuteiras, que deu noiiK à coletânea de crônicas publicada recentemente, Nelsoo usa a ex]Hessâo da cabeça aos sapatos diversas vezes, inclusive referindo-se a si mesmo. Na crônica 144, Manchete Esportiva a “ 173,14 mar. 1959, ele diz
Quando acabou a partida, eu me sentia derrotado da cabeça aos sapatos. Na peça Toda nudez será castigada, Herculano se degrada diante de Oeni beijando-lhe os sapatos. Quero aaeditar
£ o sujeito que apanha a bola, num Botaíbgo x Flamengo, parece estar chutando para a eternidade.
b) A noçào de bissexualidade. "Vencer o adversário significa possuir o estreito vão de passagem que ele guarda. O jogo se dá entre homens, e a penetração nessa passagan elástica [...] lembra a penetração em órgão génital. Os estádios estão cheios de homossexualidade latente
O Vasco lavou a Portuguesa numa banheira de Cleópatra.i8
c) A celebração do corpo grotesco e das partes inferiores do
corpo, como recusa à visão puritm a e à estética clássica e apolinea. Os pés,
que chutam a bola, são considerados a parte mais instintiva do ser humano. "Os pés rq;>reseniam a metade inferior do coipo, geralmente associada aos processos inconscientes e végétatives.
[...] o adversário põe um gol como um ovo.20
d) A imagem do mundo como eterno coroamento e descoroamento como fonte da esperança popular. O fiitebol apresenta situações que 08 sapatos smbolizam uma espécie de marco divisório c«n otempo<^etiio (k> paraíso petdid>, onde se podia natarahnentc andar descalço. O sapato demarca o retwnoinq>ossivel à mídez pura e áetemidade. Plinio Marcos, apcntado por Nelson cano seu oHitimiadOT, traz essa simbologia em
Dois perdidos numa noite suja, quando a marginalização de um dos personagens (o puro, vindo
do higar pequeno) se dá a partir ^ seu desejo pelo sapato do outro. A obseæfto de Nelson pelos sapatos tem vinculo provável com a época à que Nelsrai se re&re COTOO «üourcu^o c<»neço (k> século, em que se deu o assassinato de Pinheiro Machado, a época da Espanhola e da
Mgienizaçâo do Rio. Foi quando as pessoas f<xam óteigadas a se c^çar e a uifoanização moderna se instaura sotae o niral, envolvendo-o numa aura de passado feliz.
^^Ctòmca 131. Manchete Esportiva a ‘’ 146,6s«L 1958,
Ibidem, p. 157.
Crônica Ï09.Manchete Esportiva, n.“ 125,12 alw. 1958.
Aexplicação é de Carlos Amadeu Botelho Byington, artigo citado naQo4a 1. 20 Crônica 102. Manchete Esportiva. a ° 117,15 fev. 1958.
em que vencedores e perdedores se altemam sistematicamente, num movimento de tianstbrmaçâo permanente.
O e n ^ te é o pior resultado do mundo.21
e) O Jogo como lugar de união com a comunidade. Trata-se de
um conÊonto entre adversários em que o conflito comimitário é "admitido, exercido e subordinado a um fim pactfico"22. a seleção nacional, por exemplo, toma o brasileiro patriota e até al&betízado.
Dizem que o Brasil tem analfabetos demais. E, no entanto, vejam vocês: - a vitória final, na Copa da Suécia, operou o milagre. Se analfabetos existiam, sumiram-se na vertigem do triunfo. A partir do momento em que o rei Gustavo, da Suécia, veio apertar as mãos dos Pelés, dos Didis, todo mundo aqui sofieu uma alfabetização súbita. Sujeitos que nào sabiam se gato se escreve com "x" iam 1er a vitória no jomal. Sucedeu essa coisa sublime: - analfabetos natos e hereditários devoravam vespaünos, matutinos, revistas e Uam tudo com uma ativa, uma de^^radora curiosidade, que ia do "lance a lance" da partida até os anúncios de missa. Amigos, nunca se leu e, digo mais, nunca se releu tanto no Brasil. ^3
Crônica 2. Manchete Esportiva, n.“ 2,3 dez.. 1955.