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Atualmente há um retorno aos estudos do Eneateuco. Esse texto foi agrupado e separado várias vezes, por questões históricas, literárias, legais e sociais. Falar em Tetrateuco, Pentateuco, Hexateuco, Eneateuco começa agora a ser reavaliado. Faz-se necessário o retorno a uma ideia do Eneateuco como uma obra cuja composição teve início durante o exílio e terminou no pós-exílio e que fez parte da vida, da tradição, da história social do povo de Israel. Essa obra teve grande influência Sacerdotal e da lei da Torah. Sob a influência político- religiosa dos dominadores persas, foi dividida em duas ou mais partes: a Torah (ou Pentateuco) e a OHD (os Profetas Anteriores). Röse (1976) foi um dos que retomaram a questão do Eneateuco, abordando questões literárias. Num recente artigo, Reimer (2008) traz à baila questões histórico-sociais sobre o Eneateuco. Kessler (2009) também aborda questões histórico-sociais desse texto. Vários

autores já discutiram a questão da Torah e admitem pelo menos reelaborações finais de seu texto no pós-exílio, época em que os persas dominaram todo o antigo oriente. Nesse período, a Palestina é denominada pelos persas como a província de Yehud (Judá). Eles não eram escravizadores, mas consentiam que o povo dominado vivesse de forma “mais autônoma”.

Os persas reorganizaram os povos dominados, dividiram os territórios em províncias para facilitar a exploração e a cobrança de impostos. Discute-se muito o “decreto persa” ou “autorização persa” para que o povo se organizasse. Essa foi uma postura importante para a coleta e reunião de escritos, para serem reescritos e reordenados. Esse processo resultou no surgimento do Eneateuco. Esd 7,14 menciona a Torah trazida por Esdras. Trata-se de um texto lendário que menciona a autorização. A lei de Deus, desse modo, passou a ser o texto recolhido de relatos de várias camadas sociais do judaísmo no pós-exílio, que serviu de base para a reorganização do povo na pequena província persa denominada de Yehud (Judá). Essa província era o local de onde os antigos judaítas derrotados pelos babilônicos foram expulsos, que agora retomam para reconstruir tudo: cidade, templo, muros etc.

Alguns autores concordam nessas teorias, mas ainda se está longe de um consenso sobre essas questões. Há um Eneateuco? O Tetrateuco ou o Hexateuco foi estendido a um Eneateuco. Além da Torah, foi agrupado pelo judaísmo pós-exílico o restante, que é a OHD ou os Profetas Anteriores, ficando assim constituído o Eneateuco: Gn, Ex, Lv, Nm e Dt mais Js, Jz, Sm e Rs. Essa obra abrange uma grande história de Israel. Parte da criação do mundo, passa pela saída do Egito, pela caminhada pelo deserto, a conquista da terra prometida, Juízes, monarquia, perda da terra e finda com o exílio babilônico. A composição do Pentateuco ou Torah e a existência do Eneateuco devem-se a uma nova metodologia denominada de “Modelo Canônico”, que pressupõe a leitura do texto canonizado, ou seja, a leitura de sua redação final.

Röse (1976) escreveu sobre esse assunto um tema de interesse, com o título “Começar (empunhar) o Pentateuco pelo fim”. Mas por que começar pelo fim do texto bíblico e não pelo começo? E por que não se pergunta: como começar pelo texto atual e não por sua composição? Por que essa leitura começa pelo texto atual? Onde está o texto inicial? Quem escreveu primeiro e quem fez os complementos? Como o texto veio parar no meio de uma narrativa

maior? Essas são perguntas dessa nova metodologia, cuja preocupação central não é dividir, separar, fragmentar os textos analisados, mas a análise do texto e a sua lógica. A retórica e a leitura semiótica sempre fizeram a mesma coisa. Essa nova metodologia passou a se preocupar somente com a leitura do texto final, do texto canonizado. O método canônico se preocupa com as estruturas e as macroestruturas do texto da Bíblia Hebraica, como se, em um presente, o valioso fosse a embalagem, o papel que o envolve, e não o presente em si. Desta forma, no caso da análise do Pentateuco e do Eneateuco, a preocupação recaía sobre as estruturas dominantes: o reinado e a centralização do culto. O método canônico liga-se aos interesses e grupos sociais dominantes: estado, religião e etnia, enquanto a nosso ver a preocupação deveria ser outra: o contexto sócio-histórico do Período Persa.

A leitura das perícopes dos textos bíblicos é feita a partir de pequenas unidades e não pelo bloco literário completo. Esta leitura ajuda a descobrir o sentido e a localizar seus fundamentos nos grupos menores de textos, e foi muito usada na América Latina. A leitura desses pequenos textos mostra a importância do sentido do texto. Nesses textos encontram-se os atores sociais que fazem parte do grupo dos oprimidos, que vivem em lugares da sociedade marcados pela economia, politica, religião. Estes atores buscam por todos os meios se organizar e se apropriar de suas realidades sócio-históricas. Ao enfatizar os pequenos textos e sua forma social, esse método permite visualizar o contexto social bíblico e pode evidenciar coisas que os outros não conseguem alcançar, tais como a realidade do povo e não dos dominadores – estado, rei/monarquia. Essa leitura ajuda a ler nas entrelinhas a vida do povo. Não se pode deixar que a elite tome o poder e o povo seja privado de uma experiência concreta da vida. Não se pode deixar o povo refém dos grupos dominantes. “Estes grupos dominantes determinam as estruturas dos conjuntos literários maiores e são sempre secundários”, afirma Reimer (2008 p146). Para esse autor, a discussão do Eneateuco é assunto para a hermenêutica. A preocupação não recai sobre a teoria das fontes ou a teoria documentária, mas sobre questões fundamentais, como as sociais e políticas, que demarcam as decisões para o recorte, a ruptura, o agrupamento de textos no Judaísmo pós-exílico. Como se sabe, é no pós-exílio que se formou o Pentateuco e/ou o Eneateuco. A divisão ou a separação de textos ocorreu quando se deu a canonização da

Bíblia, e Judá nada mais é do que uma província persa denominada Yehud. A época do pós-exílio é marcada por mudanças no antigo Oriente. Os persas tinham uma técnica de dominação diferente dos egípcios, babilônicos e assírios. Eles preferiam deixar os dominados se reorganizarem, e até os ajudavam, para que pudessem produzir e pagar impostos e tributos. A “liberdade” social, política e religiosa estava ligada à reelaboração dos escritos, da identidade nacional, da etnia.

Esse modelo de dominação, em que se concedia uma liberdade vigiada

aos Yehudim, permitia conhecer e prever o modo de o povo agir na

reorganização da província de Judá. Assim, os persas cumpriam o famoso princípio de conhecer os dominados para melhor dominá-los. O povo que está na terra é, em sua maioria, am ha aretz (povo da terra), mas os que retornaram, como os que permaneceram na Babilônia, são da elite. Em Judá, a disputa pela posse da terra provoca conflitos políticos entre os já habitantes e os que chegaram. Ne 5 mostra esses conflitos e suas soluções. Há outros judeus em Judá: os samaritanos, judeus babilônicos e os judeus do Egito. Os judeus remanescentes se organizam para reconstruir tudo em Jerusalém, num clima de relativa liberdade política e religiosa. Começam a reconstruir os muros da cidade, a própria cidade e o templo. Reconstroem a sua memória, com escritos e reescritos, elaborações e reelaborações de textos, reúnem documentos, agrupando-os e separando-os em blocos. As várias coleções de textos, tradições orais, narrativas, leis e coleções de leis são organizadas em um conjunto de obras literárias, históricas, códigos de leis e vários tipos de teologia.

O maior problema se encontra nos conflitos de identidade nacional e seus reflexos na vivência religiosa, social, histórica, política e econômica. As genealogias são escritas para se saber quem era judeu e não judeu. Esse movimento dá origem à intolerância religiosa e étnica. Casamentos mistos são desfeitos. A construção da identidade nacional é o maior problema. As gerações passadas começam a ter privilégios, as relações de parentesco passam a ter muita importância. Estes fatos estão descritos no Pentateuco e no Eneateuco. A Torah passa a ser o documento histórico e legal que denota também o pacto social e a aliança religiosa com YHWH. O Pentateuco separado ou o Eneateuco completo parecem uma coletânea de várias narrativas de alianças que nunca existiram na realidade, mas que foram idealizadas. São narrativas que

descrevem pactos de indivíduos com Deus, numa idealização redigida pelo Deuteronomista e pela Obra Sacerdotal.

O Judaísmo, como religião, é elaborado nesse período do pós-exílio e apresenta feições fundamentalistas e reacionárias. Sua redação ou é Deuteronomista ou é Sacerdotal. A história do povo, as tradições, as leis são coletadas uma a uma e agrupadas, formando um quadro maior. O Pentateuco surge no pós-exílio como resultado do esforço de redatores e coletores que fundiram os textos. Foi entendido como um prólogo da Obra Histórica Deuteronomista, que é uma conclusão do Pentateuco. Juntos, esses textos formam o Eneateuco. Porém, eles foram separados, formando dois blocos distintos: o Pentateuco e a Obra Histórica Deuteronomista, ou os Profetas Anteriores.

Retirado o Dt, o Pentateuco se transforma no Tetrateuco; acrescido a Profetas Anteriores – Js, Jz, Sm e Rs – tem-se a OHD. O Pentateuco acrescido do livro de Js se transforma no Hexateuco, e a OHD fica menor – Jz a Rs. Todos esses livros agrupados formam o Eneateuco. Sabemos que o Período Persa é a época em que se formou o Pentateuco, pois já estava estabelecida a OHD ou parte dela, denominada também Profetas Anteriores. O Dt, introdução à OHD, constitui-se numa lei e numa teologia narrativa, redigida sob o impacto da lei e da profecia e é uma coletânea: Dt 1-4 é um prólogo a outro prólogo, que é Dt 5- 11. Este, por sua vez, é um prólogo ao Código de Lei Deuteronômica, em Dt 12- 26, que é o miolo, o centro e o texto mais antigo, usado como Código da Lei Deuteronômica, na reforma do rei Josias, em 622 a.C. O livro de Dt é uma lei e uma história: fala da conquista da terra prometida, das tribos e da monarquia, das conquistas e perdas da terra, da liberdade. A pesquisa de Noth (1981) mostrou que a OHD teve várias intervenções redacionais e, no exílio e no pós- exílio (538-445 a.C.), a obra estava terminada, tendo sofrido acréscimos de textos proféticos. O Tetrateuco, isto é, de Gn a Nm, já tinha sofrido reelaborações da obra Sacerdotal. Alguns defendem que já havia material Deuteronomista nesses trechos literários. A esse material, soma-se a OHD, formando o Eneateuco. Há então um grande processo de acréscimos, retiradas de materiais, rupturas ou cesuras nos materiais.

Vimos nas redações Deuteronomistas, a atuação de duas correntes ideológicas: uma jerusalemita e outra pró-persa, produzidas numa época de

conflitos de interesses ideológicos, ou seja, no período persa final. A OHD está recheada dessas ideologias deuteronomistas e de acréscimos desse período. As leis deuteronomistas constituem uma avaliação da história de Israel, criticam o povo e as autoridades pelo abandono a YHWH, e, assim, passam a ser revisados os textos que foram incluídos no Período Persa. A corrente pró-persa, de cunho sacerdotal, faz críticas da utilização de representações cultuais de YHWH. Já a corrente jerusalemita enfatiza a centralização do culto, característica essencial do davidismo, que alimenta a esperança de restaurar a monarquia davídica. As adições à OHD são revisões e correções de forma final, feitas e elaboradas pelo escritor Sacerdotal.

O Tetrateuco serviu como base introdutória para a OHD, mas pode ter sido também uma obra já existente e paralela aos demais textos. Assim temos uma grande obra teológica e uma tentativa de se fazer uma história que narra a criação, passa pela posse da terra, o governo dos juízes, monarquia e o exílio: o Eneateuco. O livro de Dt (622 a.C.) é o centro de tudo: o livro da lei, descrito em 2Rs 22-23, que serviu de base para a reforma religiosa. O texto de Dt 12-26 seria uma reformulação do Código da Aliança (Ex 20,22-23,19), que é mais antigo. Dois códigos mais recentes do escritor Sacerdotal, em Lv 11-15 (Leis da Pureza) e Lv 16-27 (Código da Santidade), são do pós-exílio, e reformularam os demais códigos de Ex e Dt. Outros códigos menores também foram reformulados, como os decálogos de Ex 20 e Dt 5, que podem ser da época do profeta Oséias (século VI a.C.)2. A perícope do Sinai começa em Ex 19: o povo chega ao Monte Sinai, recebe os dez mandamentos, em Ex 20,2-17. Em sequência, surge o Código, em Ex 20,22-23,19; em Ex 24, 1-11, ocorre a aliança. Em Ex 24,12, se fala da tenda da reunião; em Ex 25-31, da construção; em Ex 32, o relato do bezerro do ouro; em Ex 34, ocorre a festa da aliança. Em Ex 32,19, se narra a tendência do homem para fazer o mal. Em Ex 40,34-38, aparece a morada de YHWH na tenda. A tenda passa a ser a nova residência de Deus. O texto do Pentateuco poderia criar um impasse dos escritos diante da política persa. Os termos “tolerância” e “autorização persa” na realidade não

2 Outros tipos de materiais também foram objeto de reformulações, como o Dt 1-11, que apresenta vários materiais não legais, como genealogias, mitologias e narrações. Além das leis, existem materiais narrativos que estão na memória histórica: o Sinai (Ex 19), a revelação de YHWH ao povo e a Moisés (Nm 10). Em Dt 1-4, temos várias formas de literatura, como a pregação de Moisés, que é a revelação de YHWH. Assim, temos as leis reveladas. As leis do Sinai são sacerdotais e não Deuteronomistas.

existem. As guerras divinas, em Js, teriam um problema sério com a “autorização persa”. Dessa forma, quando o texto foi parar nas mãos das autoridades persas, houve uma ruptura, da qual se encontram o Hexateuco e os Profetas Anteriores. Não só ao livro de Dt, mas ao de Js foram subtraídos certos materiais.

2 O CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS FONTES DOCUMENTAIS NO PERÍODO PERSA PARA A COMPREENSÃO DAS RECONSTRUÇÕES DOS TEXTOS DA TORAH E PROFETAS ANTERIORES

Abordaremos algumas questões essenciais para a compreensão da tese, como o contexto social, político, econômico e religioso em que se deu a reconstrução dos textos da Torah e Profetas Anteriores e a “tolerância” dos chefes mandatários persas em relação aos povos conquistados. Mostraremos como os funcionários persas ajudaram a entender os funcionários que vieram para Jerusalém para reconstruir a cidade, os muros e o templo; o caos social encontrado por Esdras e Neemias e a importância das missões desses homens para a compreensão dos textos revisados nesse período. Veremos que a monarquia e seu restabelecimento, o sacerdócio e sua prática religiosa dependiam da reconstrução.