Organograma 1 – Organograma do Inep
2.2 O EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO
2.2.3 O Enem, a reforma do Ensino Médio e a nova BNCC
É importante situar que a Lei nº 13.415 de 2017 decorre da Medida Provisória nº 746, de 22 de setembro de 2016, e que suscitou debates em torno de muitos pontos, que vão desde a adequação do próprio instrumento que a mobilizou (uma Medida Provisória) até os aspectos relativos à viabilidade de algumas proposições. Nessa discussão, destaca-se pela vinculação a esse estudo, as questões relativas à composição do novo currículo do Ensino Médio que deve integrar uma parte comum,
derivada da BNCC, e uma parte diversificada, a ser formalizada por meio de itinerários formativos, elaborados pelos sistemas de ensino. Conforme consta na lei:
Art. 3º A Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 , passa a vigorar acrescida do seguinte art. 35-A:
“ Art. 35-A. A Base Nacional Comum Curricular definirá direitos e objetivos de aprendizagem do ensino médio, conforme diretrizes do Conselho Nacional de Educação, nas seguintes áreas do conhecimento:
I - linguagens e suas tecnologias; II - matemática e suas tecnologias;
III - ciências da natureza e suas tecnologias; IV - ciências humanas e sociais aplicadas. [...]
Art. 4º O art. 36 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 , passa a vigorar com as seguintes alterações:
“ Art. 36 . O currículo do ensino médio será composto pela Base Nacional Comum Curricular e por itinerários formativos, que deverão ser organizados por meio da oferta de diferentes arranjos curriculares, conforme a relevância para o contexto local e a possibilidade dos sistemas de ensino... (BRASIL, 2017, recurso online).
O marco legal para a elaboração da BNCC, conforme explicita o próprio documento, reporta-se à Constituição Federal de 1988 que, em seu artigo 210, determina que “serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais” (BRASIL, 1988, recurso online), bem como à LDB que, em seu artigo 26, regulamenta que “os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum” (BRASIL, 1996, recurso online). Além disso, documentos como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM) e as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica (DCNs) já contribuíam para o delineamento dessa discussão.
Mas nota-se que a Lei nº 13.415 estabelece que a carga horária mínima do Ensino Médio será de 800 horas anuais e que deverá ser progressivamente ampliada até alcançar mil e quatrocentas horas anuais. Desse total, determina que a “carga horária destinada ao cumprimento da Base Nacional Comum Curricular não poderá ser superior a mil e oitocentas horas do total da carga horária do ensino médio” (BRASIL, 2017, recurso online). Em carta ao Conselho Nacional de Educação, o sociólogo César Callegari, renuncia à Presidência da Comissão de
Elaboração da Base Nacional Comum Curricular, e expõe suas discordâncias e preocupações sobre a concretização do intento expresso na lei e também na Base, apontando para uma redução na definição dos direitos de aprendizagem, que serão “limitados ao que puder ser desenvolvido em, no máximo, 1800 horas. Ou seja: apenas ao que couber em cerca de 60% da atual carga horária das escolas” (CALLEGARI, 2018, recurso online). Além disso, pondera:
Como se pode constatar no documento preparado pelo MEC, com exceção de língua portuguesa e matemática (que são importantes, mas não as únicas), na sua BNCC desaparece a menção às demais disciplinas cujos conteúdos passam a ficar diluídos no que se chama de áreas do conhecimento. Sem que fique minimamente claro o que deve ser garantido nessas áreas. Contudo, sabemos que os direitos de aprendizagem devem expressar a capacidade do estudante de conhecer não só conteúdos, mas também de estabelecer relações e pensar sobre eles de forma crítica e criativa. Isso só é possível com referenciais teóricos e conceituais. Ao abandonar a atenção aos domínios conceituais próprios das diferentes disciplinas, a proposta do MEC não só dificulta uma visão interdisciplinar e contextualizada do mundo, mas pode levar à formação de uma geração de jovens pouco qualificados, acríticos, manipuláveis, incapazes de criar e condenados aos trabalhos mais simples e entediantes, cada vez mais raros e mal remunerados (CALLEGARI, 2018, recurso online).
Dessa forma, em sua argumentação afirma que a BNCC do Ensino Médio guarda as inconsistências da Lei que reforma essa etapa de ensino e acaba por promover a “fragmentação da educação básica” (CALLEGARI, 2018, recurso online), distanciando-se do que se apresenta na BNCC das etapas anteriores. O processo de construção da Base iniciou em 2015 e, mobilizando diversas ações e interlocutores, o documento para o Ensino Fundamental foi aprovado em 2017. No caso do Ensino Médio, em meio a impasses, o documento foi aprovado no ano seguinte, pela Resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE) nº 4, de 17 de dezembro de 2018, que determina:
Art. 12. As instituições ou redes escolares podem, de imediato, alinhar seus currículos e propostas pedagógicas à BNCC-EM, nos termos desta Resolução e das Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio definidas pela Resolução CNE/CEB nº 3/2018.
Parágrafo único. A adequação dos currículos à BNCC-EM deve estar concluída até início do ano letivo de 2020, para a completa implantação no ano de 2022.
Art. 13. As matrizes de referência das avaliações e dos exames, em larga escala relativas ao Ensino Médio, devem ser alinhadas à
BNCC-EM, no prazo máximo de 4 (quatro) anos a partir da publicação desta (BRASIL. MEC. CNE. CEB, 2018, recurso online).
Assim, os rumos do exame ficam atrelados à nova proposta para o Ensino Médio o que ensejará discussões para a reformulação das matrizes de referência, bem como é comum em momentos de reestruturação, reflexões para o aprimoramento de suas práticas e estratégias em geral.
O histórico apresentado permite dimensionar a abrangência e a relevância que o Enem assumiu ao longo de sua trajetória. Destaca-se a sua vinculação à reforma do Ensino Médio, consolidada na LDB de 1996, e incorporada na concepção do exame, estruturado sobre uma matriz de competências e habilidades; bem como a sua consolidação definitiva como processo seletivo nacional de ingresso na Educação Superior, a partir de 2009, que ocorre diante de diversos aprimoramentos em sua proposta. Nesse contexto, e considerando inclusive o momento de transição em que novamente se encontra o exame, com a nova reforma do Ensino Médio, se propõe o acompanhamento e a análise da inserção e abordagem da Sociologia no exame, prática pedagógica cuja institucionalização será tratada nas seções seguintes.