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D. As pistas para uma ação pastoral libertadora

4. A especificidade do método teológico latino-americano: a Teologia da Libertação diante de outras formas de fazer Teologia

4.2. Juan Hernandez Pico e o método teológico latino-americano frente ao enfoque magistral e científico da Teologia

4.2.1. O enfoque magistral e científico da Teologia

Para Juan Hernandez Pico é significativo que esteja no centro do debate, à época do encontro do México, mais a reflexão teológica que a própria Teologia. Ele pergunta-se se isso não indica que no método latino-americano de fazer Teo- logia não surge um momento de criativa oposição ao método dominante na Igreja praticado durante os últimos séculos, isto é, ao método magistral e científico.

77 Cf. J. SOBRINO, El conocimiento teológico en la Teología europea y latinoamericana, p.207. 78 Cf. J.H. PICO, Método Teológico Latinoamericano y normatividad del Jesús Histórico para la

praxis política mediada por el análisis de la realidad, p.595-607.

79 Cf. Ibid., p.595-598 e 598-601, respectivamente.

A Teologia acadêmica, encomendada aos mestres universitários, e a inves- tigação teológica, realizada em bibliotecas e seminários especializados, sustenta- ram, a pretensão da Teologia de ocupar um lugar respeitável entre as ciências mo- dernas. Este processo respondeu provavelmente à necessidade de adaptação da instituição eclesial ao seu entorno. O valor do científico como formulador de leis gerais, universais, foi firmemente hierarquizado como o primeiro valor da cultura ocidental, desde fins do século XVIII, não obstante a reação romântica. Dentro da corrente principal da instituição eclesiástica, imposta desde sua elevação à religião oficial do Estado, a capacidade de adaptação às mutações culturais de sua matriz européia foi, na perspectiva de longo prazo, admirável. O “dar razão da esperança cristã” foi convertendo-se, ao longo dos últimos séculos, em um elaborar sistemas teológicos à altura das exigências da razão científica.

Segundo Juan H. Pico, não se pode esquecer que as revoluções científicas que conseguiram instaurar uma nova ordem cultural na Europa, foram condição de possibilidade das revoluções políticas, produzidas desde fins do século XVIII pelas burguesias nacionais ascendentes do mundo ocidental. As ciências, com exceção da corrente marxista das então nascentes Ciências Sociais, mantiveram-se como articuladoras do potencial econômico e político das minorias burguesas, convertidas em classe social dominante. Neste quadro, a Teologia, ao mesmo tempo em que progredia na aquisição de seu status científico, organizava sua ati- vidade em um âmbito elitista e se estabelecia como uma das fontes de sentido

global do novo sistema, competindo com outras concepções globais do mundo80.

Assim, ao aspirar ao caráter de ciência moderna, ao situar-se, conseqüen- temente, nas Universidades, a Teologia foi-se entendendo como explicação críti- co-histórica dos fundamentos da fé e como construção de um sistema de sentido, capaz, ao mesmo tempo, de enfrentar os problemas colocados no interior da or- dem estabelecida e de transcendê-los, sem questionar tal ordem radicalmente. Para Juan H. Pico esta ausência de questionamento radical manifestou-se de duas ma- neiras: primeiro, na proposição de sentido à vida interpessoal dos seres humanos dentro de qualquer ordem social, prescindindo das estruturas desta mesma ordem social. Segundo, na absolutização de uma função crítica com respeito aos resulta- dos imediatos de qualquer transformação da ordem social dominante em um mo-

80 Cf. J.H. PICO, Método Teológico Latinoamericano y normatividad del Jesús Histórico para la

praxis política mediada por el análisis de la realidad, p.595-596.

mento histórico. Estas duas maneiras de manifestação da ausência de um questio- namento radical configuram-se como “personalismo espiritualista” ou “cepticismo escatológico”, ambos igualmente a-históricos e desencarnados.

Ao mesmo tempo e como fruto desta opção pelo valor do científico, a Teo- logia ficou reduzida a situar seu discurso em ambientes esotéricos, submetendo-se ao excesso de divisão de trabalho, próprio da ciência moderna, que desemboca na especialização inacessível para as grandes maiorias humanas. O protótipo do teó- logo – alguns dos grandes entre eles são exceção a esta regra – não fomentou o contato cristão com as situações estruturais e pessoais das grandes maiorias, nem sequer das explicitamente cristãs. Em conseqüência, a Teologia não foi primordi-

almente “um serviço à fé cristã que se faz operante por seu amor à multidão”81.

Tendeu a ser mais elaboração aristocrática de sentido, inoperante para seguir fa- zendo fermentar a velha massa em uma progressiva transformação rumo a Nova Criação inaugurada por Cristo. Faltou à Teologia a compaixão em seu significado mais rico de viver a Cruz de Jesus, tal como é recriada pelos oprimidos. Diante desta constatação, Juan H. Pico interroga-se pelas raízes profundas desta carência da Teologia. Colocar-se tal problema significa interrogar-se pelos interesses a que a Teologia tem servido. Interroga-se, então, o autor: “Será errado o apontar que a Teologia serviu primordialmente aos interesses da instituição eclesial em sua abs- trata universalização romana e não aos interesses do povo cristão e muito menos

aos interesses dos pobres deste mundo, confessem ou não Jesus Cristo?”82

Na raiz da aspiração por enfrentar o problema das relações entre razão e fé, pode-se encontrar a aspiração da instituição eclesial por tornar-se relevante, por ser tida em conta nas crises de sentido do sistema de poder dominante, em cujo campo quis seguir tendo um papel superior. Desta forma, a instituição eclesial desviou-se do critério básico do seguimento de Jesus: não aceitou marginalizar-se, não aceitou perder sua vida para salvá-la. No entender de Juan H. Pico, a institui- ção eclesial não tem outra legitimação que a do Evangelho de Jesus Cristo. Seu desvio nunca pode chegar ao extremo de não transmitir a Boa Notícia de Jesus. Nesta mensagem, por mais obscurecida que se apresente, por mais desencarnada que seja oferecida, sobrevive a força carismática de Jesus. Não há mais que um

81 J.H. PICO, Método Teológico Latinoamericano y normatividad del Jesús Histórico para la

praxis política mediada por el análisis de la realidad, p.597.

82 Ibid., p.597.

Evangelho e o Espírito encarrega-se de manter viva nele a memória inquietante de Jesus. Nesta perspectiva, a realidade revolucionária de que Deus, em Jesus, não escolheu os poderosos deste mundo; a realidade de que a sabedoria de Deus não entra em diálogo com a sabedoria dos dominadores (cf. 1Cor 1 e 2), fez surgir na América Latina, e não só nela, um novo método de fazer Teologia. Novo método que se fundamenta em uma nova maneira de entender a função da própria Teolo-

gia83. Neste sentido é que, no passo seguinte, o autor procura indicar em que con-

siste esta nova maneira de entender a Teologia.