• Nenhum resultado encontrado

3 MEMÓRIA, HISTÓRIA E FICÇÃO AUDIOVISUAL: AS NARRATIVAS E O PROCESSO DE (RE) CONSTRUÇÃO DO PASSADO.

3.4 O enquadramento e o processo de conformação da memória.

Quando tratamos da memória e da história é relevante discutir ainda a questão do esquecimento. Em qualquer narrativa que reconstrua o passado há aspectos que se perdem. Um dos aspectos dessa parte diz respeito à própria da natureza do relato. Embora, vários grupos participem da realidade social, cada narrativa é instituída pelo ponto de vista do grupo que conta. Acontecimentos que marcam uma comunidade não são necessariamente relevantes para outra.

Matheus (2011) observa como a condição comunicacional atravessa as formas de representação do passado e discorre sobre dois pressupostos de qualquer narrativa.

[...] nosso primeiro pressuposto deve ser o de que o passado não se revela,

não pode ser efetivamente acessado, apenas interpretado no presente a partir pelo que dele nos resta como condição material e narrativa. O

segundo grande pressuposto é o de que, do ponto de vista da ação social, as fronteiras entre passado, presente e futuro não são demarcações astrofísicas, mas fronteiras móveis, estabelecidas por operações narrativas, dependendo do assunto de que se trata e dos significados que se pretendem projetar (MATHEUS, 2011, p.15. Grifo nosso).

Se observarmos a memória individual, tanto por uma operação cognitiva quanto pelo declínio do funcionamento do organismo (na velhice) é inevitável para o ser humano se esquecer. Também com relação ao passado; os cenários, as formas de se comportar, pensar, vestir, a estrutura social, política, econômica são modificadas e o que resta são vestígios do período anterior.

Por fim, o estabelecimento da memória (ou de uma interpretação dela) enquanto relato oficial envolve demandas de grupos (instituições) e interesses políticos. A memória é um processo seletivo, onde há disputa por representação e legitimidade no espaço público. São aqueles que detêm o poder que “decidem quais narrativas deverão ser lembradas, preservadas e divulgadas” (ARAÚJO; SANTOS, 2007, p.99).

No Brasil, por exemplo, a lei da Anistia, instaurada logo após a Ditadura Militar, propiciou uma transição rápida para o reestabelecimento da democracia, sem mais disputas

armadas ou julgamentos, simultaneamente, essa lei possibilitou que os grupos que apoiaram o regime permanecessem no cenário político.

De acordo com Mezarobba (2010, p.13, 18), não houve punição para os militares que cometeram abusos com militantes políticos (sequestro, estupro, assassinato, ocultação de corpo, tortura), tampouco para as infrações cometidas por estes. O Estado assumiu a responsabilidade sobre as atuações dos seus agentes, restringiu o acesso a arquivos oficiais sobre o período e deixou incompleto o processo de esclarecimento sobre as políticas adotadas durante a ditadura e as ações de violências.

Somente nos últimos anos, o governo teve algumas iniciativas com o objetivo de reconstruir o passado, como o lançamento do livro-relatório Direito à memória e à verdade10, em 2007, e a instauração de uma Comissão da Verdade em 2010. Por outro lado, enquanto vários filmes, documentários e livros trataram do regime sob a versão dos militantes, a perspectiva dos militares não teve a mesma projeção.

Um projeto conhecido como Orvil, organizou entre os anos de 1985 e 1987 um livro que narraria esse período sob o ponto de vista dos agentes do Estado. O livro intitulado como “Tentativas de Tomada do Poder” foi difundido em um círculo restrito de militares e civis. Apenas em 2007, o livro veio a conhecimento público mediante uma série de reportagens do repórter Lucas Figueiredo, no jornal Estado de Minas.

Concluída em 1987, a obra teria sido apresentada ao ministro do Exército, General Leônidas Pires Gonçalves que não autorizou a sua publicação, “sob a alegação de que a conjuntura política não era oportuna, que o momento era de concórdia, conciliação, harmonia e desarmamento de espíritos e não de confronto, de acusações e de desunião” (A VERDADE SUFOCADA, 2012, p.1). O livro foi lançado em 2012, embora desde 2007 uma cópia circulasse na internet.

Atualmente, as versões sobre a ditadura vêm sendo criticadas. De um lado, a militância comunista que defendia o estabelecimento de um regime socialista no país, tem sustentado que sua atuação durante a ditadura visava à democracia. Do outro, os agentes do Estado sustentam que deflagraram o regime para proteger o país, pois havia indícios que os comunistas tomariam o poder. Contudo, não demonstraram provas contundentes que corroborassem essa hipótese.

10 “Primeiro documento oficial do Estado brasileiro a atribuir a integrantes das forças de segurança crimes como

tortura, estupro, esquartejamento, decapitação, ocultação de cadáveres e assassinato de opositores do regime militar que já estavam presos e, portanto, impossibilitados de reagir [...]” (MEZAROBBA, 2010, p.19).

O esquecimento é um aspecto relevante para a compreensão da memória coletiva, pois muitas vezes ele é “voluntário,” “indicando a vontade do grupo de ocultar determinados fatos” (SILVA; SILVA, 2006, p.2). Um exemplo disso é a conjuntura de meios de comunicação que apoiou a Ditadura Militar e hoje traz publicações criticando o antigo regime, rejeitando, desse modo, seu próprio passado.

A reconstrução do passado passa por um processo de seleção, reordenamento, manipulações, exclusões. Pollak (1989) adota o conceito de “memória enquadrada”, cravado por Rousso, para designar o trabalho de grupos/instituições sociais pelo controle da memória com o objetivo de dominar a interpretação sobre o passado. O autor destaca o caráter destruidor, uniformizador e opressor da memória coletiva.

Neste sentido, os marcos sociais de memória são o resultado, nunca adquirido definitivamente, de conflitos e compromissos entre vontades de distintas memórias. Diferentes grupos e agentes competem pela hegemonia sobre os discursos plausíveis e relevantes sobre a memória dentro da sociedade em seu conjunto. (BONIN, 2006, p.137).

Esse trabalho de enquadramento da memória tem limites, não é construído arbitrariamente, mas satisfaz exigências de justificação. No caso da memória enquadrada de um país, entendida por ele como a “memória oficial” ou “memória dominante”, existem os objetivos de manter a coesão interna, defender as fronteiras do grupo e oferecer um quadro de referências. Esse enquadramento, por várias razões, não atende as reivindicações de todos os grupos envolvidos nos acontecimentos passados.

Assim, as lembranças seriam organizadas em um trabalho de enquadramento, onde os materiais fornecidos pela história e pela memória coletiva seriam interpretados a partir dos embates do presente. Em períodos de transição entre o restabelecimento democrático de um país e momentos históricos marcados por dominação, perseguição, violência e desrespeito aos direitos humanos (como guerras e governos ditatoriais), existe ainda uma tensão entre a busca de recriar um consenso social e o ato de relembrar.