2 ENSINO DE CIÊNCIAS: CONTRAPONTO ENTRE TEORIA E PRÁTICA
2.3 O ENSINO DE CIÊNCIAS E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL
A Lei 9795/99 institui a Política Nacional de Educação Ambiental (BRASIL, 1999), como uma proposta de promoção da Educação Ambiental (EA) em todos os setores da sociedade. Ressalta o tema Meio Ambiente, introduzido nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) como tema transversal. Considera os documentos internacionais históricos, com a intenção de ampliar e aprofundar um amplo debate que envolva as diferentes esferas: educacional, social e governamental, gerando uma transformação positiva no sistema educacional brasileiro.
A elaboração dos PCN ocorreu como o resultado de um trabalho em conjunto de membros do Conselho Nacional de Educação (CNE), e este documento foi a princípio oferecido aos professores das séries iniciais do ensino fundamental, em 1998, e depois aos docentes das séries finais do ensino fundamental, na sequência para a Educação Indígena, a Educação de Jovens e Adultos e Educação Infantil (BRASIL, 2008).
Para Medina; Santos (1999) a caracterização de área do conhecimento permite:
[...] valorizar o papel daqueles conteúdos que não dependem especificamente de nenhuma disciplina e são fundamentais para uma educação integral, como é o caso de determinadas atitudes ou valores que antecipando-nos, denominaremos de “temas transversais’, os quais permitem o alcance dos níveis pretendidos pela Educação Ambiental (MEDINA; SANTOS, 1999, p.25).
De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases (BRASIL, 1996), os PCN serviram de suporte às diretrizes curriculares para a maioria dos estados e municípios, levando- se em conta as especificidades das diferentes localidades, apontando para um conjunto mínimo de conteúdos para o exercício docente. No início ocorreu certa resistência por parte dos professores em relação à efetividade dos PCN, enquanto matriz curricular, devido ao fato das propostas serem de cunho interdisciplinar e contextualizadas (BRASIL, 2008). Nos PCN os temas transversais foram elaborados pelo Ministério de Educação (MEC) em 1998, com a intenção de ampliar e aprofundar um debate educacional que envolva escolas, país, governo e sociedade, gerando uma transformação positiva no sistema educacional brasileiro. Foram incorporadas como temas transversais as questões da: Ética, Pluralidade Cultural, Meio Ambiente, Saúde, Orientação Sexual, e Trabalho e Consumo (ARAÚJO, 2002).
Os PCN incorporaram os temas transversais nas disciplinas convencionais, adaptando-os à realidade, dessa forma surge uma nova possibilidade de trabalho pedagógico que permite a união do político-social com o conhecimento. Ao mesmo tempo, abre um leque de possibilidades para o professor, que buscando as diversas áreas do conhecimento, pode interligar os saberes em uma tentativa de interdisciplinaridade (BRASIL, 2002). Objetiva uma mudança de valores e atitudes, que visa contribuir com a formação de um sujeito ecológico, (um dos princípios da EA). Propicia sensibilidades solidárias com o meio social e ambiental, serve de modelo para a formação de indivíduos e grupos sociais capazes de identificar, problematizar e agir em relação às questões socioambientais. Como ressalta Floriani (2000):
No âmbito da problemática ambiental, os fundamentos teóricos sobre uma nova forma de produção de conhecimento não podem ser dissociados da prática interdisciplinar, entendida como a articulação de diversas disciplinas para melhor compreender e gerir situações de acomodação, tensão ou conflito explícito entre as necessidades, as práticas humanas e as dinâmicas naturais (FLORIANI, 2000, p.100).
Como professora de Ciências e Biologia, percebo que a Educação Ambiental, ainda hoje, não aparece nos planejamentos anuais, bem como na nossa prática escolar. Observamos apenas, alguns projetos pontuais e descontínuos que ocorrem de forma isolada e fragmentada, normalmente para uma data específica no calendário escolar: dia mundial da água, mostra cultural, dia do meio ambiente, dentre outras ocasiões. Isto ocorre por diversos fatores como: a própria estruturação curricular que desfavorece a interdisciplinaridade e mais ainda, a transversalidade da EA; visto que a estrutura formal escolar é disciplinar. A ausência de formação continuada para os professores, poucas opções de cursos na área de Educação Ambiental, dificuldade de articulação entre as diferentes disciplinas do currículo, o trabalho individualizado entre os pares nas escolas (BRASIL, 2008).
De acordo com Tozoni-Reis (2012), a Educação Ambiental é uma ação política, que exige posicionamento. Isso significa que o pensar e o agir educativo ambiental contribuem para a construção de sociedades sustentáveis do ponto de vista ambiental, social transformador e emancipador. Espera-se assim, que o trabalho envolvendo a questão socioambiental água, considere estratégias didáticas que favoreçam o desenvolvimento de habilidades múltiplas dos estudantes na tomada de decisão, frente aos recursos hídricos. Portanto “a caracterização de áreas de
conhecimento permite valorizar o papel daqueles conteúdos que não dependem especificamente de nenhuma disciplina e são fundamentais para uma educação integral, são os chamados temas transversais” (MEDINA, SANTOS,1999 p.25).
Para diversos autores, tais como Gadotti (2000), Morin (2004), Leff (2010), Lima (2011), a inclusão dos temas de Educação Ambiental nas salas de aula é mais que um desejo, deve ser uma realidade concretizada nas ações de um professor ao preparar suas aulas. Tudo está conectado, os assuntos podem ser melhor compreendidos interligando as diferentes disciplinas. Considerando o conceito de EA apresentado por Michele Sato (2003):
[...] trata-se de um processo de reconhecimento de valores e clarificação de conceitos, objetivando o desenvolvimento das habilidades e modificando as atitudes em relação ao meio, para entender e apreciar as inter-relações entre os seres humanos, suas culturas e seus meios biofísicos. (SATO, 2003, p. 23).
O ensino de Ciências associado aos temas transversais, gera uma nova possibilidade de trabalho pedagógico permitindo um ensino significativo, ativo e produtivo. Evidencia-se assim um olhar direcionado aos estudos ambientais, articulado com a configuração de práticas pedagógicas diferenciadas.
Para Leff (2010, p.180) “A Educação Ambiental recupera seu caráter crítico, libertário e emancipatório, propiciando o surgimento de um saber ambiental, promovendo uma ética da outridade que abre caminho para um diálogo de saberes e para uma política da diferença”.
Para muitos autores, entre eles, Edgar Morin e Henrique Leff colaboram com contribuições e influências para a práxis da Educação Ambiental. Encontramos em Morin (2003; 2005), a afirmativa de que ocorre uma crise nos fundamentos da Ciência, que afeta todo o pensamento contemporâneo. Isto vem ao encontro do que Leff (2001) também considera, ao tratar a crise ambiental, como crise do conhecimento, da razão, que problematiza o pensamento científico e a racionalidade dominante. Assim, a complexidade implica em revolução ou reforma do pensamento (LEFF, 2001; MORIN, 2002). Faz-se necessária uma mudança de mentalidade e uma transformação do conhecimento e das práticas educativas, no sentido de construir um novo saber que oriente a construção de um mundo melhor.
Segundo estes autores, nesta busca por mudanças, pautadas em pensamento complexo, que a EA se anuncia como movimento dinâmico de construção e de
reconstrução de conceitos, ideias, práticas e valores para a compreensão das relações sociedade/natureza. De acordo com Sato (2003, p. 23) “A Educação Ambiental também está relacionada com a prática das tomadas de decisões e a ética que conduzem para a melhoria da qualidade de vida”.
Dessa forma, a Educação Ambiental, com base no pensamento complexo, pode contribuir tanto no questionamento do conhecimento fragmentado contemporâneo, quanto na incorporação do saber ambiental na formação de profissionais educadores ambientais. A emergência dos novos paradigmas obriga a reorientar a Educação Ambiental. Trabalhar com Educação Ambiental é ultrapassar a tomada de consciência, buscar uma real mudança de comportamento. Uma mudança que se baseie, fundamentalmente, no conhecimento, na responsabilidade e na atitude.
Para Leff (2006), a questão Ambiental assume padrões jamais questionados. A EA é entendida como uma crise sem precedentes na história da humanidade, devido à limitação dos recursos naturais e à ilimitada complexidade de entendimentos que impõem novas formas de conhecer a realidade. Isto porque, quanto mais se questiona, mais soluções são buscadas e maiores são os fatores impulsionadores, colocando a problemática ambiental na questão central de debate em todas as partes do planeta, como também em todos os campos da Ciência.
Dentro desta ótica pautada nas mudanças e na sensibilização que direcionamos as atividades da sequência didática desta pesquisa, de modo a possibilitar situações de posicionamento dos estudantes frente a diversas situações ambientais referente aos recursos hídricos.