À EDUCAÇÃO PROFISSIONAL
2.3 O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: VOZES QUE ECOAM
O ensino de Língua Portuguesa — e lá se vai um tempo considerável — tem sido objeto de muitas refle- xões. Essas, longe de serem meros impressionismos, são estudos solidamente fundamentados e que, infe- lizmente, apontam para um diagnóstico convergente e configurador de uma realidade desanimadora: o en- sino dessa disciplina se vê envolto em um labirinto no qual não se consegue encontrar a ponta do fio de Ariadne.
Suassuna (2007), ao realizar uma breve revisão de estudos que ocorreram mesmo antes dos estudos linguísticos propriamente ditos — passando pelo re- nascimento até o século XX —, demonstra as raízes
da nossa tradição gramatical: o privilégio de formas linguísticas de prestígio contraposto à marginalização de formas ditas vulgares. Partindo dessa constatação, a autora a relaciona ao modelo de escola pelo qual se encaminha a pedagogia da língua. Para ela, aí se encontra a origem da crise existente no ensino de Lín- gua Portuguesa.
Essa crise, ainda segundo a autora, reverbera em vários aspectos que envolvem a dinâmica do processo ensino-aprendizagem da disciplina. O primeiro deles diz respeito aos manuais didáticos, uma vez que estes são pautados na dicotomia entre formas certas e formas erradas. Tal visão persiste até os dias atuais, ancorada nas gramáticas que, por sua vez, tendem a atribuir ao português uma homogeneidade que é estranha a qual- quer idioma.
Um segundo aspecto revelador da crise aqui men- cionada, apontado por Suassuna (2007), é a expansão dos meios de comunicação que não privilegiam o có-
digo escrito. Para a autora, a perda da hegemonia do texto escrito em meio a uma profusão de novos códigos originados pelas novas tecnologias chocou-se com as práticas escolares dominantes. Diante disso, a autora sugere que o ensino de língua materna mergulhe nessa torrente de novos códigos para entrar em sintonia com as transformações da sociedade.
Outro ponto posto em evidência é o denominado e já tão questionado ensino de redação. Conforme a autora, esse é um aspecto também atingido pelo afã da homo- geneidade linguística apregoada pelas gramáticas. Isso se revela quando, nas escolas, é comum se deparar com produções textuais despidas da natureza dialógica, in- tersubjetiva e histórica, inerente ao processo de escrita. Como consequência, o ensino da ortografia — questão imbricada às convenções da língua —, materializadora dessa escrita, termina por ser resultante da eleição de uma modalidade linguística-padrão em detrimento de outras, ditas “sem prestígio”. Superar essa visão, con-
forme a autora, requer perceber a língua como resulta- do de um processo sócio-histórico, o qual justifica o uso de determinadas convenções ortográficas.
Essa forma de olhar o texto escrito, apregoado nas tradicionais aulas de redação, também se reflete nas aulas de leitura. Estas, para a autora, se traduzem em práticas excludentes, resultantes de uma atividade de leitura assentada sobre uma concepção homogeneiza- dora de linguagem. Tal concepção, de acordo com Suas- suna (2007), atinge até mesmo o estudo do vocabulário, quando, na maioria das situações, banem-se palavras taxadas de gírias, neologismos, estrangeirismos...
Como consequência de todo esse quadro traçado para o ensino de Língua Portuguesa no Brasil, a au- tora aponta o reducionismo que há na relação entre a língua e seus usuários. Esse reducionismo é traduzido por atividades escolares inibidoras da criatividade e da espontaneidade; uma prática de mera reprodução, a qual acarreta uma visão do mundo como algo acabado,
artificial e, portanto, distante da vida.
Detectado o problema, a autora faz um passeio pe- las teorias linguísticas, observando os avanços intro- duzidos por cada uma e relacionando-os a possíveis contribuições que possam proporcionar mudanças no ensino de Língua Portuguesa. Feito isso, é estabele- cido um direcionamento argumentativo: comprovado o fracasso do ensino de Língua Portuguesa, surgem os estudos linguísticos que, no seu processo evolutivo, possibilitaram a contemplação da natureza conflitante e contraditória da linguagem.
Nesse estudo de Suassuna (2007), percebemos a importância que os estudos linguísticos adquirem no processo de mudança de percepção dos fenômenos da língua. E isso, se bem articulado, poderá interferir po- sitivamente nas maneiras de se conceber o ensino de Língua Portuguesa. No entanto, a autora alerta para o fato de que, se a escola não se mantiver em sintonia com as exigências que a sociedade faz ao ensino, po-
derá fracassar no seu intento transformador, por mais que as pesquisas avancem. Pensamos ser essa a pers- pectiva que deve permear, sobretudo, a disciplina Lín- gua Portuguesa na educação profissional. Então, um ensino de língua, para estar em consonância com o mundo, deverá ser direcionado para o real funciona- mento dessa língua na vida das pessoas.
Essa inquietude em relação ao ensino de Língua Portuguesa também é evidenciada em Antunes (2003). Partindo das dificuldades já reconhecidas por pro- fessores e pesquisadores envolvidos com o ensino da disciplina, a autora expõe alguns suportes teóricos, os quais julga como referências imprescindíveis para transformar as práticas de ensino do nosso idioma em algo relevante e eficiente. Ao refletir sobre o ensino de Língua Portuguesa, demonstra preocupação com o distanciamento entre esse ensino e a realidade do fun- cionamento das práticas de linguagem. Para Antunes (2003, p. 30),
Há um equívoco tremendo em relação à dimensão da gramática de uma língua, em relação às suas funções e às suas limitações também — equívoco que tem funcionado como apoio para que as au- las de língua se pareçam muito pouco com “encontros de pessoas em ativida- des de linguagem” e, muito menos ainda, com “encontros de interação”, nos quais as pessoas procurariam descobrir como ampliar suas possibilidades verbais de participar da vida de sua comunidade.
Se esse equívoco permeia o processo de ensino- -aprendizagem de Língua Portuguesa, é pertinente pensarmos nos sujeitos envolvidos nesse processo. É preciso pensarmos, também, que tanto professores quanto alunos estão inseridos em uma realidade que parece exigir cada vez mais uma ampliação das possi-
bilidades de interação por meio da linguagem.
Dentre tais possibilidades de interação, em con- sonância com os objetivos deste trabalho, está a re- lação entre o aprendizado das situações de interação em língua portuguesa por sujeitos que recebem uma formação orientada para o exercício profissional e as perspectivas que esses sujeitos constroem em relação a essa disciplina. Para Antunes (2003, p. 66), no mo- mento em que a escola optar por um ensino de Língua Portuguesa que dê conta das diversas situações de in- teração, ela “terá cumprido seu papel social de intervir mais positivamente na formação das pessoas para o pleno exercício de sua condição de cidadãs”.