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CAPÍTULO 4. ANÁLISE COMPARATIVA POR TÓPICOS NOS DOIS PAÍSES

4.4. Autonomia e políticas de resistência indígena a partir da década de 90

4.4.2. O ensino da história dos povos indígenas do Brasil e do México

A questão do ensino da história dos povos indígenas nos currículos oficiais brasileiro e mexicano, representa de forma explicita ou implícita, segundo as épocas e perspectivas, as ideologias que sustentam as posturas políticas oficiais em relação às comunidades indígenas. Através destas posturas, que manifestam-se em ações concretas ao longo da história, visualiza- se como a escola sempre foi o lugar para transmitir e reafirmar ideias e concepções hegemônicas. Por esse motivo, trazemos essa discussão como parte das conclusões deste trabalho, pois a forma de conceber e apresentar a história dos índios do Brasil e do México, é causa e consequência das lutas e resistências dos indígenas frente à situação de opressão na qual são protagonistas, e nem por isso, considerados como tal na história contada nas escolas. Por outro lado, a complexidade e a profundidade de tal discussão, implicaria dedicar uma tese inteira ao tema ou pelo menos um capítulo. Porém, neste trabalho, nos limitaremos a comentar alguns aspectos relevantes que refletem as ideologias sobre esses povos, suas culturas e suas línguas, e que podemos observar principalmente nos materiais didáticos da matéria de historia na escola, e mais recentemente, com a criação de leis que buscam mudar as perspectivas históricas profundamente racistas e excludentes sobre as civilizações mais antigas dos dois países (e do continente americano).

No Brasil, o debate sobre o ensino da história e culturas indígenas e afro-brasileiras, se intensificou sobre tudo a partir da nova lei Federal nº 11.645 de 2008, que determina a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena no ensino fundamental e médio nos estabelecimentos públicos e privados. Através do estipulado na lei, se pretende incluir essas histórias e culturas, de forma transversal no currículo educativo vigente, em especial nas áreas de artes, literatura e história brasileiras.

As principais críticas feitas pelos próprios professores e acadêmicos historiadores a esta lei, partem do reconhecimento da complexidade do assunto. Por um lado, porque ainda existe um grande vácuo no conhecimento dos povos e a suas culturas, ou se tem uma ideia muito generalizada e carregada de preconceitos, que é a imagem que se passou através dos livros escolares durante décadas. Por outro lado, os professores reconhecem a falta de programas de apoio ou de espaços de discussão, que introduzam o debate sobre os métodos e conteúdos a serem ensinados.

Em um trabalho sobre a experiência do ensino de história em comunidades indígenas do Mato Grosso do Sul, Da Silva (2013) coloca duas questões que nos parecem de suma importância para contribuir ao debate. Primeiramente, o problema da relação entre a oralidade e a escritura, já que, segundo uma perspectiva ocidental/eurocêntrica, a história escrita é aquela que tem a legitimidade de ser considerada como verdadeira, relegando à oralidade o papel secundário e mitológico do registro da história. E em segundo lugar, a discussão sobre a “aculturação” dos índios refere-se a certas comunidades não podem ser mais consideradas como indígenas pelo fato de não viver mais no meio do mato, e estarem imersas nas sociedades urbanas, vestindo roupas modernas e fazendo uso das novas tecnologias. (DA SILVA, 2013, p.141-145). Este discurso muitas vezes é usado para argumentar sobre a extinção de algumas etnias e portanto se justifica não ter políticas públicas que respeitem os direitos dessas comunidades na vida contemporânea e fora das Aldeias tradicionais. Embora muitas etnias tenham realmente desaparecido, e com elas suas culturas e línguas nativas, mas como consequência das guerras de extermínio viabilizadas pelos governos para a apropriação das terras e a exploração sistemática dos recursos naturais.

O que podemos reconhecer como ganho nos primeiros anos da Lei nº 11.645/08, é a intensa reflexão sobre o tema e com isso, a publicação de pesquisas e artigos que colocam questões essenciais para serem discutidas e a partir disso se propor novos caminhos na construção da interculturalidade.

Em síntese, a história contada e ensinada nas escolas brasileiras passou por vários momentos e perspectivas em relação aos índios. (FERNANDES BITTENCOURT, 2013, p.123). Nos primeiros livros de história do Brasil, os índios eram apresentados como selvagens, como povos sem história por não conhecerem a escrita, além de não terem religião (ou seja não serem católicos), e viver em comunidade com a natureza. Desde a época colonial e depois de independência, com a constituição da nação brasileira, os índios passam a ser parte de um projeto de miscigenação racial, que implicava o desaparecimento das culturas nativas. Circula o discurso da “democracia racial” que significava a integração dos índios à civilização graças ao trabalho de conversão religiosa dos missionários, ao projeto político-ideológico da miscigenação, e também graças às ocupações dos territórios pelos bandeirantes, trazendo para os índios ignorantes, as bondades da civilização. Assim, durante a época da república, depois da expulsão dos jesuítas e dos bandeirantes, os índios são esquecidos e a sua história apagada

dos discursos educativos e dos livros didáticos de história. Só na década de 1980 que os estudos e discursos acadêmicos sobre os indígenas ressurgem, desta vez, com a perspectiva do marxismo estruturalista que os define como grupos primitivos e não mais como selvagens, vítimas do sistema capitalista segundo a perspectiva da história ocidental.

No México, o ensino da história do país e o debate sobre os índios nesta história, começa na segunda metade do século XIX, quando, com as reformas liberais, se faz obrigatório o ensino da história nos programas educativos. O propósito então, era promover a ideia de uma pátria e uma identidade nacional homogênea. A partir da Revolução no inicio do século XX, surge a polêmica sobre as origens indígenas da nação mexicana. Se reconhecem duas correntes indigenistas que tentaram se implementar, em grande medida, através dos currículos de história. Por um lado, a perspectiva do indigenismo antropológico que reconhecia a herança pré-hispânica das civilizações indígenas, principalmente da asteca e maia, e que enaltecia o passado indígena sem considerar às comunidades indígenas do presente. Contudo, esta corrente representada pelo antropólogo Manuel Gamio, não superou a imagem negativa que se tinha dos índios, que apenas matizava as típicas imagens preconceituosas, do índio selvagem e preguiçoso. Por outro lado, existia a corrente hispanista encabeçada pelo ministro da educação, Justo Sierra. Esta perspectiva, considerava a pluralidade étnica e linguística como um obstáculo para a formação da pátria, e partindo desta concepção a história dos povos índios do México ficaria relegada aos museus e alguns espaços na literatura, sendo dada importância maior ao ensino e unificação da língua nacional, o espanhol. Desta forma, os debates sobre o ensino da história, a partir da década de 40, continuaram sendo sobre como deveria ser abordado o tema da conquista e sobre a relevância de reconhecer os antigos mexicanos como parte fundamental da identidade nacional, porém, não se discutia sobre a presença na atualidade dos índios vivos.

Embora, no México, as populações indígenas foram consideradas como parte da constituição da identidade nacional, muito pouco se questionou –pelo menos no âmbito institucional- sobre a perspectiva ocidental da história ensinada na escola. Vemos como, da mesma forma que no Brasil, onde a história sempre foi contada a partir da conquista, como fato determinante da construção das verdadeiras civilizações que conformariam os Estados nacionais no caminho ao progresso. Por outro lado, cabe assinalar a importância da obra do antropólogo e historiador mexicano Miguel León Portilla, sobre a perspectiva dos índios

nahuas (astecas) da conquista espanhola, “La visión de los vencidos”. Esta obra, de forma geral, dá continuidade ao debate rumo a uma reconstrução da história dos índios do México (do Brasil e do continente americano), a partir da perspectiva descolonial, que poderia dar voz à aqueles que foram silenciados durante séculos.