O ensino médio em sua gênese esteve ligado à tradição de uma educação feita para as elites e a classe média em ascensão, tendo como sua principal finalidade favorecer o ingresso dos alunos no nível superior.
A função essencial do ensino secundário era preparar o sujeito para o ingresso nos cursos de nível superior. O ensino técnico-profissional sofria com o quase absoluto descaso. Mas a criação do Colégio D. Pedro II foi o primeiro passo dado pelo governo central do país, que há pouco tinha conseguido sua independência, para organizar o ensino secundário regular.
Durante muito tempo, inclusive já na primeira metade do século XX, o ensino médio ficou restrito aos estabelecimentos como os liceus, nas capitais dos estados, voltados para a educação masculina e as escolas normais que visavam a educação feminina, além do Colégio D. Pedro II, no Rio de Janeiro. Eram escolas reservadas às elites burocráticas e latifundiárias.
(SANTOS, 2010, p. 04)
Apesar deste nível de ensino ter sido anteriormente reservado às elites brasileiras, o ensino médio passa atualmente por um processo de expansão que pode ser percebido diante da construção de novas escolas, melhoria de infraestrutura das instituições já existentes, aumento de vagas, entre outros aspectos como afirma as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs)
No Brasil, nos últimos 20 anos, houve uma ampliação do acesso dos adolescentes e jovens ao ensino médio, a qual trouxe para as escolas públicas um novo contingente de estudantes, de modo geral jovens filhos das classes trabalhadoras. (BRASIL, 2013, p.146)
Além disso, há preocupação em adequar os currículos2, criar projetos/propostas como alternativas para melhoria do que se é ensinado nesse nível escolar.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996.) Define o e ensino médio como a etapa final da educação básica e em sua Seção IV, Art. 35º estabelece os objetivos e finalidades desta etapa de ensino.
O ensino médio, [...] terá como finalidades: I - a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos; II - a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores; III - o aprimoramento do educando como pessoa
2 A palavra currículo está sendo empregando referindo-se às atividades organizadas por instituições escolares.
humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico; IV - a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina.
Desse modo, reconhecendo as funções do ensino médio para além de uma função pautada apenas no ensino técnico profissionalizante, percebe-se uma visão ampla, por parte da legislação, com o aluno dessa etapa do ensino, favorecendo assim a apreensão de valores e conhecimentos que lhe permitam uma formação integral, contemplando o desenvolvimento da criticidade, e tornando-o assim um cidadão autônomo, consciente e crítico.
No entanto as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica, mesmo reconhecendo como possível o cumprimento desse artigo, num sentido geral afirma que “[...] da maneira como está organizada a maioria das escolas, o Ensino Médio não consegue atender as atribuições estabelecidas na lei de diretrizes e bases da educação Nacional (LDB)”. (BRASIL, 2013, p.146).
E aponta que “[...] para levar a diante as ideias preconizadas na LDB, a educação no ensino médio deve possibilitar aos adolescentes, jovens e adultos trabalhadores acesso a conhecimentos que permitam a compreensão das diferentes formas de explicar o mundo” (BRASIL, 2013, p.147).
Pode-se afirmar com base nos dados do censo escolar 2016 (INEP, 2016, p.09) que o ensino médio conta com 8,1 milhões de matriculas, desses, 6,9 milhões de alunos frequentam a rede estadual, esse tipo de escola tem uma participação de 84,8% no total de matrículas e concentra 96,9% dos alunos da rede pública.
De modo geral os alunos do ensino médio, conforme Pesquisa Nacional por Amostras de Domicilio (PNAD) feita em 2015, 85,0% dos matriculados nesta modalidade de ensino possuem faixa etária entre 15 e 17 anos.
Nesta fase o aluno vivencia a juventude, que biologicamente é definida como uma etapa de vida que se encontra entre a infância e fase adulta. Um período marcado por dois momentos: a adolescência, como primeira fase (12 aos 17 anos); e a juventude propriamente dita (18 aos 29 anos), que se refere a fase de construção de trajetórias de entrada na vida social. É sabido que não apenas jovens frequentam o ensino médio, mas, uma significativa parcela dos alunos que frequentam essa etapa refere-se a faixa etária citada anteriormente.
Neste nível de ensino, especificamente, o professor lida com adolescentes; fase marcada por muitos questionamentos, fortes exigências, novas experiências e constantes preocupações. Embora tenha suas características biológicas próprias, a adolescência é compreendida como um fenômeno social, Becker (1989, p.10) propõe que olhemos a adolescência como “[...] a passagem de uma atitude de simples espectador para outra ativa, questionadora. Que inclusive vai gerar revisão, autocrítica, transformação”.
Sob uma perspectiva educacional Soares et al. (1992) coloca o ensino médio como o 4º ciclo3
O quarto ciclo se dá na 1ª 2ª e 3ª séries do ensino médio. É o ciclo de aprofundamento da sistematização do conhecimento. Nele o aluno adquire uma relação especial com o objeto, que lhe permite refletir sobre ele. A apreensão das características especiais dos objetos é inacessível a partir de pseudoconceitos próprios do senso comum. O aluno começa a perceber, compreender e explicar que há propriedades comuns e regulares nos objetos. Ele dá um salto qualitativo quando estabelece as regularidades dos objetos. É nesse ciclo que o aluno lida com a regularidade científica, podendo a partir dele adquirir algumas condições objetivas para ser produtor de conhecimento científico quando submetido à atividade de pesquisa. (SOARES et al. 1992, p.35)
Assim, o aluno do ensino médio é capaz de compreender situações e conteúdos mais complexos, e de refletir criticamente, então nesse nível de ensino essas capacidades podem e devem ser estimuladas pela escola e pelo professor.
Pois, vivemos em uma sociedade desigual, e os adolescentes são reflexões dessa realidade heterogênea, cada um traz consigo para o interior da instituição as contradições da estrutura social, isso é um fator que interfere nas trajetórias escolares destes, e por isso, não pode ser ignorado pelo professor.
Assim, “não há juventude, mas sim juventudes”. (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2008, p.220) é o que diz as Orientações Curriculares para o Ensino Médio, e dizer que existem juventudes, significa que, essa categoria de sujeitos
Necessita ser considerada em suas múltiplas dimensões, com especificidades próprias que não estão restritas às dimensões biológica e etária, mas que se encontram articuladas com uma multiplicidade de atravessamentos sociais e culturais, produzindo múltiplas culturas juvenis ou muitas juventudes. ” (2013, p.155).
Assim, cada aluno, ainda que pertencente a uma categoria (jovem), não deve ser visto e entendido pela escola e pelo professor de Educação Física de forma homogeneizada. As DCN’s (2013, p.155) complementam essa ideia ao afirmar que “Entender o jovem do Ensino Médio dessa forma significa superar uma noção homogeneizante e naturalizada desse estudante, passando a percebê-lo como sujeito com valores, comportamentos, visões de mundo, interesses e necessidades singulares. ”
Com objetivo de compreender a educação numa conjuntura social Demerval Saviani apresenta a Pedagogia Histórico Critica, que conforme Gasparin (1984. p.13) “Objetiva resgatar a
3 Nos ciclos os conteúdos de ensino são tratados simultaneamente, constituindo-se referências que vão se ampliando no pensamento do aluno de forma espiralada, desde o momento da constatação de um ou vários dados da realidade, até interpreta-los, compreende-los e explica-los. (SOARES et al, 1992. p.34)
importância da escola, a reorganização do processo educativo, ressaltando o saber sistematizado, a partir do qual se define a especificidade do saber escolar”
Para tanto, Savianni (2009, p.67) aponta o método da práxis social, que é formada por
“momentos articulados num mesmo movimento único e orgânico”, que inseridos à prática de ensino do professor, é capaz de qualificar suas aulas e consequentemente o processo de ensino aprendizagem, favorecendo assim a formação integral do aluno.
Os momentos são; a prática social, onde “os professores assim como os alunos podem posicionar-se diferentemente enquanto agentes sociais diferenciados[...] enquanto o professor tem uma compreensão que poderíamos denominar ‘síntese precária’, a compreensão do aluno e de caráter sincrético” (SAVIANNI, 2009, p.63). Ou seja, a compreensão do professor é sintética pois seus conhecimentos e experiências, se apresentam mais articulados, apesar disso sua síntese é precária, pois, por mais que possua essa capacidade de articulação ele não conhece os níveis de compreensão do seu aluno inicialmente.
Num segundo momento surge a problematização, que “trata-se de detectar que questões precisam ser resolvidas no âmbito da prática social e, em consequência, conhecimento é necessário dominar” (SAVIANNI, 2009, p.64). Após esse momento dá-se a instrumentalização, onde o aluno
“apropria-se dos instrumentos teóricos e práticos necessários ao equacionamento dos problemas detectados na prática social“. (SAVIANNI, 2009, p.64)
Catarse “[...] momento da expressão elaborada da nova forma de entendimento da prática social a que se ascendeu” (SAVIANNI, p.64)
E então acontece a prática social, “nesse ponto, ao mesmo tempo que os alunos ascendem ao nível sintético em que, por suposto, já se encontrava, o professor no ponto de partida, reduz-se a precariedade da síntese do professor, cuja compreensão se torna maior e mais orgânica. ” (SAVIANNI, p.65)
Nesse método, reconhece-se que o professor possui um nível de saber maior que os do aluno, no entanto, o professor não é o detentor absoluto desse conhecimento, ambos no decorrer do processo vão construindo e qualificando o saber mutualmente.
Desse modo, o processo de ensino é construído partindo da prática social, precária ainda, em direção a uma prática social onde aluno e professor atingem uma maior compreensão sobre o que está sendo ensinado e apreendido.