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O enunciado

No documento lucilacarneiroguadelupe (páginas 59-62)

A compreensão do conceito de enunciado, como foi concebido por Bakhtin e seu Círculo, é de grande relevância para as reflexões sobre a linguagem, contribuindo para discussões importantes no campo dos estudos enunciativo-discursivos.

É possível observar que a noção de enunciado vai sendo construída dentro do percurso da obra bakhtiniana. Assim como em Marxismo e filosofia da linguagem (1929/1995), também no texto Os gêneros do discurso (1979/2010), o conceito de enunciado está relacionado com o processo interativo, que contempla o verbal e o não verbal, presentes em cada situação comunicativa.

Em ambas as obras, encontramos o enunciado apresentado como integrante de um processo interativo delimitado por elementos históricos, sociais e culturais, que dialogam com discursos que antecedem esse enunciado e antecipam os seus resultados no futuro, provocando outros enunciados.

Brait e Melo (2005) afirmam, a respeito de Marxismo e filosofia da linguagem:

Um dos méritos dessa obra é justamente ter difundido a ideia de enunciação, de presença de sujeito e de história na existência de um enunciado concreto, apontando para a enunciação como sendo de natureza constitutivamente social, histórica e que, por isso, liga-se a enunciações anteriores e a enunciações posteriores produzindo e fazendo circular discursos. (BRAIT; MELO, 2005, p. 68)

O enunciado como unidade da comunicação discursiva, dito como concreto e único, só pode ser proferido uma vez; no entanto, esse mesmo enunciado sofre interferência de outros já ditos anteriormente e irá, certamente, influenciar os próximos. Concordamos com Fiorin (2008), quando afirma que “os enunciados são irrepetíveis, uma vez que são acontecimentos únicos, cada vez tendo um acento, uma apreciação, uma entonação próprios” (FIORIN, 2008, p. 20).

De acordo com Bakhtin e seu Círculo, o enunciado sempre irá dirigir-se a alguém, no caso, o destinatário, mesmo que esse não esteja explicitamente presente na comunicação discursiva, o que nos faz ressaltar:

Perguntas como “A quem se dirige o enunciador?”, “Como o locutor percebe e imagina o seu destinatário?”, “Qual é a força da influência do destinatário sobre o enunciador?” ajudam, da perspectiva bakhtiniana, a compreender a composição e o estilo dos enunciados, apontando tanto quanto os traços de autoria, para o que há de extraverbal, na constituição do verbal. Daí para o

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estudo dos gêneros do discurso, em cada uma das esferas da comunicação verbal, da cultura, é um pulo, na medida em que cada esfera, cada atividade, cada campo de atuação tem concepções de destinatários, o que, de certa forma faz aparecer e circular os gêneros do discurso”. (BRAIT; MELO, 2005, p. 72)

Cada enunciado concreto é definido pela alternância dos sujeitos participantes da comunicação discursiva (falantes), e essa cria limites do enunciado nas diversas esferas da atividade humana. O enunciador termina o seu enunciado e, em seguida, a palavra é passada ao outro, ou cede lugar à sua compreensão ativamente responsiva. O diálogo em que se alternam os enunciados dos envolvidos no processo comunicativo, através de réplicas, é a forma mais simples da comunicação discursiva.

Todos os participantes da comunicação discursiva têm um papel importante dentro do processo de interação, o que pressupõe a dinâmica dialógica da troca entre os sujeitos discursivos. Desse modo, não se pode pensar somente em um ouvinte (receptor) passivo, que simplesmente recebe a mensagem de um falante (emissor) e a decodifica. O processo discursivo da comunicação contempla a participação ativa de todos os envolvidos.

Como afirma Bakthin (1979/2010), “cada enunciado é um elo na corrente complexamente organizada de outros enunciados” (op. cit., p. 272). A partir do momento em que um enunciado é dito, de alguma forma, será respondido. O destinatário, ao ouvir e compreendê-lo, já prepara sua resposta a ele, concordando, discordando ou, por exemplo, complementando o mesmo e, assim, se forma a posição responsiva do ouvinte (op. cit., p. 271).

De acordo com o pensamento bakhtiniano, não se pode perder de vista que a língua é uma forma viva de expressão do falante. Sua posição envolve um processo ativo na interação com a recíproca posição do ouvinte: esse se manifestará de alguma maneira. Ainda que a resposta do ouvinte não seja imediata, em algum momento ele responderá, seja em outro discurso ou em seu próprio comportamento. Essa compreensão do enunciado, em que tanto o falante quanto o ouvinte têm participação ativa no processo de comunicação, Bakhtin (1979/2010) classifica como sendo de “natureza ativamente responsiva”.

Entre as unidades da língua (palavras e orações), não é possível ocorrer essa alternância dos sujeitos da comunicação discursiva, uma vez que os limites da oração

60 não podem ser determinados. A oração enquanto unidade da língua, segundo a concepção bakhtiniana,

não é delimitada de ambos os lados pela alternância de sujeitos do discurso, não tem contato imediato com a realidade (com a situação extraverbal), nem relação imediata com enunciados alheios, não dispõe de plenitude semântica nem capacidade de determinar imediatamente a posição responsiva do outro22 falante, isto é, de suscitar resposta. A oração enquanto unidade da língua tem natureza gramatical, lei gramatical e unidade. (BAKHTIN, 1979/2010, p. 278)

Para o autor, em função da ausência de uma teoria elaborada do enunciado como unidade da comunicação discursiva, existe uma confusão na distinção entre enunciado e oração. É preciso atentar para uma questão fundamental: as unidades da língua podem construir os enunciados, no entanto, isso não faz com que as mesmas se transformem em uma unidade da comunicação discursiva.

Considerando-se a comunicação discursiva, além da alternância dos sujeitos do discurso, outro traço fundamental do enunciado é a sua conclusibilidade, uma espécie de aspecto interno dentro dessa alternância. O enunciador diz (ou escreve) um enunciado, e ao percebermos o seu término, é possível responder ao que foi dito. Por conta da conclusibilidade, percebemos o fim do enunciado e, assim, podemos ter uma atitude responsiva em relação a ele.

O problema do dialogismo no enunciado não está nas réplicas do diálogo real, das relações cotidianas, contudo, é importante destacar que, em muitas situações, as relações dialógicas estão presentes, de maneira bem mais complexa, como, por exemplo, em enunciados que se distanciam no tempo e no espaço, sem ter conhecimento um do outro, mas que, em determinado ponto, convergem em algum sentido, apresentando o mesmo tema ou ponto de vista.

As réplicas do diálogo são interligadas e possuem uma conclusibilidade própria, que, por mais breve que sejam, passam a ideia do enunciador e provocam uma resposta. São comuns as relações, tais como – pergunta- resposta, afirmação-objeção, afirmação- concordância, entre outras – entretanto, Bakhtin (1979/2010) afirma a esse respeito:

Essas relações específicas entre as réplicas do diálogo são apenas modalidades das relações específicas entre as enunciações plenas no processo de comunicação discursiva. Essas relações só são possíveis entre enunciações

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de diferentes sujeitos do discurso, pressupõem outros23 (em relação ao falante) membros da comunicação discursiva. Essas relações entre enunciações plenas não se prestam à gramaticalização, uma vez que, reiteramos, não são possíveis entre unidades da língua, e isso tanto no sistema da língua quanto no interior do enunciado. (BAKHTIN, 1979/2010, p. 276)

No documento lucilacarneiroguadelupe (páginas 59-62)