CAPÍTULO I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO
3. ESTRUTURAS RESIDENCIAIS PARA IDOSOS
3.1. O envelhecimento e o síndrome da fragilidade: vulnerabilidade e
O envelhecimento da população mundial é um fenómeno rápido e progressivo, que afeta quase todos os países do mundo. Enquanto a fecundidade continuar a cair ou a permanecer baixa, e se o aumento da sobrevivência de pessoas com idades mais avançadas se mantiver, a proporção de pessoas idosas continuará a crescer (Freitas, 2015).
São distintas as circunstâncias que conduzem a vivências com maior ou menor qualidade de vida. No entanto, a velhice tem vindo a ser descrita como uma fase da vida de maior complexidade, em que as diversidades impostas pelo dia-a-dia se tornam mais árduas (Marin, et al., 2012).
No contexto Europeu, Portugal expressa uma estrutura demográfica considerada como intermédia face ao envelhecimento (Pinto, 2013).
O conceito de idoso tem sido, ao longo dos anos, objeto de um intenso debate, onde se confrontam várias visões distintas. Algumas delas descrevem o idoso e a velhice, encarando- o como um ser frágil em situação de pobreza e isolamento social, solidão, doença e dependência. Outras perspetivas dão enfoque à exclusão social e ao sofrimento (Alencar, et al., 2012).
Pinto (2013), propõe o conceito de séniores para citar homens e mulheres com mais de 65 anos, desligados de atividades profissionais, mas que mantêm as suas capacidades, que são independentes, saudáveis e ativos.
Por outro lado, um Idoso é definido pela Direção Geral da Saúde (DGS) como uma pessoa com mais de 65 anos, independentemente do sexo ou do estado de saúde aplicável (Silva, 2014).
Segundo Pinto (2013), o envelhecimento é um processo comum a todos os indivíduos, que se carateriza essencialmente pela diminuição gradual das capacidades dos vários sistemas orgânicos para realizar funções de forma eficaz e eficiente. É um processo dinâmico e progressivo, em que se verificam alterações psicológicas, morfológicas, funcionais e bioquímicas, que vão alterando o organismo e tornando-o mais suscetível.
Embora seja um fenómeno universal para todos os indivíduos, verificam-se diferenças de pessoa para pessoa. Isto porque cada um vivencia a velhice ao seu próprio ritmo, podendo iniciar-se mais precocemente ou então produzir-se de forma lenta e permitindo um estado de saúde mais duradouro. Pinto (2013) enumera ainda, de forma sucinta, as manifestações principais inerentes ao processo de envelhecimento, assim como os problemas de saúde mais comuns nesta faixa etária, descritos no quadro abaixo (QUADRO 3). Como pode observar-se, o envelhecimento conduz a alterações que se manifestam principalmente por uma diminuição das diferentes capacidades da pessoa e traduz-se ainda no aparecimento de uma série de problemas de saúde.
A lteraç ões i n ere n te s ao p ro ces so d e en vel h ec im en to
Diminuição da capacidade cardiovascular Diminuição da capacidade respiratória Diminuição da força e musculatura Diminuição da flexibilidade Diminuição do equilíbrio
Diminuição das habilidades motoras Diminuição da massa óssea
Diminuição da capacidade de termorregulação
Diminuição das alterações sensoriais (visão, audição, memória, sono) Alterações do sistema nervoso
Pro b le m as d e saú d e in ere n tes ao p ro ces so d e en vel h ec im en
to Incontinência urinária Instabilidade postural e quedas
Mobilidade Demência Delirium Depressão
QUADRO 3: Efeitos de saúde inerentes ao processo de envelhecimento e problemas mais frequentes (adaptado de Pinto, 2013).
Segundo as estimativas e projeções do Instituto Nacional de Estatística (INE), em Portugal o índice de envelhecimento entre 2015 e 2080 poderá mais do que duplicar, passando de 147 para 317 idosos por cada 100 jovens, o que traduz a situação num grande problema para a saúde púbica (INE, 2017) (GRAFICO 1).
GRÁFICO 1: Índice de Envelhecimento entre 1991 a 2080 em Portugal (estimativas e projeções) (Fonte: INE, 2017).
O envelhecimento tende a ser um estado delicado e doloroso para muitos idosos. É frequente assistir-se ao isolamento, à falta de apoio social, à dificuldade em lidar com o próprio processo de envelhecimento, com a morte do conjugue, ao abandono familiar e mesmo às dificuldades financeiras. Todos estes fatores contribuem, frequentemente, para o desencadeamento ou agravamento de doenças físicas e psíquicas, que deixam o idoso frágil e debilitado (Marin, et al., 2012).
Os idosos são propensos a uma perda gradual da sua independência e a uma maior debilidade, mesmo que se encontrem num bom estado de saúde. A preocupação com a condição de vulnerabilidade em que os idosos se encontram tem vindo a aumentar nas últimas décadas devido ao envelhecimento progressivo da população (Marin, et al., 2012). Assim, abordar a fragilidade a que o idoso está exposto torna-se, portanto, fundamental. Esta apreciação remete-nos para um conceito já conhecido mas ainda pouco explorado: A fragilidade versus vulnerabilidade do idoso.
O termo Vulnerabilidade deriva do latim vulnerable (=ferir) e vulnerabilis (=que causa lesão). É resultado de complexas interações que resultam em ameaças, que crescem e se materializam ao longo dos tempos, aliadas à ausência de defesas e/ou recursos que permitam lidar com essa ameaça que os torna vulneráveis. É um conceito amplo, complexo e multidimensional, que inclui dimensões de ordem biológica (que se expressam pelo desequilíbrio da função biológica), psicológica (que se manifestam pelas funções psíquicas do idoso, ancoradas pelos recursos emocionais e afetivos que dispõem), espiritual, cultural, social e ambiental (Silva, et al., 2012).
A fragilidade pode manifestar-se em qualquer faixa etária, podendo estar presente não apenas na velhice. Contudo, quando associada ao envelhecimento, considera-se um
síndrome clínico de natureza multifatorial que se carateriza por um estado de vulnerabilidade fisiológica que resulta numa diminuição da energia e habilidades. O conceito de fragilidade agrega a vulnerabilidade, a resposta diminuta ao stress, uma maior suscetibilidade para a doença e, consequentemente, para a incapacidade. Este estado conduz geralmente a uma deterioração da qualidade de vida, à sobrecarga dos cuidadores e a maiores custos relacionados com a saúde. O síndrome de fragilidade, pode então, ser definido como uma “diminuição da reserva homeostática e redução da capacidade do organismo de resistir às intempéries, resultando em declínios cumulativos em múltiplos sistemas fisiológicos, causando vulnerabilidade e efeitos adversos” (Lana, et al., 2014). Os mesmos autores (Lana, et al., 2014) concordam que o envelhecimento conduz a uma maior vulnerabilidade de fatores internos e externos que predispõem o risco de morbimortalidade. Nesse contexto, pode ocorrer o desenvolvimento da fragilidade no idoso, caraterizada por sinais e sintomas que são preditores de diversas complicações futuras, o que torna esta condição também um importante problema e um foco de atenção para a saúde pública (Lana, et al., 2014).
A própria doença impõe ao doente em geral a noção da sua fragilidade e consequentes perdas a nível físico, afetivo-relacional e socio-profissional (Nicolau, 2013).
A fragilidade no idoso carateriza-se pela presença de sinais e sintomas específicos que foram descritos por Lana, et al. (2014) na sua revisão acerca da síndrome da fragilidade no idoso: perda de peso não intencional, autorrelato de fadiga, diminuição da forma de preensão, redução das atividades físicas, diminuição da velocidade de marcha (lentidão) e diminuição das relações sociais.
A velhice, caraterizada por uma maior fragilidade conduz, inevitavelmente, a uma maior dependência. O valor do Índice de dependência de idosos (entendido como a relação entre a população idosa e a população em idade ativa, definida habitualmente como o quociente entre o número de pessoas com 65 ou mais anos e o número de pessoas com idades compreendidas entre os 15 e os 64 anos) tem crescido de forma incessante, atingindo já em 2012 28,8%, isto é, a população com 65 ou mais anos equivale a mais de um quarto da população em idade ativa. Este indicador é de extrema utilidade no que concerne à monitorização das alterações estruturais da população e da evolução demográfica marcada pelo envelhecimento (Pinto, 2013).