3. A TESSITURA DE UM HOMEM SÉRIO
3.5. O envelope com dinheiro ou Aceite o mistério
Na primeira vez que Clive foi ao escritório de Larry, não vimos o aluno deixando nada sobre a mesa. Sequer vimos o aluno próximo à mesa. Ele simplesmente levantara com seus livros nas mãos e deixara a sala. Mesmo assim, inferimos, junto a Larry, que o envelope cheio de dinheiro encontrado sobre a mesa veio de Clive. Larry corre atrás do aluno, mas só encontra longos corredores vazios. O olhar de Larry é de um misto de pasmo e indignação. No dia seguinte, Clive retorna ao escritório a pedido de Larry. É o dia depois da primeira conversa com Judith. A preocupação e a confusão começam a deixar as primeiras marcas no corpo de Larry: seu cabelo está levemente despenteado e sua voz, taciturna. O castelo de Larry já começa a ruir – ou melhor, o chão sobre seu castelo começa a ceder. O segundo encontro com Clive virá causar mais um abalo ao terreno. “Sim, obrigado por vir, Clive. Sente-se.” Apesar do visível descontentamento de Larry, Clive é, como no início, pouco expressivo o, de postura ereta e tom regular na fala, em contraste com a afetação que perpassa a atuação de Larry. O professor começa:
LARRY: Nós não tivemos, eu acho, uma boa conversa no outro dia. Mas você deixou algo...
CLIVE: Eu não deixei.
LARRY: Bem, você nem sabe o que eu ia dizer.
CLIVE: Eu não deixei nada. Eu não estou sentindo falta de nada. Eu sei onde tudo está.
LARRY: Bem, então, Clive,de onde veio isso?
FIGURA 48 - Um homem sério (16)
Larry tira da gaveta o envelope e mostra a Clive, que o olha silenciosa e inexpressivamente. A essa altura, temos ainda mais a certeza de que foi Clive quem deixou o envelope. Larry é firme:
LARRY: Isso está aqui, não está? CLIVE: Sim, senhor. Isso está aí.
LARRY: Isso não é nada. Isso é alguma coisa. CLIVE: Sim, isso é alguma coisa. O que é isso?
LARRY: Você sabe o que é isso, eu acredito. E você sabe que eu não posso ficar com isso, Clive.
CLIVE: Sim, senhor.
LARRY: Eu terei que encaminhar isso para o professor Finkle, junto com minhas suspeitas sobre de onde isso veio. Ações tem consequências. CLIVE: Sim, frequentemente.
LARRY: Não, sempre! Ações sempre tem consequências. Neste escritório, ações sempre têm consequências.
CLIVE: Sim, senhor.
LARRY: Não só de física. Moralmente. CLIVE: Sim.
E mais uma vez estamos diante da expressiva racionalidade de Larry. Para toda ação, uma consequência, supondo que cada ação pode ser determinada, pode ser circunscrita em uma totalidade identitária; e que, uma vez determinada, cada ação possui um desdobramento lógico, necessário e previsto (ou, no mínimo, suposto). A lei física é a mesma da moral da racionalidade expressa na figura de Larry. A condenação da ação do aluno deve ter uma consequência – importante perceber como a suposição de uma ontologia lógica da ação e reação transforma-se em uma deontologia que funda a relação moral com o mundo. E sendo tomada como uma ação que é, segundo os princípios do
professor, moralmente desviante, ela deve ter como consequência uma punição. Uma vez que a retidão é ameaçada por um gesto, esse gesto deve ser reprimido para que a moralidade seja preservada. “Neste escritório, ações sempre têm consequências”, protesta Larry, batendo desajeitadamente na mesa. E se no mundo da amoralidade tais ações são permitidas, Larry cuidará que, ao seu redor, a moralidade permaneça. Mas as leis de Larry são, então, desafiadas na continuidade da conversa:
LARRY: E nós dois sabemos sobre suas ações. CLIVE: Não, senhor, eu sei sobre minhas ações.
LARRY: Eu posso interpretar, Clive. Eu sei o que você pretendia que eu entendesse.
CLIVE: Mera suposi, são senhor. LARRY: “Mera suposi, são senhor”?
CLIVE: Mera suposição, senhor. Muito incerto.
Ao sugerir que Larry não viu o aluno deixando o envelope sobre a mesa – assim como nós não vimos – , e que a acusação estaria baseada em mera suposição, Clive está provocando um desconcerto no circuito ação-reação, uma vez que questiona o fundamento daquilo que está sendo posto no termo da ação. Se estávamos certos de que o envelope viera de Clive, o aluno vem para, muito delicadamente, nos lembrar do grau de incerteza que existe na nossa associação entre um e outro; uma associação que é lógica, mas que é constituída por lacunas. A fala de Clive tira a ênfase dos termos que Larry coloca e enfatiza as lacunas que existem na operação – ou, de uma forma mais fundamental, a lacuna é criada, uma vez que, até então, ela parecia inexistente. E ainda que a fala de Clive possa parecer puramente um gesto cínico e oportunista, ele insere uma inegável dificuldade e complexificação na situação, evidenciando as trevas sobre a forma de saber e compreender o passado – ou criando um novo passado constituído por trevas – , ele anuvia o olhar para o futuro e cria uma confusão sobre como proceder. A situação que envolve Larry e Clive, cujas ações vinham transcorrendo em seu fluxo contínuo e normal, é então tomada por presença, o fluxo é interrompido e a narrativa passa a se desenrolar com um novo nó de indeterminação que obscurece o caminho e torna o percurso mais pesado e tateante. O insólito e incerto da conversa com Clive tornam-se mais um desafio à normalidade no mundo de Larry, misturando-se às demais sequências que vêm entrecruzando-se ao longo da intriga, e representam mais uma injeção despragmatizante na nossa vivência dentro desse mundo.
O processo relativo à questão de Clive aprofunda-se e enraíza-se quando Larry é visitado em casa pelo pai do aluno. “Choque de cultura.”, ouvimos de uma voz com sotaque oriental
carregado, enquanto vemos em detalhe um homem chocando seus punhos. “Choque de cultura.”, ele repete.
FIGURA 49 - Um homem sério (17)
De pé, ao lado de seu carro, Larry contesta:
LARRY: Com todo respeito, senhor Park, eu acho que não é isso. Sr. PARK: Sim.
LARRY: Não. Seria choque de cultura se fosse um costume na sua terra subornar pessoas por notas.
Sr. PARK: Sim.
LARRY: Então, você está dizendo que é o costume? Sr. PARK: Não, isso é difamação! Motivo para processo!
LARRY: Deixa eu ver se entendi. Você está ameaçando me processar por difamar seu filho?
Sr. PARK: Sim.
E mais uma vez Larry torna-se reagente numa relação kafkiana de inversão ou suspensão da ordem “razoável” das coisas. Ele não consegue compreender como a ordem das coisas levaram àquela situação, e busca em vão colocar os termos numa posição lógica.
LARRY: Olha só, se fosse difamação, deveria haver alguém para quem eu o estaria difamando, ou eu... Tudo bem, vamos simplificar. Eu poderia fingir que o dinheiro nunca apareceu. Isso não é difamar ninguém.
Sr. PARK: Sim, e nota de aprovação. LARRY: Nota de aprovação?
Sr. PARK: Sim.
LARRY: Ou você vai me processar? Sr. PARK: Por aceitar dinheiro. LARRY: Então ele deixou o dinheiro?
Sr. PARK: Isso é difamação!
LARRY: Isso não faz o menor sentido. Ou ele deixou o dinheiro ou não deixou.
Sr. PARK: Por favor. Aceite o mistério
Larry falha duplamente ao tentar posicionar as coisas em uma ordem lógica que o permita tomar as rédeas da situação. Primeiro, falha ao tentar, em meio a suas confusas palavras, compreender ele mesmo como as coisas tomaram tais dimensões incoerentes. E falha também ao tentar convencer seu interlocutor dessa suposta incoerência, e então reverter o jogo. “Aceite o mistério” parece ser a sentença de que não há saída possível para a racionalidade reta de Larry, sua moralidade, sua razoabilidade; insistir nessa racionalidade o levará à armadilha cínica que representa Sr. Park. Mais uma vez Larry é transformado em reagente de ações que lhe são impostas, engolido por um jogo cujas regras lhe escapam, e não há vizinho durão que possa resolver sua situação. “Esse homem está te incomodando?”, pergunta Sr. Brandt que se aproxima durante a conversa. “Se ele está me incomodando? Não.”, responde Larry sem saber exatamente com a intervenção do homem que ameaça mais do que as fronteiras da sua varanda.
Seja com Clive ou com Sr. Park, temos acesso a qualquer tipo de informação via Larry. Sabemos (ou não sabemos) das ações de Clive tanto quanto Larry. Ainda que não compartilhemos de seus pressupostos racionais, acompanhamos o desvendamento de uma confusão junto dele. Se rimos da situação é porque nos descomprometemos momentaneamente com o sofrimento de Larry, mas nos percebemos tão confuso quanto ele. O absurdo certamente não nos afeta da mesma forma que afeta ao personagem, mas não somos tão diferentes dele ao considerarmos tal situação absurda. Mais ainda, o absurdo passa a ser profundamente inquietante na medida em que ele nos confronta e nos obriga a considerá-lo como real, presença inegável. Essa é uma característica importante da narrativa de Um homem sério: o absurdo deixa de ser desvio para se impor como condição. E por mais que o negamos, ele se impõe com vigor. Lembremos mais uma vez do encontro de K. com os guardas:
- Sem dúvida, essa lei não existe senão na imaginação de vocês – prosseguiu dizendo K., com a intenção de penetrar o pensamento dos guardas e procurando induzi-lo em seu favor. O guarda, porém, limitou-se a dizer:
- Você logo sentirá o efeito dessa lei. (KAFKA, 2001, p. 41)
Mas se Larry parece viver seu próprio processo kafkiano, é necessário precisar uma distinção importante que configura nossa experiência com o filme. Uma expressiva chave para a compreensão disso pode estar na relação entre Larry e seu vizinho.