4.3 CASAL 3 – DANIEL E ELIANE
4.3.5 O envolvimento do padrasto com sua enteada
Eliane em seu relato sobre o que é ser padrasto, afirma: “É se preocupar com uma
pessoa que não é filha dele, mas ele tem um carinho e tem uma preocupação como se fosse”.
Ao ser questionado sobre esta questão, Daniel fala: “É complicado. É um pouco mais
complicado, porque às vezes a gente quer fazer e não pode”. O participante explica essa
questão porque queria ter dado mais carinho à sua enteada, como se observa em seu relato:
Eu queria ter dado mais carinho a ela e não, não fiz. E hoje uma mulher de 19, 20 anos, é um pouco mais difícil. Eu acho que aí ficou a dificuldade maior ainda. Eu não sei se é de mim isso, mas ficou um pouco mais dificultoso. Mas, eu chego, beijo ela. Mas, não tenho a mesma coisa que se fosse uma filha minha. Fica aquela questão de querer dar carinho e ser mal interpretado. Infelizmente (Daniel).
Daniel não é mais carinhoso com a enteada pelo receio de ser interpretado
erroneamente pela sociedade, ou seja, que o julguem de abuso sexual intrafamiliar. O
participante apresenta este receio porque, no contexto social, há uma prevalência do abusador
de crianças e adolescentes ser o padrasto, conforme pode ser verificado no perfil
epidemiológico da violência sexual contra crianças e adolescentes no Estado de Sergipe, a
partir das notificações deste tipo de violência referentes aos anos de 2009 a 2017, realizadas
pela Secretaria de Estado da Saúde. Num total de 631 notificações, o vínculo do agressor com
a vítima reflete uma relação consanguínea/afetiva com a criança ou adolescente. Neste
cenário, o padrasto aparece como o principal perpetrador (216), seguido do namorado(a)
(181) e do pai (167), também se registrou a ocorrência de 32 situações cujo irmão(a) foi o
possível agressor (SERGIPE, 2017). Quando perguntado sobre quais as responsabilidades que
um padrasto deve ter para com os seus enteados, Eliane menciona:
Acho que todas. É como se fosse um pai, então eu acho que todas as responsabilidades de um pai, um padrasto tem. [...] se ele assumiu o casamento, se ele assumiu o filho, não importa se ele gerou aquela filha ou aquele filho, então ele tem que assumir todas as responsabilidades do pai (Eliane).
Em conformidade com sua esposa atual, Daniel responde:
Todas. Eu acho que até mais. Porque às vezes eu sinto que não posso agir da forma que poderia, seja na questão do carinho e também às vezes, você quer dizer um não, uma coisa. Você chega: “Peraê, deixa eu consultar a mãe. Deixe eu consultar a mãe pra ver se é isso mesmo”. Às vezes não, às vezes dou bronca mesmo e não tem essa não, eu digo mesmo o que tem que dizer. Mas, há situações que eu digo: “Deixa eu saber da mãe o que é que pode ser feito”. A gente tem que ter cuidado. Ter cuidado porque do outro lado tem uma mãe e a gente sabe que quando você pensa em piscar para um leão, é ruim, mas se você pensar em piscar para um filhote de leão, é pior ainda. E ela é leonina. É complicado, é assim, você não pode, às vezes eu tomo ponderações, tomo atitudes, ponderações que eu digo: “Êpa! Vai sobrar pra mim dessa vez”. Mas, não sobra. Ela entende, graças à Deus, entende, o que foi que eu disse, o que foi que eu fiz, porque eu fiz. Ainda bem isso, porque eu não quero o mal, eu quero o bem. Tem que entender que a situação é: você pode e ela, da mesma forma. Muitas vezes, “Olhe, eu disse isso, isso e isso a fulano”. Agiu correto, não agiu por... Às vezes também digo também “pegou pesado, manera, manera, manera, porque pegou pesado” (Daniel).
O exercício da autoridade nas famílias recasadas é um elemento fundamental para a
compreensão da dinâmica familiar. Daniel aponta que consegue exercer sua autoridade com a
enteada, porém informa que há limitações. No entanto, em algumas situações sua autoridade é
legitimada, como pode ser visualizada no diálogo entre ele e sua enteada, relatado pelo
participante:
Lara (enteada) nunca me disse que não ia obedecer. Retruca, bate o pé, bate o pé mais com a mãe do que comigo. Com a mãe ela bate o pé, questiona muito mais que comigo. Comigo ela argumenta, com a mãe ela faz birra mesmo: “Eu vou, mais não sei o que, não sei o que”. Comigo ela não tem birra não. “Não vai”. “Por que não vai?”. “Por causa disso, disso e disso”. “Mas...”. “Já lhe expliquei o porquê, então não tem muito, parou, acabou” (Daniel).
A partir da fala de Daniel, observa-se que sua enteada se utiliza da argumentação
quando conversa com o padrasto. Nesse sentido, Ferreira (2011) afirma que a comunicação é
um elemento central das interações familiares, e que o “diálogo é estimulado e o
desenvolvimento da lógica argumentativa encarado como uma mais-valia em matéria de
educação” (p. 174).
Na família recasada, a mãe é o elo entre o padrasto e a enteada, e ela pode ou não
dividir com o esposo as decisões relacionadas aos filhos, bem como pode oferecer ou não
legitimidade para que seu parceiro exerça autoridade sobre a criança (SARAIVA, 2013). No
caso de Daniel, Eliane partilha as decisões associadas a sua filha, mas também possibilita a
ele o exercício da autoridade com Lara, como se percebe na fala do participante:
“Ó eu vou viajar” (enteada comunicando ao padrasto). É mais uma consulta dizendo que vai. Mas, enfim é uma consulta. Porque se eu disser que não vai, não vai. Mas, a gente sempre assim, com o filho, a gente, eu acho que eu sou mais cuidadoso com elas do que com eles, na verdade, nessa questão assim, “Vai viajar? Pra onde? Com quem?” Essas coisas é mais (Daniel).
Saraiva (2013) assinala que o fato do pai biológico não prover a subsistência dos
filhos, e o padrasto e a mãe assumirem esse encargo, possibilita a aceitação da interferência
do novo companheiro da mãe na vida das crianças/adolescentes. Constata-se essa realidade na
dinâmica familiar de Daniel (padrasto), Eliane (esposa atual e mãe) e Lara (enteada), pois o
pai biológico não cumpre com seus deveres em relação ao pagamento da pensão alimentícia,
sendo o sustento de Lara assumido pela mãe e pelo padrasto, oportunizando a ele cuidar e
educar sua enteada.
Quando perguntado sobre como é seu relacionamento com a enteada, Daniel
menciona: “Bom, agradável. Poderia ser mais carinhoso, mas eu limito um pouco para não ser
mal visto e intencionado, achar... É uma mulher hoje, tem 19 anos, 20 anos é uma mulher”.
Similarmente, Eliane afirma que o relacionamento entre seu esposo atual e sua filha é muito
bom, como se observa na seguinte fala:
Ah! É um relacionamento bom. Eu considero um relacionamento muito bom. Apesar de eu pensar às vezes que ele está pegando no pé dela. Mas aí depois, eu disse: “Não. Ele pega no pé dela, mas é pra o bem dela. Se fosse o pai também não faria diferente”. Então, muitas das vezes, ele agiu melhor até do que o próprio pai agiria com ela. Pelo fato dele (padrasto) estar presente, dele (padrasto) conhecer as limitações dela. Ele (padrasto) sabe muito mais de Lara do que o próprio pai (Eliane).
A partir do relato apresentado anteriormente, segundo a participante, o padrasto tem
papel ativo no que concerne à educação da enteada. Sobre a evolução do relacionamento com
Lara, o ele fala:
Foi uma aprendizagem, para mim e para ela, e a gente foi se conhecendo, a gente se conhece muito, muito bem. Foi cada dia melhorando, foi cada vez melhorando, se firmando. [...] Então, assim, ela aprendeu muito comigo, então ações dela, muitas vezes são muito parecidas comigo, nas situações, às vezes é muito parecida com a ação do pai também. Quanto à mãe, muito pouco parece com a mãe, eu acho. Mas, as ações acho muito assim. Então, acho que a convivência foi muito boa, é muito boa. Só a parte do carinho, mas tudo bem (Daniel).
De igual modo, Eliane menciona que o relacionamento foi melhorando à medida que
aumentava a convivência. O fato de o padrasto ser presente na vida dela, e por inseri-la em
atividades de lazer juntamente com os filhos da primeira união, contribuíram para a adaptação
de Lara nessa nova família.
Acho que essa evolução foi crescendo, porque no início, Lara era uma criança que tinha sete, oito anos. Ela tinha toda minha atenção, era com ela. E até dormia o tempo todo comigo. Eu estava separada do pai, então a criança passa a se apegar mais com a mãe. E aí ele entrou na vida da gente, aí eu já fui tirando ela, começou a tirar ela do quarto. Porque não era pai dela, então não tinha o porquê dela estar dentro do mesmo quarto, até mesmo por conta da idade, da convivência. E aí, eu achei que no início ela sentiu isso. Mas como ele era muito presente com os meninos dele, acabava
incluindo ela nas saídas, de levar pra shopping, de levar numa praia, de
passear (Eliane).
Diante das falas de Daniel e Eliane, verifica-se a importância da dimensão temporal na
consolidação do relacionamento entre padrasto e enteada, em que o vínculo afetivo entre eles
vai sendo construído ao longo do tempo de convivência. Nesta construção, Ferreira (2011)
afirma que é necessário dar tempo para que eles se conheçam e estabeleçam entre si uma
relação de confiança. Assim, o transcorrer do tempo de convivência é um elemento relevante
para a estruturação da relação padrasto-enteado.
A pouca idade (sete anos) da enteada no período do recasamento contribuiu para sua
integração na nova vida familiar, pois o padrasto pôde acompanhá-la desde a infância,
possibilitando a construção de uma relação de proximidade entre ambos e, ao mesmo tempo,
favorecendo o envolvimento dele no cotidiano da enteada, permitindo o desenvolvimento de
uma relação parental, marcada pelo compartilhamento entre o casal recasado e das
reponsabilidades parentais (FERREIRA, 2011).
Em relação ao envolvimento do padrasto com Lara (enteada), Eliane menciona que
quando sua filha tinha oito anos, ela teve dificuldade em participar dos cuidados e educação
da menina, porque pela manhã e tarde trabalhava em outra cidade e cursava faculdade à noite.
Neste período, a presença de Daniel foi imprescindível, pois como ele trabalhava em regime
de turno, dispunha de mais tempo em casa. Esta disponibilidade e a ausência materna por
motivos profissionais possibilitaram o envolvimento do novo membro familiar com a enteada,
como pode ser apresentado a seguir:
Teve um tempo que eu senti que eu andei um pouco distante de Lara, mas pelo comportamento dela para comigo, muito agressiva. Então, eu não sei se é por conta da minha correria de trabalho, quando Lara era pequena. Lara tinha oito anos, eu entrei na faculdade, então eu trabalhava o dia todo, à noite estava na faculdade. Então, dela de pequenininha até os oito, nove anos, eu estava bem presente, só que depois eu comecei a estudar. Então, o meu tempo para com ela era muito pouco. Aí a gente veio para o bairro que reside hoje, ela estudava aqui e ele (Daniel), como tinha horários de turno, ficava muito mais tempo com ela do que eu. Eu trabalhava em outra cidade, quer dizer, acordava cinco e meia da manhã, seis horas estava no ponto para pegar o ônibus, ia para a cidade em que trabalhava, chegava aqui sete horas da noite e aí, eu não tinha tanto convívio, não tive, nessa época com ela. [...] a gente se distanciou um pouquinho e ele (padrasto) ficou mais presente. Aí ele ia para escola, onde ela estudava, ele levava, ele pegava, por conta dos horários dele, porque muitas das vezes, ele estava o dia todo dentro de casa. Aí, criou um pouquinho. [...] Eu viajava muito também. Teve uma época que eu peguei uma função na empresa que eu dava treinamentos, então eu tinha que, praticamente toda semana, ir para Salvador, ir para o interior da Bahia, passar dois, três, quatro dias. E esse período que eu estava longe, ela estava com quem? Com Daniel. [...] Então, ele ficava muito mais tempo com ela do que eu, porque além de ter o meu trabalho indo para a empresa e chegando à noite, tinha as viagens que eram muitas (Eliane).
De acordo com o relato anteriormente descrito, Daniel se responsabilizava pela
enteada. Eliane afirma que Daniel estava disponível para sua filha e que ambos (padrasto e
enteada) tinham atividades compartilhadas, conforme se observa em sua fala:
Fazem, sempre que podem e ele (padrasto) incentiva: “Vamos fazer caminhada?” “Lara, vamos pedalar?” Coisas que os meninos (filhos de Daniel) não gostam, nunca gostaram. Nunca gostaram de fazer atividades, nunca gostaram de pedalar. Então, ele pegava ela (Eliane).
Desse modo, Daniel apresentou elevado envolvimento paterno em decorrência das
atividades compartilhadas, que foram facilitadas por terem afinidades. Além disso, o
participante se responsabilizava pela enteada mesmo depois que sua esposa não mais
trabalhava em outra cidade, e estava disponível sempre que ela precisasse. Confirmando os
relatos de Eliane expostos anteriormente, Daniel diz que tem uma interação maior com a
enteada do que com os filhos da primeira união conjugal, pois tem mais afinidade com ela:
“Faço mais (atividades) com ela (enteada) do que com meus filhos. [...]. É uma caminhada, é
uma praia, vamos viajar. Então assim, ela tem muito mais gostos em comum comigo do que
eles. Ela gosta muito mais das coisas que eu gosto do que eles mesmos” (Daniel).
Daniel afirma que tem disponibilidade para a enteada, e sobre a responsabilidade, o
participante diz que Lara é muito independente, ou seja, tem autonomia na sua vivência atual,
não necessitando de sua atuação, mas busca orientá-la em suas escolhas. Quando sua enteada
era criança, Daniel diz que contribuiu com a criação dela, como se verifica na fala abaixo:
Muitas vezes fui buscar em colégio, deixar em colégio, ficar na porta do colégio, levar para médico, levar para o hospital, isso eu fiz muito. Fiz porque assim, a esposa trabalhava no administrativo de empresa, então passava o dia todinho, basicamente levantava e saía, só chegava no final do dia, já à noitinha e quem ficava em casa era eu, porque eu trabalho em regime de turno, então quando não estava trabalhando, estava em casa, ajudando, cuidando dela, levando em colégio, pegando em colégio, então sempre foi assim (Daniel).
De acordo com Ferreira (2011), a construção da relação do padrasto com a enteada se
caracteriza pela disponibilidade dele para interagir com ela no cotidiano familiar. Além disso,
o novo esposo partilha com a mulher os cuidados da enteada, desenvolve atividades
exclusivas com ela, como por exemplo, fazer caminhadas e andar de bicicleta e,
simultaneamente, apresenta abertura ao diálogo com a enteada.
No relacionamento com a enteada, o padrasto diz que ele e a mãe dela são
responsáveis pelos aspectos educacional, financeiro e afetivo, no entanto, ele entende este
último ponto como uma forma de cuidado. E quanto aos cuidados físicos, Daniel afirma que é
sua esposa atual quem assume esse encargo. Eliane tem uma percepção distinta de seu
companheiro em relação a quem assume responsabilidade pela sua filha, conforme pode ser
verificado no relato a seguir:
Eu acho que é mais Daniel, é mais ele. Ele é que está mais assim, na hora que ela (enteada) vai tomar uma decisão, ele diz a ela: “Não, não é assim não”. Ele cobra mais, ele orienta mais até mesmo do que eu. Então, eu acho que é ele. Na hora de decidir: “vamos procurar um curso. Lara, você vai fazer inglês, você não vai fazer isso”. É ele. Sempre foi ele, desde eles (enteada e filhos do primeiro relacionamento conjugal) pequenos. Como ele foi muito envolvido, ele queria resolver tudo. Isso, no início, até atrapalhava um pouco o nosso relacionamento, porque ele queria fazer tudo. Ele queria ser a mulher de dentro de casa (Elaine).
Assim, para Eliane, Daniel é o responsável pela educação de Lara, além de se
responsabilizar pelos cuidados físicos dela. Acerca do sustento financeiro e da afetividade, a
esposa atual afirma que os dois partilham essa responsabilidade em relação à Lara. Desse
modo, ser padrasto significa estar presente, cuidar, educar e dar conselhos.
Daniel se percebe como uma figura parental que compartilha com a esposa as
responsabilidades relacionadas à enteada, bem como as decisões e a autoridade parental,
sendo esta mediada pela mãe (ATALAIA, 2016), como pode ser visualizado no relato adiante:
Acho que os dois têm que ter papel, o papel de mãe e, no caso meu, padrasto é o mesmo. A criação é a mesma, tem que ser a mesma. É o casal. É a família. Então assim, o dizer sim e o dizer não, tem que ser os dois. Ontem à noite a gente estava conversando que ela (enteada) quer viajar. Então, eu já entendi que não deveria, mas a mãe acha que deveria, mas quando foi hoje, a mãe veio argumentar porque já conversou com ela e já soube argumentar melhor. Tá certo, então deixe (padrasto permitindo o pedido da enteada) (Daniel).
Diante da fala de Daniel, ele e sua esposa atual negociam acerca da educação da
enteada, ocorrendo a partilha de responsabilidades entre o casal.
Daniel afirma que não há aspectos ou pessoas que favorecem ou prejudiquem o seu
envolvimento com a enteada no recasamento. Ele acrescenta que o fato de fornecer carinho à
enteada poderia melhorar a relação com ela. Eliane concorda com seu esposo sobre esta
questão (pessoas que favorecem o envolvimento do padrasto com a enteada), e afirma que seu
afastamento por motivo de trabalho favoreceu a relação do esposo com sua filha. Sobre
aspectos que prejudicam o relacionamento de Daniel com a enteada, Elaine tem a mesma
opinião de Daniel, e diz: “Nem o pai. O pai dela nunca se envolveu”, ou seja, não houve
aspectos ou pessoas que dificultaram o envolvimento entre Daniel e sua enteada, pois o pai
biológico foi e é ausente na criação da filha, como destacado anteriormente.
Quando perguntado sobre como sua filha se refere a Daniel, Eliane menciona: “Bom,
como é que ela diz? Bomdrasto ou é pai, pai palhaço, alguma coisa assim. Mas, ela gosta
muito, realmente dele”. Por sua vez, o padrasto, diz que Lara se refere a ele como “paiaço” ou
como Júnior. Acerca desta questão, o participante fala:
Eu tenho uma carta dela, isso ano passado, que depois que eu vi a carta, eu chorei. “Para uma pessoa que nunca quis ser meu pai”. Aí, bota aspas do lado, paiaço. “Que sempre quis que eu fosse, nunca pretendeu ser meu pai, mas que sempre quis ser meu paiaço”. Então assim, ela sempre me tratou muito bem, graças a Deus (Daniel).
Observa-se que o padrasto se preocupa mais com a construção de um laço relacional
baseado no afeto e nas interações diárias do que com o seu reconhecimento enquanto figura
parental, isto é, com o seu estatuto na família. Neste contexto, Daniel afirma que nunca fez
questão de ser chamado de pai, porque ele não deveria ocupar o lugar do pai biológico.
Apesar disso, cabe a ele a responsabilidade de cuidar e educar, como aponta a seguir:
Eu nunca pedi a ela (enteada) para me chamar de pai. Logo quando a gente começou a morar, minha enteada tinha sete anos. E aí, um dia sentei com ela e disse: “Olhe”. Logo no início, “Eu não quero que você me chame de pai, me chame de paiaço”. Porque pai, eu acho que deve ser o seu, é o que você tem, presente ou ausente, ele é seu pai. Agora, a mim cabe criar, dar o que eu posso, e também puxar a orelhinha quando for preciso e assim eu faço (Daniel).
Ainda acerca do lugar ocupado pelo padrasto e pelo pai biológico, Daniel acrescenta:
Não queria ser interpretado. É como se eu fosse lá e tomasse o lugar dele e ele depois se queixasse, depois de um tempo. Nunca fiz questão, mesmo porque eu queria deixar o espaço para ele. Para amanhã, depois acontecesse o que acontecesse. “Não, eu não fui porque ele (padrasto) tomou o meu lugar”. Então, nunca tomei o lugar dele. Fiz o que ele deveria ter feito. Se tivesse casado também, poderia ter feito. Mas, fiz o que ele deveria ter feito por ela. Mas, não queria ocupar o espaço dele. Não queria que ela deixasse de chamar ele de pai. Como até hoje não deixa, ela chama ele de pai. Reclama dele. Converso com ela sobre ele. Mas, eu não quero o lugar dele, eu acho que ele tem espaço, cada um tem espaço no coração do outro. Não precisa isso. Não tenho ciúmes dele, não sei se ele tem ciúmes de mim (Daniel).