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2.4.1 Generalidades

Para o aproveitamento hídrico, dimensionamento hidráulico, e manejo de bacias hidrográficas, o escoamento superficial é o componente do ciclo hidrológico de maior importância. Por isso, é um dos mais estudados, observados e modelados na hidrologia (MELLO; SILVA, 2013).

O escoamento superficial abrange desde o excesso de precipitação que ocorre logo após uma chuva intensa e se desloca livremente pela superfície, até o

escoamento de um rio, que pode ser alimentado tanto pelo excesso de precipitação como pelas águas subterrâneas.

Sendo assim, o escoamento superficial total, ou simplesmente escoamento superficial, é composto de 3 componentes: escoamento superficial direto (Q), escoamento sub-superficial, e escoamento base ou subterrâneo. O primeiro componente é gerado por precipitações com intensidades maiores do que a capacidade de infiltração do solo escoando diretamente sobre a superfície. Esta parcela do escoamento é conhecida também como precipitação efetiva ou deflúvio superficial (MELLO; SILVA, 2013). Constitui-se de uma das mais importantes fases do ciclo hidrológico no que diz respeito ao dimensionamento de obras hidráulicas e manejo de bacias hidrográficas, por influenciar decisivamente no transporte de sedimentos e inundações.

Vários são os fatores que influenciam no escoamento superficial direto, sendo que estes podem ser de natureza climática, relacionados ao padrão de precipitação, ou de natureza fisiográfica, relativo às características da bacia. Dentre os fatores climáticos destacam-se a intensidade e a duração da precipitação, além da quantidade total de chuva ocorrida antes do evento considerado (umidade do solo antecedente). Neste contexto, as precipitações com origem convectiva (alta intensidade e curta duração) são de extrema importância para estudos de cheias em pequenas bacias hidrográficas ou áreas urbanas (MELLO; SILVA, 2013). Concernindo aos fatores fisiográficos, é dada uma atenção especial aos atributos e relevo dos solos, neste sentido, normalmente bacias que apresentam solos com maior permeabilidade proporcionam cheias de menor magnitude, pois sua alta taxa de infiltração reduz a parcela associada ao escoamento superficial direto (ou deflúvio).

Esse comportamento hidrológico, de maior ou menor permeabilidade da maioria dos solos tropicais, deve-se principalmente à sua estrutura propriamente dita, que caracteriza a sua capacidade de infiltração e resistência à erosão

(MELLO; SILVA, 2013). Em outros casos, a textura também tem importância sobre a infiltração do solo, uma vez que os solos com uma granulometria maior (textura média a arenosa) apresentam uma maior facilidade de infiltração da água no solo. Nesse contexto, alguns Latossolos, tais como os vermelhos, que são solos argilosos, porém, altamente intemperizados, apresentam uma alta capacidade de infiltração devido à sua estrutura granular, passando a apresentar um comportamento hidrológico semelhante a solos arenosos.

Ainda a respeito dos fatores fisiográficos, vários autores têm dado uma atenção especial ao relevo na caracterização do escoamento superficial direto. Solos com relevo mais acidentado tendem a provocar cheias com maiores volumes, além de aumentar a velocidade do escoamento superficial direto, o que, por sua vez, aumenta a taxa de erosão do solo. Em relevos mais movimentados, a ação da força gravitacional atuará sobre a parcela da precipitação que atingiu o solo, forçando-a a se movimentar com rapidez sobre o mesmo, impedindo assim, sua infiltração. Isso ocorre porque o processo de infiltração e de redistribuição da água no solo é regido pela ação de forças gravitacionais (água presente nos macroporos), e forças de capilaridade e adsorção (água retida na matriz do solo). O vetor da força gravitacional não é normal à superfície do solo, tendo sentido ao centro de gravidade da Terra. Portanto, caso o relevo seja acidentado, ou seja, com uma considerável declividade, a força gravitacional atuará na movimentação da água que se encontra na superfície do solo, e não atuará a favor da infiltração da água no solo.

O escoamento sub-superficial ocorre numa camada de solo saturada próxima à superfície, podendo contribuir e influenciar o próprio Q.

Por último, o escoamento base ou subterrâneo é aquele produzido pela drenagem natural dos aquíferos, com significativa importância do ponto de vista ambiental, uma vez que refletirá a capacidade de armazenamento de água da

bacia e sua transmissividade, com reflexos para a manutenção do escoamento durante o período de estiagem. Seu comportamento em termos dinâmico é relativamente lento, assemelhando-se ao decaimento de uma curva exponencial (MELLO; SILVA, 2013).

Denomina-se hidrógrafa ou hidrograma, a representação gráfica da vazão que passa por uma seção de controle em função do tempo. Embora uma hidrógrafa possa ser a representação das vazões médias diárias para um ano (também denominada fluviograma), também podem ser caracterizadas apenas para um evento de chuva isolado. No Gráfico 1, observa-se o comportamento das vazões ao longo do ano hidrológico 2011/2012 da bacia hidrográfica do Ribeirão Jaguara (BHRJ), que objeto deste estudo.

Gráfico 1 Hidrograma referente ao ano hidrológico 2011/2012 na BHRJ

O comportamento do hidrograma depende de vários fatores, sendo os principais: relevo, cobertura e forma da bacia, duração e distribuição espaço temporal da precipitação, condições do solo, e modificações artificiais na rede de drenagem (MELLO; SILVA, 2013).

2.4.2 Separação dos escoamentos numa hidrógrafa

Conforme mencionado anteriormente, o escoamento total que se manifesta no hidrograma é composto pelo escoamento superficial direto, escoamento sub-superficial e escoamento base ou subterrâneo. Entretanto, diante da dificuldade e das incertezas em se conseguir separar o escoamento superficial direto do escoamento base, e devido à parcela precipitada sobre o canal ser pequena, costuma-se considerar que o escoamento total do hidrograma é composto apenas pelos escoamentos superficial direto e subterrâneo (WILKEN, 1978). A variação nos valores de vazão que ocorre no escoamento superficial direto é muito maior do que aquela que ocorre nas vazões do escoamento subterrâneo.

Desta forma, fica evidente que as águas superficiais, pela sua maior velocidade de escoamento, preponderam na formação de enchentes, enquanto que a contribuição subterrânea pouco se altera, mesmo diante de grandes precipitações (PINTO et al., 1976). Portanto, verifica-se uma grande necessidade em separar estes dois processos no hidrograma, para que possa ser entendido e estimado o comportamento do escoamento superficial direto numa bacia hidrográfica, a fim de permitir inferir sobre as condições de manejo na mesma.

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