CAPÍTULO 2 O ESCRITOR LITERÁRIO: UM TRABALHADOR DA
2.2 O escritor literário, trabalhador e artista da palavra
A proposta é revelar o mundo criativo e transformador dos escritores em seu trabalho retratando elementos de sua organização, a singularidade de valores em que estão inseridas, as relações profissionais, as dificuldades na produção de seu trabalho, assim como as possibilidades de produção de subjetivação do trabalho e as relações entre trabalho e vivências de prazer-sofrimento e o processo de sublimação e identidade. O percurso literário ressalta pontos da literatura e da história de vida dos escritores literários e apresentar como é constituída a organização de trabalho desses trabalhadores da palavra.
O escritor utiliza da arte para o seu trabalho, e o fazer do artista é escreve literatura e seus modos de produção de subjetivação a partir dessa atividade laboral; não cabem aqui definições do fazer artístico, a não ser quando a discussão exigir reflexões ao fazer e às relações profissionais desses artistas da palavra. Objetiva-se ver o escritor como um trabalhador e entender como utiliza sua arte, que deve ser construída por ele, para que seu trabalho possa ser apresentado com arte.
É um trabalhador que se insere na lógica de um tempo histórico. Cada escritor acompanha sua época, seu momento e seu contexto histórico. Vive na sociedade de consumo e adapta-se para existir, mesmo que de modo tenso e com certos conflitos nessa realidade. Como destaca Enriquez (1994 e 1997), o consumo pelo consumo e a consequente descartabilidade dos bens questiona o valor do trabalho como emancipador do homem, como foi reverenciado pelo século XVIII, após a Revolução Industrial na Inglaterra. O trabalho torna-se o centro de uma utopia industrial salvadora da humanidade. Leva-se em conta o fator humano e constrói-se a solidariedade entre os homens, condição que se mantém até os anos de 1970.
A virada neoliberal da época intensifica o mal-estar desse modelo de civilização, realçando a faceta mortificante do trabalho. A ordem é construir para destruir em seguida. As corporações funcionam sobre o primado do lucro e derrubam qualquer possibilidade de proteção e de sentido do emprego. Empresa não tem afetos e, com bons resultados, demitem para garantir o lucro a qualquer preço; impera a ideologia da qualidade total e das reengenharias, da otimização produtiva. Olha-se a qualidade dos processos e dos produtos, mas esquece-se da qualidade de vida no trabalho e a taxa de acidentes e doenças do trabalho apesar das medidas paliativas do governo ainda os números são muito altos e os gastos com afastamentos e lesões também são elevados.
Não só de doenças do corpo, mas, nos últimos anos, as doenças emocionais como depressão, transtornos de ansiedade, síndrome do pânico entre outras, têm aumentado. Dejours (2000) afirma que se vive sob os preceitos de uma guerra econômica imaginária. Em escala mundial, os salários dos trabalhadores diminuem, enquanto os dirigentes aumentam suas riquezas. Nesse contexto insere-se o artista da palavra escrita com sua perspectiva, no plano subjetivo, de autor realização, reconhecimento e construção de sua identidade.
Com efeito, todos sabem que a literatura, como fenômeno de civilização, depende, para se constituir e caracterizar, do entrelaçamento de vários fatores sociais. Mas, daí a determinar se eles interferem diretamente nas características essenciais de determinada obra, vai um abismo, nem sempre transposto com felicidade (CANDIDO, 2004, p. 12-13).
A fundamentação histórica constitui um recurso fundamental ao pesquisador na compreensão dos temas históricos, sociais, políticos, culturais e psicológicos; aliando-se à compreensão do complexo universo do mundo do escritor literário; desde quando surgiu à escrita, há mais de 5000 anos, o homem escreve seus sonhos, desejos e palavras conforme os registros históricos.
O trabalho passa a ser a ação, o meio, que pode propiciar condições de superação do sofrimento para o prazer, quando ocorre o espaço aberto de discussão e são respeitadas a singularidade e a subjetividade de cada um, possibilitando a construção de relações mais satisfatórias (DEJOURS, 1990).
Sábato (2003), prêmio Miguel de Cervantes de literatura e um dos nomes expressivos na literatura latino-americana e mundial diz que o escritor literário tem um papel central de ser o intérprete, o porta voz da palavra, bem como o facilitador da circulação da palavra por meio dos meios de comunicação nem sempre disponíveis. O espaço de discussão não está dado, ele deve ser conquistado, construído, o que evidencia a responsabilidade do escritor literário na contribuição para a construção desse espaço de circulação do imaginário por meio
das palavras. Deleuze (2000) descreve, em vários ensaios sobre a filosofia do desejo, que, em sua maioria, voltam-se para o texto literário e para a reflexão sobre a escrita literária e seus aspectos constitutivos. “o trabalho do homem era pensar e produzir novas formas de vida” (DELEUZE, 1997, p. 57).
Pensar e produzir novas formas de viver a vida tem sido um desafio constante para filósofos, escritores psicólogos. Para Deleuze (1983, p. 11) o ato de “Escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida. É um processo, ou seja, uma passagem da Vida que atravessa o vivível e o vivido”[...] escreve ao dizer que o escritor “não é doente, mas médico, médico de si e do próprio mundo. O mundo é o conjunto dos sintomas cuja doença se confunde com o homem. A literatura aparece, então, como um “empreendimento de saúde”, como já afirmara Foucault (1980) no nascimento da Clínica.
Chiodetto (2002) mostra, por meio das lentes de sua percepção fotográfica, os registros de espaços físicos e psicológicos, que certamente ultrapassam as fronteiras da mente humana, do imaginário humano, dos olhares sem fronteiras e sem limites no horizonte utópico da realidade humana. Quando se fala sobre o sentido do trabalho para os escritores literários, estamos fazendo uma pergunta: Qual é o lugar do escritor? Qual o lugar na mente, no coletivo social, na História, na subjetividade humana? Assim como o lugar da imagem. Ela está em toda parte, em terna busca: ela cerca e acompanha o seu objeto de desejo e de legado à História humana. Imagem e linguagem se completam sinergicamente. E o poeta a inscreve sob o dom poético, sob o talento bíblico de que daquele a quem mais se dá mais lhe será cobrado. A palavra estanca parcialmente o jorro de gozo que invade o psíquico, dá forma ao que não tem nome, enxuga os excessos. Permite ao autor colocar-se mais próximo ao polo representacional da palavra ou ao polo pulsional, em um maior ou menor distanciamento e proximidade com o texto.
A linguagem literária foge ao convencional, ao óbvio, não podemos enquadrá-la como ciência, mas não podemos também ignorá-la; o autor fala à linguagem que todos temos e não sabemos que temos por isso nos identificamos com tantos escritores.
Os escritores têm muitos fantasmas como companhias em seus momentos de solidão criativa. Os sentimentos e razões vão sendo mobilizados em uma alquimia imprevisível no sentido de se construir uma escrita, um registro do pensamento e da fantasia.
Segundo Macêdo (2009), o reconhecimento do trabalho só passou a ter mais visibilidade principalmente a partir do Renascimento, quando o artista passou a ser associado à sua criação. Até esse período histórico, o trabalho do artista, com raras exceções, era comum
ficar no anonimato ou até mesmo ser mal visto, como não sendo um trabalho produtivo no mundo da normalidade econômica do capital. O reconhecimento dessa autoria criativa, com o passar do tempo, ampliou-se às diversas manifestações de arte, do lazer entre as quais a criação literária. O reconhecimento do trabalho de criação literária, com o tempo, passou a ser um fator relevante para a constituição da identidade profissional do escritor. Identidade diretamente ligada à expressão da palavra e que pode ser entendida como uma identidade profissional.
A complexidade da vida moderna exige diferentes identidades, o que também é nominado como papéis, mas essas diferentes identidades podem estar em conflito. Woodward (2009) diz que se podem viver, na vida pessoal, tensões entre diferentes identidades quando aquilo que é exigido por uma determinada identidade interfere com as exigências de outra, como na identidade de pai ou mãe e na identidade de empregado, quando em uma determinada situação pode-se entrar em conflito entre ter que ir à reunião da escola do filho e um compromisso com o seu chefe para trabalhar naquele horário extra que coincide com o horário da reunião. Tais são as exigências da vida moderna que a identidade também mudou para acompanhar essa dinâmica social e cultural da vida atual.
As identidades são fabricadas por meio da definição da diferença e essa definição ou a marcação, termo utilizado por Woodward (2009), ocorre tanto por meio de sistemas simbólicos de representação quanto por meio de formas de exclusão social, portanto a identidade depende da diferença para se definir como um marcador histórico.